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O mistério da iniqüidade e os escritores “nefandos” dos séculos 18 e 19

Não é fácil desmascarar o mistério da iniqüidade, por ele ser como um segredo de Estado. Existe a persistente tentação de achar que o mal de hoje é mais escandaloso e globalizado do que o mal de ontem. E, por mais contraditório que possa parecer, por vezes enxergamos mal demais ou não enxergamos o mal todo. Qualquer falta de equilíbrio nessa questão será creditada ao “mistério da iniqüidade” (2Ts 2.7), em prejuízo do “mistério do evangelho” (Ef 6.19). Os maiores tropeços na construção do reino de Deus na terra são causados pelo fanatismo religioso, que enche as páginas da história da religião e gera muitos descrentes. Parte do sucesso do livro Deus, Um Delírio, de Richard Dawkins, o mais notável profeta do ateísmo na atualidade, deve ser atribuída ao grande mal-estar provocado pelos crimes de ontem e de hoje cometidos por culpa do fanatismo religioso, a maior fábrica de ateus do mundo. É o que afirmou The Times: “Em Deus, Um Delírio, a liberdade intelectual da crença religiosa é desnudada sem piedade, assim como os crimes cometidos em nome dela”. 

Ao comentar o manual Literaturas Estrangeiras (FTD, 1931), o filósofo brasileiro Leandro Konder conta como a Igreja Católica entendeu certos escritores dos séculos 18 e 19. 

Em Literaturas Estrangeiras o escritor francês Voltaire (1694-1778) é chamado de o “corifeu da impiedade no século 18”. E, por ter cometido “erros satânicos”, deve ser considerado pessoa “de memória execranda”, abominável. O filósofo alemão Friedrich Hegel (1770-1831) é acusado de ensinar “a identidade dos contrários e negar os princípios mais elementares da razão”. O poeta francês Charles Baudelaire (1821-1867) está “cheio de miasmas, pestilências, de sujidades físicas e morais”, e, além de ser nojento e desequilibrado, “dirige preces a Satanás”. O escritor francês Émile Zola (1840-1902) é “o mestre da pornografia”. O filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) deve ser o Anticristo, pois “blasfema grosseiramente contra Cristo e sua igreja e acabou doido”. O escritor francês Anatole France (1844-1924) é um “corruptor diabólico, ímpio e imoral até o cinismo”. E o neurologista austríaco Sigmund Freud (1856-1939) é um “abridor de sarjetas da alma”. (Jornal do Brasil, “Idéias & Livros”, 25/08/07, p. 7). 

Curiosamente, dos sete nomes citados, quatro são franceses nascidos em Paris. Konder cita outros nomes e explica que o manual Literaturas Estrangeiras, de autoria coletiva e anônima, era adotado pelas escolas católicas do Rio de Janeiro. 

Mesmo polêmico e demasiadamente contundente, o curioso livro mostra um lado da questão e explica como a literatura pode misturar a verdade com o erro e provocar ao mesmo tempo coisas positivas e negativas. Sem dúvida, a Europa pós-cristã e secular de hoje tem muito a ver com os autores citados pelo livro de quase oitenta anos e com outros, principalmente o naturalista britânico Charles Darwin (1809-1882) e o filósofo e economista alemão Karl Marx (1818-1883). 

A pessoa comprometida com o “mistério do evangelho” não deve ser proibida de ler livros nem de ligar a televisão. Ao contrário, deve agir como o sábio: “Ele escutou [ou leu], examinou [ou pesquisou] e colecionou [ou selecionou] muitos provérbios” (Ec 12.9). É exatamente isso que Paulo aconselha aos tessalonicenses: “Examinem tudo, fiquem com o que é bom” (1Ts 5.21, NTLH).

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