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Novas geografias, velhas desigualdades

Doug Birdsall, presidente executivo do Movimento Lausanne, estava certo quando afirmou que o 3º Congresso de Evangelização Mundial foi a “assembleia evangélica global mais representativa da história”. Além dos mais de 4 mil participantes de 198 nações presentes em Cape Town, o congresso foi assistido por cerca de 100 mil expectadores a partir de quase setecentos sites que retransmitiram o evento em 96 países.

Lausanne 3 marcou de vez a nova geografia da igreja global. Nas últimas décadas, o centro de gravidade do cristianismo deslocou-se do Norte e do Ocidente para o Sul e o Oriente (África, América Latina e Ásia) e isso foi visto e anunciado no congresso. A escolha da África do Sul como anfitriã foi uma forma de fazer jus a essa mudança.
A primeira saudação no manual entregue aos participantes é assinada pelo arcebispo da Igreja de Uganda, Henry Luke Orombi: “Bem-vindos à África, nossa terra-mãe, e a Cape Town, a cidade-mãe”. Em outra mensagem, publicada no informativo diário, ele declara: “Em 1900, somente 9% da população da África era cristã. Em 2000, chegou a 46%, com 360 milhões de cristãos. Ao mesmo tempo, houve um trágico declínio no número de cristãos ativos e praticantes no mundo ocidental”. Citando Philip Jenkins, autor de “A Próxima Cristandade”, Orombi acrescenta: “Até 2025, 50% da população cristã estará na África e na América Latina e outros 17% estarão na Ásia. [...] Não somos mais apenas o alvo dos missionários ocidentais. Somos também os que enviam missionários para o Ocidente”.

Se Cape Town 2010 reivindica a representação da igreja global evangélica, convém perguntar como esse objetivo foi alcançado. Segundo Tim Stafford (articulista do site Christianity Today), quando Doug Birdsall convidou o bispo metodista da Malásia Hwa Yung para trabalhar com ele no planejamento do congresso, este perguntou: “Que tipo de conferência você quer? Um congresso normal dominado por líderes do velho Oeste ou um que represente o que a igreja é hoje?”.

Os 4 mil participantes foram escolhidos por meio do seguinte processo de seleção: o Movimento Lausanne elegeu um comitê, que incluía um representante de cada uma das doze regiões globais. Esse comitê escolheu um diretor para cada país convidado (duzentos ao todo), que deveria ser imparcial e representar toda a igreja de seu país, e não apenas seus amigos e companheiros de igreja. Para montar a delegação de cada país, esse diretor contou com a ajuda de um comitê nacional.

A quantidade de representantes dependia do número de cristãos evangélicos em cada país, com base principalmente nas estatísticas do Operation World, um guia mundial de oração (www.operationworld.org). Os comitês de seleção deveriam seguir estas orientações: concordância com o Pacto de Lausanne (declaração do primeiro congresso, em 1974), equilíbrio em termos de igrejas, etnias e gêneros, garantia da presença de jovens (30%), de mulheres (o critério era de 35%, mas a composição final foi de 27%), e de delegados que viessem do “mundo do trabalho” -- leigos que não tinham cargo oficial na igreja ou missão (10%). O resultado final não foi um perfeito espelho da igreja evangélica, mas sem dúvida o corpo mais representativo da igreja evangélica já montado.

Lindsay Brown, diretor internacional de Cape Town 2010, comentou que o equilíbrio global se refletiu também nas finanças. Os duzentos delegados da China (impossibilitados de participar porque o governo chinês se recusou a liberá-los) pagaram por todas as suas despesas, além de contribuírem com milhares de dólares para as despesas de outros. A maioria dos delegados da Índia pagou suas próprias despesas. Os da Malásia fizeram o mesmo. “China e Índia deram mais que a Europa”, disse Brown. “Essa é a primeira vez que eu vi esse tipo de liberalidade quanto aos recursos financeiros.”

