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Reflexão — Robinson Cavalcanti

Desafios para a cidadania cristã

Os cristãos, conhecedores das Sagradas Escrituras, sabem que não estão na terra, nesse tempo e lugar, por acaso e sem propósito, ou se purificando para a próxima encarnação. Sabem que a terra e o Brasil não são apenas uma “sala de espera do aeroporto”, onde se espera a chamada para embarcar em um dos próximos vôos para o céu; e que não comprarão passagem e hospedagem para o paraíso por meio do saldo positivo de suas boas obras (sempre em déficit), mas que a boa nova é que a viagem nos foi dada gratuitamente, como demonstração do amor de Deus, e paga totalmente pelo sangue do seu Filho, aos que aceitam a graça mediante a fé, predestinados para a glória.

Os cristãos sabem que a terra é obra do Criador, destinada à humanidade para que esta, obediente, seja continuadora da criação, exercendo seu mandato cultural, sua tarefa de cuidar, de se multiplicar e de elaborar formas de convivência, instituições, costumes e tecnologia. Esse mandato foi afetado, em sua qualidade, pelo pecado, mas nunca foi revogado. Os cristãos, nascidos de novo, têm como parte de sua tarefa de santificados o exercício responsável, criativo e ético desse mandato de gestores da terra, com vidas — pessoais, comunitárias e institucionais — com propósitos, orientados pela Palavra, iluminados pelo Espírito, no exercício dos seus dons e vocações, evidenciando sua fé pelas boas obras, as quais “Deus de antemão preparou para que andássemos nelas”.

Os cristãos não devem ser apenas membros responsáveis de uma família biológica, ou família da fé, com trabalho e lazer, produção e consumo. A cidadania celestial nos move, como “sal da terra e luz do mundo”, a uma presença relevante; como mensageiros do reino de Deus, de justiça e paz, a um cotidiano exercício responsável da cidadania terrena, procurando combater as manifestações também sociais e culturais do pecado, na promoção do bem comum. Essa destinação é sempre, em princípio, recusada, por nosso egoísmo, comodismo, medo, fuga (“Façamos umas tendas aqui em cima do monte”), ou irresponsabilidade (“Sou eu, porventura, guardador do meu irmão”?). Essa obediência nunca foi fácil, nem nunca esteve isenta do risco do martírio, segundo a própria história. Essa presença relevante implica o conhecimento da conjuntura, o pensar sobre ela, o interceder por ela, para participarmos positivamente das suas mudanças.

Os cristãos vivem hoje em um mundo muito parecido com o do tempo de Jesus, quando Roma (Estados Unidos), após derrotar Cartago (União Soviética), impõe, pela força da sua ideologia ou de suas armas, a sua “Pax” (Ordem Internacional), com suas legiões (mariners) espalhadas por todo o mundo em suas bases (“Fortaleza Antonia”) sempre prontas a marchar sobre fariseus ou zelotes, onde estes se atrevam a se insurgir, pacífica ou violentamente. Os reis (e presidentes) das diversas províncias (países) são tão “soberanos” quanto Herodes, garantindo a “ordem”, gerindo as questões locais menores, com o auxílio dos sinédrios (parlamentos), coletando os tributos em fidelidade ao imperador (presidente), cuja única diferença é que no lugar de um “pagão” temos um autodenominado “cristão”.

E ambos os impérios dão sinais de esgotamento e de decadência moral, compartilhados com suas províncias.

No tempo das Guerras Púnicas (“Guerra Fria”) o império apoiou regimes de força, e hoje, com o domínio ideológico e o temor das armas, apóia regimes formalmente democráticos, com os gerentes locais “escolhidos livremente” pelas respectivas populações dentre aqueles que lhes são impostos a escolher, para mandarem nelas no próximo período, como gerentes confiáveis do império. Não havendo soberania ou autodeterminação, os componentes dessas “opções” são cada vez mais parecidos, e a diferença permitida entre eles se restringe a uma questão de estilo, ênfases ou aspectos secundários. O Fórum Mundial Social, com o lema “Um outro mundo é possível”, por maior que seja sua importância e por melhores que sejam as suas intenções, ainda não passa de um amplo exercício do jus esperniandi...

É nesse contexto de limitações que os cristãos brasileiros vão participar das próximas eleições para presidente da República: uma escolha entre a continuação do hoje (que, de fato, é o ontem) e o ontem (que, de fato, é o antes de ontem), com a mesma submissão ao império (a despeito da retórica), a mesma política macroeconômica, a manutenção das mesmas desigualdades e exclusões, dos mesmos paternalismos assistencialistas, da mesma falta de ética, da mesma traição aos ideais generosos do passado, da mesma falta de alternativas.

Não é o melhor dos mundos, mas é o que temos, e é para onde Deus nos envia para fazer diferença. Vamos pensar, orar e fazer algo, com todas as limitações, disponibilizando-nos ao Senhor em nossa santidade ativa, como instrumentos para que sua vontade seja feita “assim na terra como no céu”. A Providência surpreende...

Dom Robinson Cavalcanti é bispo da Diocese do Recife e autor de, entre outros, Cristianismo e Política – teoria bíblica e prática histórica e A Igreja, o País e o Mundo – desafios a uma fé engajada. www.dar.org.br

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