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Colunas — Entrevista

Fundamentalistas e modernistas

O reformador francês João Calvino tem uma dívida de gratidão com o pastor brasileiro Odayr Olivetti, pois foi este quem traduziu para o português, da edição original francesa de 1541, os quatro volumes de “As Institutas” de Calvino. Além deste, Olivetti já traduziu mais de 130 livros, de autores como Charles Spurgeon, Martyn Lloyd Jones, John Stott, J. R. Beeke, entre outros. É presidente da Comissão de Tradução da Bíblia na Nova Versão Internacional (NVI). Nascido em Rio Claro, SP, casado com Azená Valim Olivetti, pai de três filhos e avô de seis netos, Odayr Olivetti, 82 anos, tem exercido um longo ministério como missionário no Brasil e no Chile, professor de seminário, pastor e fundador de igrejas e escritor.

Fundamentalismo é sinônimo de conservadorismo?
Popularmente sim; tecnicamente não. Por definição, o fundamentalismo resultou de esforços para defender e sustentar as verdades fundamentais da fé cristã. Por fim veio a identificar-se com um movimento agressivo na defesa da sua posição. Conservadorismo é termo pejorativo para designar os que, na defesa da sua posição, opõem-se a posturas inovadoras. Como acontece em todos os movimentos, existem os extremistas entre os fundamentalistas e os conservadores. Para evitar que me identificassem com extremistas, adotei a partir da década de 1960 a expressão “moderação dinâmica” -- que evita os extremos e a pecha de estagnação.

Qual é o antônimo de fundamentalismo?
O antônimo de fundamentalismo é modernismo, em suas variantes decorrentes de circunstâncias variantes. Não uso os termos liberalismo, liberais (senão entre aspas), porque o termo liberal é altamente positivo e salienta largueza de visão e liberdade de pesquisa. Sobre isso tive experiência igual, em ocasiões diferentes, com dois líderes cristãos, um americano e um alemão. O que digo de um vale para ambos: Quando eu disse que tinha a impressão de que os modernistas eram mais fechados que os presbiterianos, sendo que na biblioteca do Seminário Presbiteriano do Sul havia obras de todos os naipes doutrinários e teológicos à disposição de quem os quisesse utilizar, ouvi isto: “Você tem razão. No seminário em que estudei não havia essa liberdade. Só fui conhecer posições não ‘liberais’ depois que saí do seminário”. O americano tinha estudado no Union, de Nova York; o alemão, num seminário da Alemanha.

Os reformados que fizeram em pedaços as imagens sacras em Zurique, na época de Zuínglio (1523), podem ser chamados fundamentalistas?
Não acredito que esse qualificativo seja próprio nesse caso. Eles eram adeptos de um movimento de reforma. Saíam de um ambiente inquisitorial e não tinham aprendido ainda, nem o espírito do cristianismo maduro, por um lado, nem a arte de fazer média, por outro.

Parece que algumas denominações protestantes brasileiras (Igreja Presbiteriana Fundamentalista, Igreja Batista Fundamentalista) se orgulham do nome fundamentalista. O que acha?
Entendo que se orgulham (os que de fato se orgulham) porque se consideram defensores das verdades fundamentais do cristianismo, sempre atacadas por falsos mestres e por cristãos superficiais. O que é grave é que, muitas vezes, tanto o conservador como o fundamentalista defendem pontos que consideram bíblicos, mas que são matéria de interpretação, nem sempre válida.

Há algo positivo no modernismo, impropriamente chamado liberalismo?
Modernistas eruditos têm feito, por exemplo, contribuições válidas nas áreas da metodologia epistemológica e da hermenêutica. É possível aproveitar elementos de suas investigações e teses, sem adotar plenamente a posição modernista.

Há algo positivo no fundamentalismo?
Seu apego fervoroso à Escritura Sagrada como a Palavra de Deus é inspirador e desafiador.

O liberalismo ético e teológico seria uma reação ao fundamentalismo, e este, por sua vez, seria uma reação ao liberalismo?
Num sentido amplo, o espírito modernista sempre reagiu e reage contra posturas doutrinárias e eticamente firmes e rigorosas; e o genuíno espírito fundamentalista sempre reagiu e reage contra posturas que refletem conceituação doutrinária e ética de duvidosa fundamentação bíblica.

Em 1950, para evitar uma cisão, a Igreja Presbiteriana do Brasil, frente às correntes liberal e fundamentalista, assumiu oficialmente a posição de equidistância de ambos os movimentos. A equidistância seria uma covardia, uma fuga do problema?
Consideremos alguns pontos: (1) A equidistância pode ser motivada por diferentes perspectivas ou ênfases. Exemplos: (a) covardia; (b) neutralidade; (c) valorização de aspectos dos diferentes movimentos, sem plena aceitação de todos os aspectos desses movimentos. Sempre entendi a posição da Igreja Presbiteriana do Brasil no sentido do item ‘c’. (Reconheço que nem todos os líderes tinham o mesmo nível de compreensão daqueles a quem atribuo a referida posição). (2) Em Porto Alegre, em 1957, quando propus ao Conselho de Pastores uma campanha simultânea de evangelização com troca de púlpitos, os representantes das denominações mais “liberais”, fortes porta-vozes do Concílio Mundial de Igrejas, disseram que teriam que receber autorização das autoridades eclesiásticas superiores para tal realização. E não se dispuseram a buscar essa autorização. “O ecumenismo de cúpula não soube aproveitar uma expressa concretização do verdadeiro espírito ecumênico” -- e sufocou algo que, sem dúvida, teria tido forte impacto na capital gaúcha.

