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Colunas — Entrevista

O inverso da cultura: é preciso viver com simplicidade para que os outros simplesmente vivam

Missiólogo dos pobres afirma que as igrejas históricas precisam ouvir a voz das igrejas entre os pobres, quase todas pentecostais, porque elas não falam sobre missão integral, mas fazem missão integral

Nascido em Auckland, a maior cidade da Nova Zelândia, há 58 anos, de etnia européia, Viviam Lawrence Grigg, mais conhecido como Viv Grigg, é uma das maiores autoridades do mundo na área de missão entre os pobres. Ele é mestre em missiologia pelo Fuller Teological Seminary (Califórnia) e doutor em teologia pela Auckland University (Nova Zelândia), mas o que lhe dá essa autoridade é a experiência vivida numa miserável favela na cidade de Manila, nas Filipinas, recordando o que o japonês Toyohiko Kagawa havia feito muitos anos antes, quando encheu um carrinho de mão com seus pertences e se mudou para a favela Shinkawa, nas proximidades de Kobe. Curiosamente, Viv Grigg é batista na Nova Zelândia, membro de uma comunidade carismática nas Filipinas e assembleiano no Brasil. Apesar de haver mais mulheres do que homens no país natal do autor de "Servos entre os Pobres" e "O Grito pelos Pobres", ele casou-se aos 38 anos com a missionária brasileira Ieda, da Igreja Metodista Livre. Nos dois últimos anos, Grigg treinou cerca de 2 mil pessoas em dezenove cidades na América e na Ásia para anunciar as boas novas de forma contextualizada entre os pobres. Esta entrevista foi feita em Belo Horizonte e São Paulo, aproveitando alguns dias das férias de Grigg, que mora com a família em Auckland. A Editora Ultimato vai lançar ainda este ano a segunda edição de "Servos entre os Pobres".

Ultimato — Qual a sua análise da teologia da libertação, ventilada primeiramente por protestantes e depois, com mais intensidade, por católicos?
Grigg —
A teologia da libertação é uma teologia da classe média sobre os pobres e para os pobres, enquanto a prática pentecostal é dos pobres e para os pobres. A segunda está transformando a sociedade; a primeira não funcionou muito bem. O fundamento da teologia da libertação é marxista e essa análise da pobreza humana é parcial e não totalmente correta. A exegese das Escrituras, especialmente do livro de Êxodo, é feita sob a ótica do marxismo. No entanto, nós os evangélicos temos o que aprender com eles. Além de chamar a atenção de todos para o sofrimento dos pobres, eles ressaltaram algo muito importante, que é o pecado estrutural da sociedade.

Ultimato — O que o senhor chama de missão integral?
Grigg —
A missão integral também é uma teologia da classe média. As igrejas históricas precisam ouvir a voz das igrejas entre os pobres, pentecostais em sua maioria. Elas não falam sobre missão integral, mas fazem missão integral. Aos poucos ajudam cada pessoa em suas necessidades e restauram a sua dignidade e seu papel na vida cotidiana da igreja. Elas falam sobre o Espírito Santo e seu poder de produzir reavivamento. E reavivamento tem efeitos econômicos, pois é uma força transformadora. A proclamação do evangelho no poder do Espírito é o que causa a transformação. A transformação deve acontecer nos âmbitos político, econômico e social. É preciso fazer conexão entre o capítulo dois (a descida do Espírito) e o capítulo quatro (a partilha dos bens) do livro de Atos. Quando o Espírito vem, todos se juntam economicamente falando. Aí está o fundamento da economia cooperativa: os mais ricos ajudando os mais pobres para todos terem uma vida digna.

Ultimato — A teologia da prosperidade seria um recuo no esforço para nos tornarmos cada vez mais desprendidos do amor ao dinheiro e dispostos a sermos servos entre os pobres?
Grigg —
O problema da teologia da prosperidade não é exclusivamente brasileiro, mas global. É bom falar com os pobres sobre prosperidade, mas não prosperidade na base de mágicas. A prosperidade não resulta de orações mágicas, de sonhos ou de trocas com Deus pelo que ele vai fazer. Ela resulta da implantação de princípios da Palavra de Deus sobre criatividade, produtividade, descanso, economia comunitária e redistribuição. Repito: é bom falar isso aos pobres. Ao mesmo tempo, Jesus adverte que a riqueza é perigosa. Precisamos aprender a viver com simplicidade. O desafio de todos nós deveria ser “viver simplesmente para os outros simplesmente viverem”.