A representatividade desse novo cenário foi vista na composição das delegações: 70% dos participantes eram da África, América Latina e Ásia. Isso contrasta fortemente com Lausanne 1, em que 70% dos participantes eram do Ocidente, e com os números da conferência missionária mundial em Edimburgo, há um século. Nesta, dos 1.200 delegados, quinhentos eram dos Estados Unidos, quinhentos da Grã- Bretanha, quatro da Ásia e nenhum da África.

A composição dos palestrantes e dos músicos também evidenciou essa representatividade: dos 42 palestrantes e mestres de cerimônia apresentados no caderno do participante, treze eram da África, onze da Ásia, oito da Europa e sete dos Estados Unidos e Canadá. Havia também um palestrante da Oceania.
A participação de apenas dois latino-americanos foi um grave senão. Os 33 músicos e cantores encarregados da direção da adoração provinham de quinze países diferentes, de praticamente todos os continentes.

A sugestão dada aos congressistas (“você pode tomar café-da-manhã com alguém da Ásia, passar o intervalo com alguém da América Latina, almoçar com um europeu e chamar um intérprete para ajudá-lo no jantar com alguém da Eurásia ou do Pacífico Sul”) pode sugerir que as tensões entre o Norte e o Sul estariam resolvidas. Porém, não é bem assim. Na apresentação do programa para o sexto dia, cujo tema era “formando parcerias no Corpo de Cristo rumo ao novo equilíbrio global”, os diretores do congresso reconhecem:

O centro de gravidade da igreja cristã mudou do Norte para o Sudeste e Sul (África, América Latina, Ásia). Nesses continentes e entre suas diásporas vemos grande fervor espiritual e engajamento holístico, e bons exemplos de liderança como à de Cristo-servo. Porém, o centro da liderança organizacional, do controle financeiro e das tomadas de decisão tende a permanecer no Norte e no Oeste. [...] [Isto] nega a verdade de que, no Corpo de Cristo, todos nós precisamos uns dos outros. O problema pode surgir por ignorância, estruturas falhas, independência e acúmulo de poder regional.

Um multiplex e algumas sessões de diálogo abordaram esse tema. Um dos palestrantes citou a estatística da ONU de que os cristãos doam, em média, 2% para missões e estimulou os participantes a imaginarem o que aconteceria se aumentassem para 3 ou 4%. Incentivou-os a pensar no Espírito Santo como inspirador das doações. Ele e outros insistiram que os temas “mordomia” e “parcerias” devem ser tratados juntos.

Richard Stearns, presidente da Visão Mundial nos Estados Unidos e autor de “A Grande Lacuna” (Editora Garimpo), afirmou que o Ocidente abraçou uma visão fraca e unidimensional do evangelho. “É um evangelho que protege o “status quo” injusto, que não exige nada do rico, no qual falta poder para mudar o mundo ou ganhá-lo para Cristo”.
O teólogo latino-americano René Padilla, uma semana após o congresso, lamentou:

Tristemente, o maior obstáculo para implementar uma verdadeira parceria na missão é a riqueza do Norte e do Ocidente; a riqueza que Jonathan Bonk, em seu importante livro “Missions and Money” (Missões e dinheiro), descreve como “um problema missionário ocidental”. Se é assim, e se o Movimento Lausanne vai contribuir significativamente com o cumprimento da missão de Deus por meio de seu povo, chegou o momento de a força missionária conectada com esse movimento, incluindo seus estrategistas, renunciar ao poder do dinheiro e modelar a vida missionária na encarnação, no ministério terreno e na cruz de Jesus Cristo.

A crítica de René deve ser aplicada também às desigualdades internas em cada país (seja o Brasil ou outro) e em cada região (seja a América Latina ou outra).
A confissão lida na cerimônia de encerramento de Lausanne 3 pode ser um bom começo rumo ao “equilíbrio global”:

Diante do Senhor, arrependemo-nos da extrema desigualdade material dentro da igreja global de Cristo, [...] do desequilíbrio dos recursos disponíveis para a missão em diferentes partes da sua igreja. Firmamos o compromisso de buscar um novo equilíbrio global enraizado no amor mútuo e profundo e na parceria humilde dentro do Corpo de Cristo em todos os continentes.



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