Muitas pessoas perdem a fé por causa do liberalismo teológico e muitas outras nunca aceitam o evangelho, escandalizadas com atitudes extremas em sentido contrário. Qual das duas posições é mais desastrosa para o reino de Deus?
Todo extravio da Palavra de Deus, por indivíduos e por igrejas, é desastroso. Judeus havia que corriam Seca e Meca para fazer um prosélito, e depois o faziam mais profundamente filho do inferno; os sacerdotes saduceus, racionalistas ou materialistas, tiveram grande influência sobre a condenação de Jesus; os fariseus, que queriam ser vistos como zelosos da lei, invalidaram a lei de Deus com as suas tradições -- às quais na prática davam mais importância do que à lei de Deus. Em meus 82 anos de vida e 56 de ministério, tenho visto pessoas recusarem a igreja, e crentes fugirem de suas igrejas por vários motivos alegados, como, por exemplo, estes: (a) “ranzinzice”, em nome de zelo pela doutrina e/ou pelos costumes; (b) relaxamento doutrinário e ético, em nome da liberdade cristã e de conceitos chamados “liberais”; (c) escândalos. Entre o fundamentalismo exagerado, rigorista, e o modernismo extremo, considero este mais desastroso. Cito resumidamente três casos ilustrativos: A esposa de um missionário que foi professor no Seminário Presbiteriano do Sul disse à minha esposa, então jovem: “Não diga a ninguém, mas eu não creio na divindade de Cristo”; A Igreja Presbiteriana do Chile, que até o fim de 1963 era um presbitério de um sínodo do norte dos Estados Unidos (reconhecidamente “liberal”), sofreu tremenda divisão, perdendo a maior parte dos membros mais ativos e mais consagrados. Fato publicado por uma revista teológica de Portugal da época: Paul Tillich, mente luminosa, certa noite foi convidado para uma recepção em sua homenagem. Em certo momento, um dos líderes do “ateísmo cristão” discursou e, a certa altura, disse a Tillich: “Nós, cristãos ateus, somos seus filhos espirituais”. O choque sobre Tillich foi tão forte que ele se sentiu mal, sua esposa o levou para casa e ele morreu naquela mesma noite. Certamente ele não esperava que as suas ideias levassem ao triste resultado de produzir esdrúxulos “cristãos ateus”!

Ortodoxia pode caminhar sem ortopraxia e vice-versa?
Ortodoxia sem ortopraxia cristã não é ortodoxia cristã; ortopraxia sem ortodoxia cristã não é ortopraxia cristã. A fé sem obras é morta; as obras sem a fé genuína, no mínimo, não são cristãs. As que o mereçam, podem ser avaliadas dentro da perspectiva da graça comum ou geral.

A tentação da prepotência e da soberba teológica é mais frequente no fundamentalismo ou no liberalismo?
Primeiro: No ambiente brasileiro, dentro do meu campo de experiência, não vejo diferença entre ambos no referido aspecto. Há casos de prepotência e de soberba teológica nos dois movimentos. Mas, quanto posso julgar, são casos isolados nos dois movimentos, não representando a generalidade. Segundo: A igreja deve empenhar-se em não refletir nem momentos nem movimentos, quer teológicos quer ético-político-sociológicos. É preciso um consciente e constante empenho em promover o retorno à preciosa fonte da verdade -- a Palavra de Deus. Esta, não vista pelo prisma do pensamento humano. Este é que deve ser visto pelo prisma da Escritura Sagrada. De modo geral, pessoas se distanciam das igrejas na proporção em que estas se distanciam da Palavra. A superficialidade do conhecimento da Bíblia gera superficialidade e irrelevância nos crentes e nas igrejas. Cristo disse que sua igreja não será derrubada por Satanás. Mas o desafio que as igrejas devem encarar com seriedade e com profundidade é: onde está a Igreja de Cristo?

Que perigos há na colocação simplista de rótulos em pessoas, igrejas e movimentos?
Alguns dos perigos que vejo são os seguintes: (1) Injustiça: Geralmente, os rótulos expressam ou realçam aspectos, não a realidade integral. (2) Erro: Os rótulos podem refletir conceitos subjetivos do rotulador -- e não os conceitos das pessoas, das igrejas e dos movimentos rotulados. (3) Generalização: Características particulares podem ser indevidamente estendidas ao todo.

Frente ao fundamentalismo e ao liberalismo, que rumo a igreja brasileira deve tomar?
Graças a Deus, ainda vejo irmãos e irmãs em Cristo que longe estão de merecerem as críticas que em geral os crentes e as igrejas recebem. Eles reconhecem que são pó, acolhem-se à infinita misericórdia de Deus e procuram crescer na graça e no conhecimento do Senhor Jesus Cristo, olhando com fé e amor para ele, o autor e consumador da fé.

Liberal e fundamentalmente, a Igreja, o corpo de Cristo, precisa dar menos atenção aos críticos e mais atenção aos pregadores e mestres que clamam contra o pecado corruptor que assola o mundo e proclamam a “graça maravilhosa”, as “doutrinas da graça”, o bendito evangelho da graça. É pelo evangelho que o Espírito Santo, não apenas cria religiosos, mas transforma inimigos de Deus em seus amigos e coloca “a vida de Deus na alma do homem”.

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