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Especial — Rio de Janeiro, 1923: A forte reação protestante ao Cristo Redentor

Rio de Janeiro, 1923: A forte reação protestante ao Cristo Redentor

A reação protestante contra a construção do Cristo Redentor no Rio de Janeiro foi enérgica e imediata, como se pode ver nesta nota publicada em O Jornal Batista, órgão oficial da Convenção Batista Brasileira, em 22 de março de 1923: “Já está constituída a grande comissão para levar avante o plano de erigir no alto do Corcovado a imagem de Christo. Isto será a um tempo um atestado eloqüente de idolatria da igreja de Roma e uma afronta a Deus. No dia em que tal crime se consumar, bom seria que todos os verdadeiros crhristãos no Brasil se reunissem em culto penitencial, para pedir a Deus que não imputasse a todo o Brasil esse grande pecado, cuja responsabilidade deve recahir sobre a Igreja Catholica e sobre os governantes que não souberam ou não quiseram fugir à armadilha, preparada por ella com a isca do patriotismo. Deus tenha misericórdia de nós”.

Com cheiro de idolatria
Os protestantes entendiam que o monumento significava a quebra ostensiva do segundo mandamento — “Não farás para ti imagem de escultura [...]. Não as adorarás, nem lhes darás culto” (Êx 20.4-6). Eles se referiam ao monumento como “ídolo do Corcovado”. Naturalmente houve exagero dos protestantes, mas é bom lembrar que até pouco tempo atrás a Igreja Católica não era cuidadosa quanto ao uso de imagens. Desde a Reforma, no início do século 16, os protestantes enfatizavam o culto “em espírito e em verdade”, preconizado por Jesus Cristo na conversa com a mulher samaritana (Jo 4.24). E O Jornal Batista publicou outra nota: “Os que tiveram a infeliz idéia de erigir o monumento a Christo Redemptor, não tiveram a intenção de honrar a Christo, mas sim a de engrandecer o catholicismo romano, o paganismo. Se tivesse querido honrar a Christo, procurariam erigir-lhe um monumento não no Corcovado, mas em cada coração. No coração é que Christo quer reinar. Elles, porém, pretendem honrar a Christo, desonrando-o, fazendo aquillo que elle terminantemente prohibiu — fazendo-lhe uma imagem” (13/09/1923).

Outros odores
Além da chamada idolatria, havia outras objeções. A maior delas era o temor de ser burlado o princípio da separação entre Igreja e Estado, estabelecido no Decreto sobre a Liberdade de Culto (n 119-A) e na Constituição de 1891. Os protestantes eram terminantemente contrários à subvenção do Estado à construção do monumento.

Criticava-se também “os processos vergonhosos de arranjar dinheiro” para as obras do Cristo Redentor: “Uma avalanche de senhoras, de moças, de raparigas e de homens [...] vem á rua, de sacola em punho [...] a mendigar, a pedir, a solicitar, por todos os lugares, nas calçadas, nas esquinas, nas casas comerciaes, nas repartições públicas, nos bancos, por toda a parte, transformando a grande população do Rio de Janeiro num verdadeiro Christo” (Discurso de Adolfo Bergamini, mais tarde deputado federal, então com 37 anos, na sessão do Conselho Municipal em 11 de setembro de 1923).

A respeito disso, O Jornal Batista aproveitou para alfinetar: “Que Christo é esse que precisa de esmolas?” Em seguida, lembrou que os católicos sozinhos poderiam erguer o Cristo Redentor “sem recorrer a uma pechincharia vergonhosa, sem passar por cima da Constituição para forçar as portas do thesouro nacional e dos thesouros municipaes”, já que eles são a grande maioria da população, “entre os quais há muitos ricos, e até archimillionários”.

O problema é que nem todos os arquimilionários católicos eram liberais. O Conde Modesto Leal, o homem mais rico naquela época (renda mensal superior a mil contos de réis e fortuna acumulada acima de 100 mil contos) deu para o Bispado de Barra do Piraí a migalha de 50 mil réis, equivalente a pouco mais de dois minutos de renda... (O Jornal Batista de 19/11/1925). Com um mês e meio de salário, o famoso pão-duro do Rio de Janeiro construiria sozinho o Cristo Redentor, orçado em 1.500 contos.

Oiticica e a Liga Anticlerical
Os protestantes não foram os únicos a se opor ao monumento do Corcovado. Além do já citado político mineiro Adolfo Bergamini, o professor e especialista em fonética e fonologia José Oiticica, então com 41 anos, escreveu no Correio da Manhã de 17 de abril de 1926 um violento artigo contra o projeto, concluindo-o com o apelo: “Peço-lhes por quantos anjos há no céu que desistam da empresa começada”. Curiosamente, Oiticica usa a mesma tese protestante com base no segundo mandamento: “Encarapitar uma estátua divina em um monte para nesse monte adorar Deus é duplamente contrariar o preceito do Eterno”.

