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Colunas — Ética

Ação social cristã -- realismo e espiritualidade*

Paul Freston

Durante anos, a Coreia do Sul foi tida como modelo de crescimento da igreja. Porém, em meados de 1990, as igrejas coreanas pararam de crescer e até encolheram, pelo menos como porcentagem da população. Hoje, se quisermos um exemplo de igreja que cresce na Coreia do Sul, devemos olhar para a Igreja Católica. E essa situação provocou reflexões: por que as igrejas evangélicas cresceram tanto entre os anos 60 e 80 e depois estagnaram? E por que, por outro lado, a Igreja Católica vem se expandindo? Uma das razões aventadas é a relativa falta de preocupação social genuína no meio evangélico coreano. As megaigrejas ficaram conhecidas por muitas coisas, mas não pela preocupação social. A construção de impérios eclesiásticos lhes parecia mais importante do que a seriedade no trato das questões sociais. Espero que não sigamos o mesmo caminho.

No Brasil, a Rede Evangélica Nacional de Ação Social (RENAS -- www.renas.org.br) é uma das entidades evangélicas mais significativas da atualidade, tanto para a igreja quanto para a sociedade. Organizações como esta são vitais para a igreja, para manter a atratividade evangélica, para alongar a curva de crescimento numérico e, acima de tudo, para o “crescimento integral” da comunidade cristã (pensando a igreja como, na famosa frase de Bonhoeffer, um clube que existe principalmente para os que não são sócios).

Entretanto, essas entidades são importantes também para a sociedade brasileira, apesar dos avanços inegáveis que têm havido. Porque tenho dividido meu tempo entre o Brasil e o Canadá, tenho podido olhar o país de dentro e de fora. Por menos que percebamos isso dentro do país, por mais que o ceticismo sobre o futuro continue, a realidade é que no exterior o Brasil não é visto como era há vinte anos. Porém não quer dizer que uma entidade como a Renas seja menos importante. Ainda há (e haverá por muitos anos) graves necessidades sociais e, mesmo nos países mais avançados, elas não deixam de existir. O aspecto estritamente material das necessidades pode diminuir, mas os aspectos não-materiais continuam existindo. E por mais que os governos se esforcem, não conseguem atender muito bem às dimensões não-materiais das necessidades sociais. Além disso, tem havido uma retração no papel social do Estado na maioria dos países avançados.

Há, no entanto, o perigo da frustração com a igreja evangélica “latu sensu”. Por mais que a RENAS cresça (e tem crescido), representa uma pequena porcentagem dos evangélicos. E essa frustração pode levar a um sentimento de superioridade. Podemos pensar que somos vanguarda, que somos os mais esclarecidos e os mais atuantes. E isso é perigoso. Para não deixarmos que esse perigo mine a base do nosso próprio trabalho, precisamos dos seguintes elementos: “realismo teológico, realismo sociológico” e algo que chamo de “humildade amorosa”.

O “realismo teológico” é a variedade de dons que Deus dá à igreja. A carta constitucional da igreja é a maneira como Deus distribui os dons do Espírito Santo. Isso deveria ser o princípio estruturante da comunidade cristã, conforme percebemos quando olhamos as duas principais listas de dons do Espírito Santo no Novo Testamento (Rm 12.3-8; 1Co 12.1-11). Há uma variedade de dons e essas duas listas são quase totalmente diferentes, exceto por um único dom repetido, que é a profecia. Elas parecem se referir a duas igrejas bem diferentes: a igreja de Corinto como uma igreja “carismática”, e a igreja de Roma como uma igreja “prosaica”. Além disso, o entorno de cada lista também é diferente. No texto de Romanos, enfatiza-se o exercício fiel dos dons e a humildade que deve acompanhá-lo, ou seja, a “fidelidade” e a “humildade”. Por outro lado, em 1 Coríntios enfatiza-se a “diversidade” e a “universalidade” dos dons, ou seja, nem todos têm os mesmos dons e todos recebem algum dom.

Poderíamos imaginar que Deus fizesse as coisas de forma diferente. Ele poderia ter constituído a igreja com dons para alguns e não para outros. Ou que quem tivesse certos dons fosse considerado superior a quem tivesse outros. Ou que, em vez de distribuir os dons, desse todos eles a cada um de nós. Em todos os casos, o princípio estruturante da comunidade cristã seria diferente. Porém, a realidade é que Deus criou uma comunidade cristã em que todos têm algum dom, ninguém é superior por ter um dom específico e ninguém possui todos os dons. Isso estrutura a noção de comunidade cristã e é o modelo pelo qual devemos medir e avaliar as comunidades cristãs existentes. Tal realismo teológico serve para moderarmos um pouco a crítica com relação ao fato de a RENAS não abarcar toda a igreja. Há vocações diversificadas que devem ser apreciadas e valorizadas pelos outros, mas não necessariamente imitadas por todos, pois nem todos recebem o mesmo chamado de Deus. O realismo teológico deve sempre adoçar a nossa crítica ao contexto eclesiástico maior.

O “realismo sociológico” é a ideia de que nem todo mundo é capacitado religiosamente da mesma forma. Nas palavras do sociólogo Max Weber, existem os “virtuoses” religiosos, ou seja, pessoas excepcionalmente capacitadas. (Note que a palavra é “virtuoses” e não “virtuosos”, que são pessoas cheias de virtudes, algo que todos os cristãos devem se tornar ao longo dos anos.) Os virtuoses são especialmente capacitados para certas experiências e certas habilidades religiosas (captar elementos místicos, por exemplo). E isso não tem a ver com a questão da salvação. Existem os virtuoses religiosos e a “massa” religiosa -- pessoas que não têm uma capacitação excepcional nesse campo. Por mais que a proposta evangélica seja transformar todos os membros da igreja em virtuoses (todo mundo deve ser “muito crente”, ter experiências espirituais fortes e se envolver em tudo), o fato é que isso nunca acontece. E sempre que a igreja cresce mais numericamente, isso acontece menos. É o que constatamos hoje no Brasil. A igreja evangélica virou fenômeno de massas e a distinção entre a massa evangélica e os virtuoses evangélicos ficou mais evidente. E é sociologicamente irrealista esperar que seja diferente. Podemos esperar que seja “melhor” do que hoje, mas nunca haverá 100% no patamar mais alto. Sempre haverá uma parcela considerável de pessoas que estão na comunidade cristã, mas que “vão levando”. A história mostra que isso sempre acontece.

Nesse sentido também é preciso adoçar nossa crítica. Como o processo de crescimento numérico gerou perdas em outros sentidos, houve uma perda considerável do valor da identidade evangélica na sociedade brasileira. Na medida em que a igreja cresce numericamente, podemos nos pautar cada vez menos pela média da igreja. Temos de ser cada vez mais contraculturais na própria igreja. Digo isso não para que nos desanimemos, mas para que saibamos não mergulhar no desânimo. De vez em quando, inevitavelmente, vem uma onda de depressão por causa da realidade evangélica mais ampla. Porém não devemos ceder a ela. O realismo teológico e o realismo sociológico nos ajudam a não “chutar o balde”.

Na próxima edição, abordaremos o terceiro elemento, a “humildade amorosa”.

Nota
* Palestra apresentada no 5º Encontro Nacional RENAS, em Recife, em agosto de 2010.


• Paul Freston, inglês naturalizado brasileiro, é professor colaborador do programa de pós-graduação em sociologia na Universidade Federal de São Carlos e professor catedrático de religião e política em contexto global na Balsillie School of International Affairs e na Wilfrid Laurier University, em Waterloo, Ontário, Canadá.

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