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Série Paul Tournier — Pessoa, Ciência e Fé

Uriel Heckert

Paul Tournier (1898-1987), médico suíço autor de vários livros, foi o introdutor da chamada Medicina da Pessoa. Ele costumava definir-se modestamente: "Eu sou apenas um médico e não quero senão ajudar aos homens". Mas exerceu a clínica com tal maestria que pode ser considerado um psicoterapeuta.

Nascido em Genebra, Suíça, na virada do nosso século, assimilou toda a herança cultural do antigo continente. Seus estudos básicos foram rigorosos, destacando-se desde cedo pelo brilhantismo e diversidade de interesses. Mas a tônica de sua vida recaiu sempre nas atividades voltadas às necessidades humanas. À verdade, ele soube aliar à sua prática a reflexão constante e metódica, o que lhe permitiu constatações muito ricas. Na medida que as integrava à.sua tarefa, sentia-se diante de um novo começo, cheio de atraentes mistérios, a que se dedicava com renovado estímulo.

A sua obra transmite, em toda a extensão, a paixão com que ele se empenhava no que fazia. Foi dos contatos diários que mantinha, nas variadas circunstâncias de vida, mas principalmente na intimidade da clínica, que tirava o material para as suas perquirições. Por isso mesmo, cada uma das suas conclusões, ou melhor, das suas questões, vêm ilustradas por situações vividas. E se prefiro faíar de questões é para ser mais fiel à maneira cuidadosa com que ele se aproximava de cada experiência, respeitoso ante o mistério da existência humana.

Longe de ser retórica, a atitude reverente expressava-se na coerência que transmitia. As suas intuições eram repartidas sistematicamente com várias pessoas, principalmente colegas de profissão, a quem recorria para submeter-se ao crivo da crítica. Ele acreditava, por experiência própria, na força das relações intersubjetivas.

São inúmeras as ocasiões em que se mostra devedor àqueles que com ele se detiveram na consideração de alguma idéia ou experiência. Não é de estranhar que os próprios clientes participassem das suas certezas e das suas dúvidas, conhecessem as suas conquistas e as suas fraquezas, já que se expunha por inteiro.


Medicina da pessoa
Fica logo evidente que a prática profissional, tal como Tournier a desenvolveu, ganhou uma dimensão bem além do campo restrito da aplicação de técnicas. Se uma adjetivação era necessária, ela não poderia ser mais feliz: Medicina da Pessoa é o título do seu primeiro livro, vindo à luz em 1940. Não se tratava de propor uma nova especialidade nem de negar as conquistas científicas, mas de "devolver à medicina moderna, excessivamente técnica, todo o seu caráter humano"6.

Essa ênfase renovadora da prática clínica mostrou-se extremamente importante. Na verdade, incorporando os avanços propiciados pela ciência moderna, de inspiração cartesiana, a medicina esvaziou-se da dimensão humana. Ela passou a sofrer dos males gerados pelo racionalismo, tendo reduzido o homem à condição de um mecanismo. É o que constatava Tournier: "Em uma época saturada de ciência e técnica, o médico corre o risco de perder o sentido da pessoa"6.

Ele entendia que isto é particularmente grave pois vislumbrava todo o potencial que a intervenção terapêutica traz consigo: "O médico, com frequência, é o único no mundo moderno que possibilita um contato pessoal e de quem se espera compreensão, pois ele tem experiência dos homens e da vida e porque a sua formação o conduz aos casos particulares e não ao geral, porque é um observador e não um teórico". E acrescenta: "Tenho encontrado numerosos colegas, médicos de fábricas e de bairros populares, que têm plena consciência da incomparável missão humana que lhes é atribuída. Homens sem oportunidades de contatos pessoais sucedem-se em seus consultórios. A mais simples anamnese, para um médico atento aos movimentos sutis da alma, pode dar início a confidências de há muito contidas. A enfermidade, a perspectiva da morte, talvez façam surgir problemas que a trepidante existência cotidiana impede considerar"5. Diante disto, ele sente-se vocacionado a uma verdadeira cruzada, visando resgatar a-dimensão pessoal na relação com os clientes. Considera que nenhum profissional pode sentir-se desobrigado: "Não há nada mais grave que considerar a medicina da pessoa como uma especialidade suplementar reservada para alguns médicos"4.

