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Colunas — História

No princípio... o quê? Darwin, o evolucionismo e os cristãos

Alderi Souza de Matos

Há exatos 150 anos o mundo científico e o mundo religioso foram abalados pelo lançamento de um livro. O impacto dessa obra resultou do fato de que o autor propunha uma explicação muito diferente daquela aceita tradicionalmente para a grande diversidade das formas de vida existentes na Terra. O livro foi “A Origem das Espécies” (1859) e seu autor, o biólogo e naturalista inglês Charles Robert Darwin (1809-1882). Segundo Darwin, todas as espécies de seres vivos hoje existentes, inclusive o ser humano, evoluíram a partir de um ancestral comum por meio de mutações graduais (variações espontâneas) e da seleção natural (sobrevivência dos mais aptos). Assim, ao longo de um imenso período de tempo organismos vivos simples deram origem a outros mais complexos meramente através de leis naturais intrínsecas, sem intervenção externa sobrenatural. É claro que essas proposições representavam um sério desafio para a fé cristã histórica.

Evolução de uma teoria
A idéia da evolução não surgiu com Darwin. Na antiguidade, ela já havia sido proposta pelo filósofo grego Anaximandro. Na primeira metade do século 19 tinha sido levantada por diversos cientistas, inclusive o avô de Darwin. Inicialmente foi aplicada à geologia, para então estender-se à biologia. Um evento decisivo para Charles Darwin foi a famosa viagem de estudos que fez à América do Sul no navio Beagle, durante cinco anos, na década de 1830. Nessa viagem, ele passou pelo Brasil, mas fez suas observações mais importantes nas ilhas Galápagos. Darwin inicialmente era um homem religioso, tendo inclusive, quando jovem, considerado a carreira ministerial. Em “A Origem das Espécies”, ele deixou algum espaço para a crença em Deus. Todavia, em sua outra obra sobre o assunto, “A Descendência do Homem” (1871), assumiu uma postura mais agnóstica. Ainda assim, quando morreu foi sepultado na Abadia de Westminster, a poucos metros do túmulo de Isaac Newton.

Rapidamente a teoria da evolução alcançou notoriedade e crescente aceitação. Um dos principais responsáveis por isso foi T. H. Huxley, o indivíduo que cunhou o termo “agnóstico”, que utilizou para descrever sua própria posição. Curiosamente, muitos líderes religiosos foram simpáticos à nova teoria. Dentre eles, podem ser mencionados Frederick Temple, futuro arcebispo de Cantuária, Lyman Abbott, influente clérigo americano, e Henry Drummond, biólogo e pastor escocês. Para eles, a evolução era um sinal da providência de Deus e de seu contínuo trabalho em sua criação. Outros, porém, como o pregador calvinista inglês Charles H. Spurgeon, manifestaram sua contrariedade. Na comunidade científica, com o passar dos anos a teoria evolucionista se tornou a doutrina universalmente aceita, a posição consagrada pela academia.

O julgamento do macaco
Nos primeiros cinqüenta anos após a publicação do clássico de Darwin, as reações contra o conceito de evolução biológica foram relativamente limitadas nos círculos cristãos. Na verdade, alguns aspectos do evolucionismo ganharam simpatizantes não só entre os teólogos liberais, mas também entre alguns conservadores. Dois exemplos conhecidos são o presbiteriano Benjamin B. Warfield e o batista Augustus H. Strong. Essa situação mudou radicalmente a partir da década de 1920, com a eclosão do movimento fundamentalista nos Estados Unidos. Em sua luta ferrenha contra o modernismo, os fundamentalistas adotaram uma posição antievolucionista radical. Para eles, a teoria da evolução era um sério atentado contra a inspiração e autoridade das Escrituras, pois colocava em dúvida o relato da criação contido no livro do Gênesis.

Um episódio constrangedor para esse grupo ocorreu em julho de 1925 na cidadezinha de Dayton, no Tennessee. John T. Scopes, um professor de biologia, havia ensinado a teoria da evolução em suas aulas no curso secundário, o que violava uma recente lei estadual. Quando o caso foi levado a julgamento, os dois principais assistentes da acusação e da defesa foram, respectivamente, o ex-candidato a presidente William Jennings Bryan, representante da posição fundamentalista, e o advogado agnóstico Clarence Darrow. O evento, que ficou conhecido como “monkey trial” (julgamento do macaco), teve enorme cobertura da imprensa, tendo sido o primeiro julgamento dos Estados Unidos a ser transmitido pelo rádio em âmbito nacional. Ao ser interrogado por Darrow sobre questões de Bíblia e ciência, Bryan se mostrou vacilante em muitas de suas respostas. A posição conservadora deixou uma imagem de estreiteza de mente e superficialidade.