Em setembro de 1923, um dos jornais do Rio de Janeiro publicou um convite dirigido a todos os elementos anticlericais da capital, “sejam atheus, espiritas, protestantes, theosophistas ou prosélytos de quaesquer escolas philosophicas”, para “oppôr a necessaria reacção à obra embrutecedora do clericalismo indigena, que está tomando vulto”. Os protestantes não aceitaram o convite da Liga Anticlerical por se tratar de um movimento “cujo alvo único é estimular o ódio ao padre, arrazar e nada edificar”, explica o editorial de O Jornal Batista.

Um hospital para crianças
Algumas vozes se levantaram sugerindo que a elevada soma a ser gasta com o monumento fosse aplicada “em benefício da multidão soffredora”. Os líderes evangélicos chegaram a aprovar uma moção aconselhando ao Congresso “a erecção de um monumento ao Redemptor, de acordo com o seu espírito e os seus ensinos, e no qual catholicos, protestantes e todos enfim se harmonizem — um hospital para crianças, cuja falta nesta cidade é causa de muitas tristezas e desgraças”. O político Adolfo Bergamini pediu ao Conselho Municipal que, em vez de colocar Cristo “no cume de um dos nossos morros para presidir, de lá, à miséria que vae cá por baixo, autorizem o Prefeito a gastar uma determinada importância com um hospital”.

Ecumenismo em época de risco
Apesar das divergências denominacionais (os batistas diziam que a Igreja de Jerusalém era uma igreja batista e os presbiterianos diziam que os batistas eram “hidrólatras”, mais de seiscentos evangélicos das quatro maiores denominações da época (metodistas, congregacionais, batistas e presbiterianos) se reuniram no pavilhão da Igreja Presbiteriana do Rio no dia 16 de setembro de 1923 “para protestar contra o erigir-se o ídolo no Corcovado”. Resolveram o seguinte: 1) Enviar telegramas e abaixo-assinados de protesto ao Conselho Municipal, ao Senado e à Presidência da República; 2) Agitar a opinião pública pela imprensa; 3) Solicitar a todas as igrejas, congregações e grupos de crentes que se congreguem em oração em favor da liberdade de consciência, seriamente ameaçada, e pedir a Deus que confunda os planos dos adversários; 4) Levantar o maior número possível de assinaturas para subscrever o protesto a ser encaminhado às autoridades. Nesta assembléia foi eleita a seguinte mesa diretora: Álvaro Reis (presidente), Erasmo Braga (vice), Francisco A. Souza (1 secretário), Salomão Ginsburg (2º secretário) e J. Souza Marques (tesoureiro) — os dois últimos eram batistas; os dois primeiros, presbiterianos; e o do meio, congregacional. (A Assembléia de Deus estava se instalando no Rio naquele ano.) Álvaro Reis, então com 59 anos, já vinha escrevendo uma série de artigos sobre o assunto ora no Correio da Manhã ora em O Jornal. Era conhecido e respeitado em todo o país.

No palácio do Catete
O protesto dos evangélicos foi entregue pessoalmente ao presidente Artur Bernardes no dia 22 de novembro. O maior abaixo-assinado vinha da Igreja Batista de Alagoas, com 348 assinaturas; o segundo, da Igreja Presbiteriana de Alto Jequitibá, MG, com 315 assinaturas; e o terceiro, da Igreja Presbiteriana Independente de Curutiba, com 313 assinaturas.

Artur da Silva Bernardes abriu o envelope e leu: “Nós, abaixo assignados, vimos respeitosamente protestar, em nome da Lei de Deus no Decálogo e da Constituição Republicana, contra o atropelo da liberdade religiosa, com a apropriação indébita de dinheiro e logradouros públicos, para collocação de symbolos religiosos, como a estátua de Christo no Corcovado, que fere a consciência de milhares de brasileiros”.

Sete anos, dez meses e onze dias depois, a 12 de outubro de 1931, no 439º aniversário da descoberta da América, com a presença do Cardeal Sebastião Leme, arcebispo do Rio de Janeiro (de 49 anos) e de Getúlio Vargas, chefe do Governo Provisório, o Cristo Redentor foi oficialmente inaugurado e deixado aos cuidados da Ordem Arquidiocesana do Cristo Redentor, em substituição à Comissão Organizadora do Monumento. As luzes deveriam ser acesas pelo cientista italiano Guglielmo Marconi, ao apertar um botão a bordo de seu iate Electra, ancorado no porto de Gênova, na Itália. Mas, o mau tempo prejudicou a transmissão e o monumento foi iluminado diretamente do Rio.

A intransigência protestante sem dúvida contribuiu para que o Cristo do Corcovado fosse um lugar de turismo e não de culto, um monumento e não uma imagem.

Há um detalhe provavelmente desconhecido da grande maioria de católicos e protestantes: Embora o projeto tenha sido desenvolvido pelo engenheiro brasileiro Heitor da Silva Costa, o escultor francês Paul Landowiski — que construiu também o monumento da Reforma em Genebra — foi quem executou o Cristo Redentor, na França, peça por peça. Esse estatuário de 56 anos na época da inauguração, que foi diretor da Escola Nacional Superior de Belas Artes da França, trabalhou para os protestantes suíços e para os católicos brasileiros.

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