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Colunas — Arte e cultura

O país errado

Mark Carpenter

Estou no Brasil há mais de quarenta anos, e tenho a impressão de estar no país errado. Meus pais me trouxeram para cá de navio. Meu pequeno pé pisou pela primeira vez em solo brasileiro em plena Era JK. Tudo era possível. Até o cinismo individualista herdado dos portugueses parecia não resistir ao otimismo que varria a nação. Mas o ufanismo durou pouco, e a brusca volta à realidade doeu tanto quanto a frase de Charles de Gaulle: “O Brasil é o país do futuro, e sempre será”. 

Estou no país errado porque trabalho com livros onde pouco se lê. Administro uma editora de acordo com a lei, e por isso sou tido como exótico e ingênuo. Estou no lugar errado porque insisto em achar que as pessoas anelam sabedoria, mas o que elas preferem mesmo é diversão. 

Ainda bem que não estou só. Trabalho rodeado de pessoas que padecem do mesmo mal: vontade de fazer diferença em um país que tem muito de errado. Talvez fôssemos todos mais felizes em um lugar em que nosso trabalho fosse reconhecido. Um lugar bem longe daqui. 

Quanto mais vivo aqui, mais vou conhecendo gente que compartilha dessa sensação de desconforto. Alguns escrevem livros a respeito, na esperança de que ainda haja quem sonhe e anseie por algo diferente. São esses os livros que editamos, e que acabam atraindo leitores que também se sentem estrangeiros em sua própria terra. 

Quando viajo para outros países — inclusive para aquele onde nasci — encontro outras pessoas que também se sentem no lugar errado. Possuem em comum a certeza de serem diferentes, estrangeiras, alienígenas, tão estranhas quanto o foi Jesus. De fato é impossível imaginar alguém tão fora de lugar: Deus encarnado num corpo de homem, andando sobre um planeta cheio de desespero, tragédia e morte. Mas foi exatamente o desmérito deste mundo que fez com que o propósito de Jesus ficasse claro. O que Ele representava transformou o lugar errado em palco perfeito para a sua atuação. 

A causa de Cristo nunca brilha tão intensamente quanto o faz no lugar onde é mais necessária. Para quem conhece aquilo que fazia pulsar o coração de Cristo, permanece uma certeza — estamos de fato no país errado, no mundo errado. O que há de equivocado nessa terra é justamente o que virou de pernas para o ar quando o primeiro homem rejeitou o Criador. Aquele ato transformou nosso lar num lugar hostil. Agora a melhor esperança para este lugar inóspito é gente que leva adiante a mensagem de Cristo, que compartilha da percepção de que este não é nosso lar e de que a vida só começa a fazer sentido quando encarada como missão. 

Meu pai viveu dezenove anos no Brasil. Depois de sair daqui, viajou para mais de cinqüenta países. Aposentou-se nos Estados Unidos. Na última vez que conversamos, tempos antes do acidente que tirou-lhe a consciência, ele me confidenciou um desejo — fazer do Brasil o seu descanso final. Queria que suas cinzas fossem trazidas para cá, para este país errado que foi alvo dos melhores anos de sua vida ministerial e, portanto, para ele tornou-se o melhor lugar da terra. 


Mark Carpenter é diretor-presidente da Editora Mundo Cristão e mestre em letras modernas pela USP.

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