Um desafio real
Para os cristãos, o maior problema de muitos evolucionistas está em sua postura filosófica -- o naturalismo -- que nega “a priori” qualquer lugar para Deus nos fenômenos estudados pela ciência. Esses cientistas afirmam dogmaticamente que questões de fé e questões de ciência são compartimentos estanques, incomunicáveis. O autor Phillip E. Johnson é um dos mais respeitados críticos das pretensões filosóficas das teorias darwinistas e neodarwinistas. Ele demonstra que os defensores da evolução naturalista são tão condicionados por pressuposições sobre a realidade e o conhecimento quanto os seus opositores. Dois bons livros de Johnson que abordam esses temas são “Darwin no Banco dos Réus” (Cultura Cristã) e Ciência, Intolerância e Fé (Ultimato). Esse e outros estudiosos teístas argumentam que existem questões cruciais para as quais a abordagem naturalista não tem uma resposta convincente, a começar da origem da vida e das leis precisas e universais que regem toda a realidade. Alguns deles, não necessariamente religiosos, têm proposto o conceito de “projeto inteligente” (Intelligent Design).

No âmbito do cristianismo, tem existido uma variedade de posições em relação ao assunto. Uma abordagem é o “evolucionismo teísta”, segundo o qual Deus criou de maneira direta no início do processo e desde então atua somente através de causas secundárias por meio da evolução biológica. Um exemplo clássico desse enfoque é o teólogo e antropólogo católico Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955), que reinterpretou toda a mensagem cristã em termos evolucionistas. Outra perspectiva, o “criacionismo progressivo”, entende que as atuais variedades de organismos são resultantes do processo de diversificação por meio da microevolução, a partir dos protótipos criados originalmente por Deus. Por fim, há o criacionismo clássico, segundo o qual cada espécie foi criada diretamente por Deus. Essa posição inclui o entendimento literal dos dias da criação (24 horas), de uma terra jovem (cerca de dez mil anos) e de um dilúvio universal que explicaria os depósitos sedimentares e os fósseis de hoje.

Criacionismo e educação
Recentemente ocorreu na imprensa de São Paulo mais um capítulo do debate sobre o ensino do criacionismo em sala de aula. Desta vez a controvérsia se centrou na educação básica dos Colégios Presbiterianos Mackenzie. Nestes últimos anos, essa conceituada instituição vem implantando o chamado Sistema Mackenzie de Ensino, um conjunto de materiais didáticos que procura dar uma abordagem cristã ao ensino das ciências. Por várias semanas a “Folha de São Paulo” trouxe matérias sobre o assunto. O colunista André Petry, da revista “Veja”, conhecido por suas posições secularistas, escreveu um artigo sarcástico sobre o tema. Em síntese, os autores disseram: mantenham o criacionismo restrito às aulas de religião; não o levem para as classes de ciências.

Infelizmente, o termo “criacionismo” está desgastado. Muitas vezes, é usado para descrever uma posição religiosa estreita que adota uma determina interpretação da Bíblia e rejeita em bloco o que entende ser uma visão científica antibíblica. Em seu livro “The Scandal of the Evangelical Mind” (O escândalo da mente evangélica), o historiador Mark Noll procura evidenciar os danos que a chamada “ciência da criação” tem causado ao evangelicalismo. Todavia, no melhor sentido do termo, o criacionismo é a afirmação de uma das convicções mais básicas do cristianismo. Ao contrário dos gregos, que criam na eternidade da matéria, e dos gnósticos, que a consideravam intrinsecamente má, os cristãos abraçaram a posição conhecida como “creatio ex nihilo”, ou seja, Deus criou todas as coisas a partir do nada, sem utilizar qualquer material preexistente. A criação é, portanto, boa e valiosa. Essa verdade é a primeira declaração da Escritura (“No princípio criou Deus os céus e a terra”) e do Credo Apostólico (“Creio em Deus Pai, todo-poderoso, criador do céu e da terra”).

Conclusão
No transcurso do segundo centenário do nascimento de Darwin e dos 150 anos de sua famosa teoria, os cristãos têm duas tarefas a realizar. Por um lado, devem buscar maneiras construtivas de se relacionar com o mundo ao seu redor, do qual a ciência faz parte. A ciência moderna tem raízes cristãs e muitos cientistas são, ainda hoje, homens e mulheres tementes a Deus. A pesquisa científica tem dado contribuições formidáveis à humanidade. É verdade que não pode existir harmonia plena entre o evangelho e o mundo: o escândalo da cruz sempre estará presente. Todavia, é danoso para o testemunho cristão e para a influência cristã na sociedade levantar barreiras por vezes desnecessárias em relação à cultura. Por outro lado, os cristãos não podem negociar suas doutrinas essenciais. Seria inconsistente declarar certas convicções nos templos e nas aulas de religião e suprimi-las em outros contextos. De modo cortês, mas com firmeza e integridade, eles devem mostrar que a sua fé não pode ficar restrita a um gueto. Sendo verdadeira, ela deve encontrar expressão em todas as esferas da vida, inclusive no terreno intelectual e acadêmico.


Alderi Souza de Matos é doutor em história da igreja pela Universidade de Boston e historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil. É autor de A Caminhada Cristã na História e “Os Pioneiros Presbiterianos do Brasil”.
asdm@mackenzie.com.br

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