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Alá é Deus?

Marcos Amado

Esta é uma pergunta que tem inquietado muitos cristãos através dos séculos. Martinho Lutero, por exemplo, afirmava que Alá é Satanás.

A resposta que dermos a essa questão terá grande influência na percepção que temos dos muçulmanos e, consequentemente, em nossa atitude em relação a eles. Além disso, se decidirmos que Alá não é Deus, mas sim uma divindade pagã, oriunda dos tempos em que a Arábia estava submersa no politeísmo, nossa tendência será rechaçar tudo o que o Alcorão menciona sobre Deus e concluir que os muçulmanos estão na mais absoluta escuridão em relação aos atributos do verdadeiro Deus. Se, pelo contrário, aceitarmos que Alá e o Deus cristão são a mesma pessoa, alguns dos conceitos que o Alcorão transmite sobre Deus poderiam ser usados como pontes para a comunicação do conceito bíblico de Deus.

A origem da palavra Alá
Na Arábia pré-islâmica, a palavra Alá (cuja transliteração do árabe seria melhor representada pela grafia “Allah”) era usada pelos habitantes de Meca como uma referência ao Deus criador, possivelmente a deidade suprema. Alá tinha associados e companheiros, considerados pelos árabes pré-islâmicos como divindades que se subordinavam a ele.

A palavra Alá é, hoje, a palavra padrão para referir-se a Deus no idioma árabe. Além dos muçulmanos, os judeus que vivem em países árabes e os cristãos árabes usam a palavra Alá para referir-se ao Deus único, o Deus de Abraão, Isaque e Jacó.

Para os muçulmanos quem, em sua essência, é Alá?
A ideia central do islã é que existe um Deus, único e indivisível, e o nome muçulmano para esse Deus é Alá, assim como para os judeus é Elohim ou Javé. Alá é o todo poderoso, criador de um universo perfeito e organizado. O Alcorão diz que Alá está em todo lugar e “mais perto [do homem] do que a (sua) artéria jugular” (Sura 50.16).

Martin Whittingham faz um ótimo resumo sobre as principais características de Alá, conforme apresentadas no Alcorão:

“Único” -- (42.11). Ele não tem um filho (18.4-5). Por ser único, não há nenhuma semelhança entre Deus e os seres humanos.

“Criador” -- Ele é o único criador de todas as coisas, incluindo os seres humanos, o mundo, a natureza e os espíritos (7.179).

“Soberano” -- A vontade de Deus é suprema em todas as coisas. Para muitos teólogos muçulmanos, esta é a principal característica de Alá.

“Revelador” -- Deus envia essencialmente a mesma mensagem para uma sequência de profetas, mas principalmente para Maomé, que recebeu a revelação final.

“Amoroso” -- Ele ama os crentes (3.76), mas não ama os incrédulos (3.32). Porém, ele não é afetado de nenhuma maneira pelas pessoas, e seu amor não o faz sofrer. A humanidade precisa dele, mas ele não precisa de ninguém, nem se relaciona com ninguém.

“Perdoador” -- “A Deus pertence tudo quando há nos céus e na terra. Perdoa a quem lhe apraz e castiga a quem deseja, porque Deus é indulgente, misericordiosíssimo” (3.129).
“Juiz” -- haverá o dia do juízo final, quando Deus julgará a todos, enviando alguns para o paraíso e outros para o inferno. O resultado favorável deste julgamento depende das boas obras e de ser muçulmano.

Concepções diferentes sobre a mesma pessoa?
Montgomery Watt, em seu livro “Islam and Christianity Today -- a contribution to dialogue” (O Islã e o Cristianismo Hoje -- uma contribuição ao diálogo), sugere, no capítulo em que trata sobre os nomes e atributos de Deus no islã e no cristianismo, uma abordagem interessante que talvez nos ajude a encontrar um ponto de equilíbrio neste tema tão complexo. Watt faz uma analogia com o casamento e menciona que, quando duas pessoas se casam, elas possuem uma determinada concepção um do outro. Vinte anos depois esta concepção certamente será diferente, pois se conhecerão muito melhor. Porém, continuam sendo as mesmas pessoas apesar de as concepções terem sido alteradas com o tempo.