Ultimato — Com a multiplicação do número de crentes e o surgimento dos primeiros casos de injustiça social, a igreja primitiva procedeu à eleição de diáconos. O que é diaconia?
Grigg —
O diácono é uma espécie de Robin Hood, digamos, aquele que leva dinheiro dos ricos para os pobres... O trabalho social do desenvolvimento comunitário não pode se dar fora da igreja, deve fazer parte da vida da igreja. Cada crente tem de pensar como pode fazer isso e cada ONG deve pensar como ajudar a igreja.

Ultimato — Quem é você? Teólogo? Profeta? Pastor? Missionário?
Grigg —
Se é para economizar palavras, eu diria que estou desenvolvendo um ministério entre os pobres. Poderia acrescentar que sou avô do trabalho entre os pobres. E, como tal, recolho informações daqui e dali, e sempre dou idéias de liderança. Da multiplicação das primeiras sementes, eu conduzi uma aliança dos movimentos de igrejas entre os pobres ao redor do mundo.

Ultimato — Você abriu mão do casamento para não submeter a esposa ao estilo de vida que adotou ao se mudar para a favela de Tatalon, na proximidades de Manila, nas Filipinas, há pouco menos de 30 anos. Quanto tempo durou o seu jejum celibatário?
Grigg —
Fiquei solteiro até os 38 anos. O celibato voluntário é positivo quando alguém escolhe essa opção para exercer um determinado tipo de ministério. Mas não deve ser uma obrigação nem uma opção para a vida toda. Depois de meu casamento com Ieda, fomos morar entre os pobres em Calcutá, na Índia. Um ano depois, tivemos de retornar à cidade porque minha esposa adoeceu gravemente. Ainda hoje moramos num lugar pobre, mas não na favela. Acho possível morar como família na favela, desde que se tome uma série de cuidados. Conheço várias famílias missionárias, inclusive brasileiras, que vivem entre os pobres.

Ultimato — Onde e quando você conheceu e se casou com a missionária brasileira Ieda?
Grigg —
Conheci Ieda numa conferência para solteiros, aqui no Brasil, mais precisamente em Atibaia, SP. Fiquei surpreso ao ouvi-la falar sobre a Índia. Mais ainda ao saber que ela tinha sido uma das primeiras missionárias brasileiras a ir para aquele distante campo missionário. Eu não pensava em ter uma esposa brasileira, mas já estava pensando em me casar porque meu trabalho seria outro: o preparo de casais para missão entre os pobres. Ouvi a palestra dela e depois fomos conversar. Lá pelas tantas, Ieda me perguntou como poderia voltar à Índia. Respondi sem pestanejar: “Casando-se comigo...”. Hoje, vinte anos depois, temos três filhos: Monique (18), Leonardo (15) e Bianca (12). Vivemos na Nova Zelândia, minha terra natal. Ieda trabalha como capelã, dando assistência a pessoas em situações de luto e perda. É uma pregadora eloqüente e muito usada por Deus. Quanto a mim, continuo a viajar muito para encorajar e preparar missionários de vários países na missão entre os pobres.

Ultimato — As favelas da Ásia, da África e da América Latina têm características próprias, são diferentes entre si?
Grigg —
Geralmente as favelas têm características comuns. As diferenças se devem às cidades. Aqui na América Latina as favelas não são tão pobres como na Índia. A pobreza na Índia parece ser dez vezes mais grave do que no Brasil. Nas favelas africanas, o problema maior é a aids. Tanto no Rio de Janeiro como em Nova Guiné, há muita violência. Eu diria que a corrupção governamental gera a situação de violência no Brasil. Já em Nova Guiné, o maior problema é o desemprego, pois a maioria da população favelada é masculina e sem trabalho.

Ultimato — Você tem boas lembranças do COMIBAM I (Congresso Missionário Ibero-Americano), realizado exatamente há vinte anos no Brasil?
Grigg —
Lembro-me de 5 mil jovens de todos os países da América Latina, com muito barulho, muita disposição, muitos sonhos, e sem recursos. Pensei como Deus poderia fazer alguma coisa para aproveitar todo esse entusiasmo. Mais tarde, a estabilização do real e o crescimento econômico das igrejas favoreceram o envio de mais missionários brasileiros para o exterior. Tenho a impressão de que agora o problema é o arrefecimento dos sonhos missionários das igrejas. Muitas estão pregando a prosperidade e não falam sobre o sofrimento humano. O missionário tem de aprender a conviver com o sofrimento e, às vezes, com a pobreza.

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