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Colunas — História

Cura para uma sociedade enferma

Alderi Souza de Matos

No dia 12 de setembro de 2007 verificou-se um dos episódios mais deprimentes da história política recente do Brasil. Contra o sentimento de grande parcela dos brasileiros politicamente esclarecidos, a maioria dos senadores, em sessão fechada e com voto secreto, absolveu o colega Renan Calheiros (PMDB-Alagoas), presidente do Senado e do Congresso Nacional, de uma das acusações de quebra de decoro parlamentar que pesavam contra ele, não obstante os forte indícios de irregularidades praticadas por esse homem público. 

Na população houve duas reações distintas: de um lado, indignação, revolta e repúdio contra essa manifestação de cinismo, impunidade e corporativismo; de outro lado, uma sensação de alívio após vários meses de tensão e expectativa. Infelizmente, como todos sabem, o referido episódio não foi um caso isolado, mas outro capítulo de uma longa série de acontecimentos negativos que tem envolvido as instituições públicas brasileiras, em especial o poder legislativo. Tais fatos devem nos levar a uma profunda reflexão e autocrítica, como cristãos e como cidadãos.

Raízes no passado 
O comportamento dos políticos nacionais e a atitude passiva da sociedade diante desse comportamento têm raízes antigas. Tradicionalmente, uma parte considerável dos detentores de cargos eletivos no Brasil tem encarado a atividade pública como um meio de satisfazer suas ambições pessoais e não como um instrumento de serviço altruísta à coletividade. Isso é conseqüência do individualismo arraigado da cultura nacional e das falhas da nossa formação moral e cívica. 

Muitos observadores estrangeiros da vida brasileira têm detectado esses problemas de modo perspicaz. Foi o caso do Dr. Horace Manley Lane (1837-1912), um médico e educador norte-americano que veio para o Brasil ainda bem jovem e trabalhou como professor e comerciante em várias cidades. Mais tarde, ele se tornou o fundador e o primeiro presidente do Mackenzie College, em São Paulo. Como profundo conhecedor do Brasil, em seus relatórios à junta de curadores da sua instituição, sediada nos Estados Unidos, ele fez algumas observações contundentes sobre a cultura nacional. 

No relatório de 1899, ele afirmou: “Na política existe uma calmaria mortal — não a calmaria que precede uma tempestade, mas aquela que demonstra a debilidade e apatia inerente da nação”. Um pouco adiante, referindo-se aos brasileiros, aos quais admirava em muitos aspectos, acrescentou: “Apesar de inteligentes e sagazes nos negócios e na política, eles não possuem uma força de reserva, a capacidade ou o desejo de enfrentar o mal e suplantá-lo”. Sua proposta era formar homens e mulheres dotados de uma nova mentalidade, que pudessem construir uma verdadeira república, uma genuína democracia. Os comentários do Dr. Lane ferem os nossos brios patrióticos, mas no fundo sabemos que são verdadeiros, que descrevem com precisão as nossas fraquezas.

Uma lógica perversa 
O governo e a classe política tentam vender à sociedade um raciocínio falacioso — a lógica do “mas”. Sim, existem dificuldades, mas a democracia está resguardada, a economia é sólida, a inflação está sob controle, existe superávit na balança comercial, os pobres estão se alimentando melhor. A idéia é que, por causa desses fatores positivos, os males clamorosos que afligem o Brasil devem ser minimizados, deixados para lá, porque, afinal de contas, estão acontecendo coisas boas. Aliás, a mesma lógica também se aplica a certos grupos e líderes religiosos inescrupulosos (são ávidos de poder, dinheiro e sucesso, mas as pessoas estão se convertendo, deixando os vícios etc.). 

Todavia, devemos rejeitar com firmeza esse sofisma desonesto. Os problemas do país ultrapassam em muito, em peso e importância, as coisas positivas que estejam ocorrendo. Só para citar alguns: a horrível escalada da criminalidade (agora se mata até pelo telefone, nos falsos seqüestros que levam terror às vítimas do outro lado da linha); as estradas mal conservadas e sem fiscalização que destroem milhares de vidas todos os anos; a imensa tragédia da saúde pública, principalmente no Nordeste (a região dos políticos mais notórios do país); a floresta amazônica ardendo sem parar (apesar da complexa burocracia que deveria cuidar desse problema); a educação básica fragilizada e deficiente. 