Quando olhamos os atributos de Alá, conforme a concepção islâmica mencionada acima, vemos que há um grande número de atributos que coincidem com as convicções cristãs sobre o tema. No entanto, existem diferenças! A implicação do que Watt está sugerindo é óbvia: as diferenças existentes entre a concepção muçulmana e cristã sobre Deus não faz com que Deus e Alá sejam dois seres diferentes; faz, simplesmente, com que o seguidor de cada uma destas religiões tenha, em alguns aspectos, uma percepção diferente do Deus único e criador, que pode ser chamado de Deus, Yahweh ou Alá.

Talvez o exemplo da concepção que Saulo tinha de Jeová, o Deus único e criador, antes do encontro com o Cristo ressurreto, e a concepção que passou a ter de Deus depois deste acontecimento, possa dar-nos alguma luz.

Antes de seu encontro com Cristo, Saulo já era um homem que temia ao Deus verdadeiro, conforme a compreensão que ele tinha como resultado de seus estudos e reflexões das escrituras do Antigo Testamento. Como consequência destas convicções de quem Deus era e do que este mesmo Deus esperava dele, Saulo maltratava e perseguia os cristãos crendo que estava fazendo a vontade de Deus, consentia na morte de cristãos e acreditava que, se fosse necessário, deveria matar para realizar a vontade de Deus -- exatamente da mesma forma que os muçulmanos creem hoje!

Ao mesmo tempo, antes de sua conversão, Saulo cria que Deus era um Deus onipotente, onipresente, onisciente, santo, perdoador, transcendente, único, eterno, perfeito, soberano, generoso, misericordioso, bondoso, fiel etc., assim como os muçulmanos de hoje.

Ainda assim, Saulo não cria que Deus é um Deus Trino, que tinha um filho, que por meio de Jesus reconciliou consigo mesmo todas as coisas, que estabeleceu a paz por meio do sangue de Cristo e que nos deu vida com Cristo quando ainda estávamos mortos em transgressões. Tampouco os muçulmanos creem.

Além de tudo isso, Saulo não cria que Jesus é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação, que todas as coisas foram criadas por ele e para ele, que nele habita toda a plenitude e que Cristo morreu na cruz para o perdão de pecados. Obviamente, todos nós sabemos que os muçulmanos estariam totalmente de acordo com Saulo nestes pontos.

Porém (e graças a Deus há um porém!), a partir do encontro de Saulo com o Cristo ressurreto no caminho de Damasco, a concepção que Saulo tinha acerca de Deus sofreu uma transição radical. Ele tinha, em muitos aspectos, uma concepção correta sobre Deus, mas em outros, estava totalmente equivocado. No entanto, nem por isto dizemos que Saulo adorava outro Deus. O que aconteceu foi que, a partir do seu encontro com Cristo, a percepção dele foi transformada e a concepção dele foi corrigida e ampliada. Ele finalmente pode ver e entender quem Deus realmente é.

Será que nós, cristãos, deveríamos dizer que Alá e Deus são dois seres diferentes? Ou será que devemos entender que a concepção muçulmana de Deus possui noções corretas e outras equivocadas, mas que, assim como Saulo, eles poderão, a partir do conhecimento que já possuem, ter sua concepção sobre Alá corrigida e ampliada a partir de um encontro pessoal com o Cristo ressurreto?


• Marcos Amado é mestre em missiologia pelo All Nations Christian College, na Inglaterra. Foi missionário entre muçulmanos por mais de vinte anos e hoje é pastor na Igreja Batista do Morumbi, em São Paulo. Oferece o curso “De Maomé a Bin Laden -- o que todo cristão deve saber sobre o Islã”. missoes@ibmorumbi.com.br

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