As experiências amargas vividas durante a II Grande Guerra trouxeram-lhe o sentido de urgência diante da tarefa a que se propôs. No seu entender, aquela conflagração mundial tinha raízes na afirmação unilateral da força humana. Ele percebeu a crise que a humanidade atravessava, convencendo-se da necessidade de repensar os pressupostos da nossa civilização para chegar-se à construção de um mundo mais harmonioso. Coerente como se mostrava, entendeu que a sua contribuição seria no campo da prática profissional, buscando a renovação espiritual que a situação exigia. Tratava-se de retomar a essência da vocação de ajuda, necessariamente comprometida com a vida e com a plena realização da pessoa humana.

Entretanto, para ele toda mudança autêntica deve começar com o próprio agente de mudanças. Considerava que a disposição de refletir sobre as motivações e disposições individuais é uma exigência constante, reclamando honestidade para consigo mesmo. Fazer isto pacientemente em momentos que chamava de "recolhimento", era o seu método preferido, iluminado pela fé de que Deus se faz presente nesses momentos. Não desconhecia a inusitada capacidade da alma humana de esconder-se a si mesma: sabia muito bem que o psiquismo - é constantemente dominado por exigências descomunais ou por uma indulgência excessiva, ficando a consciência exposta a forças inconscientes e tramas tendenciosas. Por isso mesmo, estava sempre atento aos próprios movimentos afetivos, aos sonhos e outras manifestações da vida interior. As obras de Freud, Adler e Jung eram-lhe familiares, e delas tirava observações, além de citações e comentários. Mas cria que a questão humana transborda ao psíquico, definindo-se no plano espiritual, em que a existência efetivamente é explicitada. Assim, conclui que "fora da intimidade e do milagre da presença de Deus uma transparência verdadeira parece utópica"4.

A dimensão religiosa permeia toda a sua obra. Assim, à ênfase do mundo moderno à razão, à utilidade e ao conforto, contrapunha a busca da "vontade de Deus", que se alcança no confronto constante consigo mesmo e com os outros. Essa busca, ele entendia que é necessariamente subjetiva, e afirmava: "Eu creio que a verdadeira resposta a essa crise (do mundo contemporâneo) está no retorno ao cristianismo"6.

“O novo homem não é somente um corpo com funções mentais: é o que chamamos a pessoa (....). E o que há de espírito nele, o que o une pessoalmente a Deus, que lhe confere sua dignidade inigualável.”

Desde logo cabe destacar que a declaração de fé em Tournier não toma nenhuma conotação sectária. No seu entender, a "experiência do poder de Jesus Cristo" é, por excelência, reveladora de todo o potencial de vida que cada um traz em si. Entretanto, admitia que noutros contextos, desde que ocorra efetiva libertação da pessoa humana, manifesta-se a presença de Deus. Assim é que ele insistia na relevância do encontro terapêutico, oportunidade privilegiada para que aconteçam transformações "divinas". O apelo que faz à fé implica, sem dúvida, um reconhecimento da limitação do ser humano. De fato, transposto o nível das necessidades mais imediatas, Tournier constatava sempre a impotência humana. Na sua análise via homens frágeis, que percebem em si grandes contradições, propensos a fazer o contrário do que desejam; mas os via também como seres de possibilidades.

Assim, o aparente pessimismo sobre a situação humana é logo superado pela observação das manifestações da "graça de Deus", que age no mundo como presença vivificante, fazendo surgir um ser total: "Este novo homem não é somente um corpo com funções mentais: é o que chamamos a pessoa (....). É o que há de espírito nele, o que o une pessoalmente a Deus, que lhe confere sua dignidade inigualável"4.