E o que falar da corrupção generalizada e de sua companheira constante no Brasil — a impunidade? Além disso, veja-se a questão pelo lado da eficiência. O funcionalismo público e a estrutura estatal incham de modo contínuo e por conta disso a carga tributária se torna cada vez mais opressiva. No entanto, os serviços prestados deixam as pessoas com a sensação de estarem sendo lesadas. O Congresso Nacional é uma instituição perdulária e ineficaz. Algumas das reformas mais reivindicadas pela sociedade vêm sendo adiadas há décadas; outras, quando ocorrem, se mostram pífias, parciais e inadequadas. Onde está a reforma política que irá reduzir o número de parlamentares, aumentar as qualificações exigidas para o exercício dos cargos e eliminar os privilégios indevidos? E a reforma da legislação processual para agilizar e tornar mais justa a atuação do judiciário, acabando com os infindáveis recursos e outros artifícios que atravancam os tribunais e eternizam os processos? Por que não se adotam nessas e em outras áreas essenciais as boas soluções de outros países?

Se o meu povo...
No passado, Deus mostrou aos israelitas que a solução dos graves problemas nacionais enfrentados por eles exigia decisão, iniciativa e mudança de coração: “Se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, e orar, e me buscar, e se converter dos seus maus caminhos, então eu ouvirei dos céus, perdoarei os seus pecados e sararei a sua terra” (2Cr 7.14). Existem alguns “maus caminhos” dos quais os brasileiros, em especial os cristãos, precisam se converter para que haja cura na sociedade enferma. 

Um desses maus caminhos é a tendência para o esquecimento e para o silêncio cúmplice. A sucessão de desmandos e tragédias tem se tornado tão infindável que o efeito produzido na maior parte das pessoas é de desalento e apatia. Os malfeitores de gravata se beneficiam especialmente com o fenômeno psicológico da memória curta. É fácil e cômodo esquecer os acidentes aéreos, os escândalos de corrupção, as injustiças clamorosas (como a absolvição do promotor assassino em São Paulo), o caso Renan e tantos outros absurdos intoleráveis. Esquecer em alguns casos é uma questão de saúde emocional e espiritual; em outras situações, é atitude imperdoável. Nenhum erro pode ser aceito como um fato consumado. 

Outro mau caminho de que devemos nos arrepender é o desprezo dos instrumentos da democracia. Os cidadãos precisam utilizar a arma construtiva do voto de modo consciente, expulsando da vida pública os políticos desonestos e incompetentes e prestigiando aqueles que têm compromisso com a verdade, a justiça e o bem comum. As igrejas, seus líderes e seus fiéis não devem se deixar utilizar como massa de manobra pelos oportunistas. Porém, numa verdadeira democracia é preciso ainda mais: clamar contra o erro, a mentira e a desonestidade; reivindicar, cobrar e protestar por todos os meios legítimos; apoiar boas causas e iniciativas, ir para as ruas, fazer manifestações pacíficas, não em prol de interesses grupais e corporativos, mas em benefício de toda a coletividade. 

Num âmbito muito pessoal, um terceiro mau caminho que requer arrependimento é a ética da conveniência e da esperteza, o relativismo moral que amortece a consciência e justifica a transgressão da lei. É preciso lembrar que os pequenos delitos, tais como desrespeitar as leis de trânsito, diminuem as resistências em relação a transgressões maiores. A mudança efetiva do Brasil terá de começar com uma verdadeira conversão individual e coletiva no sentido bíblico, metanoia, mudança de mente, de atitude, de perspectiva. Precisamos, como cristãos e como cidadãos, reafirmar nosso compromisso com os valores que defendem a vida e a dignidade. Só assim poderemos orar com insistência, integridade e coerência pela cura deste país. Façamos isso... enquanto temos oportunidade. 


Alderi Souza de Matos é doutor em história da igreja pela Universidade de Boston e historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil. É autor de A Caminhada Cristã na História e Os Pioneiros Presbiterianos do Brasil.

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