Técnica e Fé
O relacionamento entre técnica e fé preocupava Tournier desde o início. O seu terceiro livro trata desse assunto. Ele apontava duas abordagens da condição humana: de um lado a visão técnico-científica, relacionada com a análise de dados e atenta aos determinismos biológicos e psicológicos; de outro lado a aproximação espiritual, que busca as sínteses e tem que. ver com o destino do ser. "Cada um dos pontos de vista dá uma imagem verdadeira mas incompleta do homem"5, ele esclarece. A primeira considera a quantidade, a complexidade, e lida com necessidades; a segunda, com a, qualidade, a simplicidade, e aponta para a liberdade. Assim, valorizava o método científico mas chamava a atenção para a transcendência, que lida com a "escala do coração".

A técnica, ele diz, é moralmente neutra. Merece, portanto, ser complementada pela fé, que lhe dá o direcionamento efetivo. Só assim cria-se o clima no qual ela torna-se eficaz. Os recursos da medicina e da psicologia, por exemplo, põem à luz as condições pessoais, desvendando condicionamentos, limitações e também apontando possibilidades. Mas só uma disposição de fé coloca em marcha mecanismos de cura e superação das dificuldades. Ele chama a atenção para a importância do compromisso de fé que une terapeuta e paciente, matriz de que deriva todo benefício do trabalho terapêutico.

Tournier apontava ainda os pressupostos filosóficos que sustentam as intervenções técnicas, capazes de cristalizar-se como princípios dogmáticos. Ele percebe que os homens de ciência tendem a generalizar suas conclusões, indo além do seu saber específico. Por esse caminho expõem-se a enganos, enquanto dão mostras da busca incessante nela transcendência que trazem consigo.

Ele demonstrou, em várias ocasiões, a sua oposição a todo dogmatismo. Entendia que compete ao terapeuta ser tolerante, acolhedor. Nada mais inadequado a ele do quea pretensão de julgar. Apontava o espírito dogmático como inconcebível ao cientista, considerando-o uma "enfermidade grave", uma patologia da fé, o que não significa que postulasse uma ausência de convicções definidas: ele mesmo buscava adequar-se a uma posição “ortodoxa e tolerante”: ortodoxa, enquanto fiel aos princípios doutrinários cristãos, explicitados pela Reforma que Calvino consolidou a partir de Genebra, da qual sentia-se herdeiro; e tolerante porque, a partir desta mesma doutrina, sabia que a graça de Deus é muito maior do que pessoas e grupos podem abarcar. Perspicaz como era, destacou em inúmeros exemplos que a intolerância é uma falsa segurança de si mesmo, correspondendo a um mecanismo de defesa de personalidades inseguras frente às incertezas da existência. A posição de tolerância baseia-se ainda no respeito à pessoa do outro.

A tarefa de resgatar a dignidade das pessoas é aquela que o desafiava acima de tudo. Incomodava-lhe sobremodo a impotência do saber técnico-científico em responder às demandas de clientes com queixas subjetivas e questionamentos existenciais. Constatava que esses enfermos tinham seus males até agravados ao serem tomados como objeto e ao perceberem que seus sintomas eram analisados segundo um referencial mecanicista. Percebia, portanto, o caráter desumanizante da técnica, que, apesar de tudo, continuava sendo perseguida pela sociedade e valorizada como a produção humana mais excelente. Desafiou-se, então, a recuperar o lugar da pessoa, a começar do encontro terapeuta-paciente.

Personagem e pessoa
Tournier mostra-nos o que entende por pessoa, descrevendo a relação dialética estabelecida com o que chama de personagem. Ele lembra da origem grega dessa palavra relativa à máscara usada por atores teatrais. Assim, contrapõe o papel que socialmente desempenhamos à vida interior, ao eu profundo. O personagem é a roupagem exterior que encobre e dissimula a verdadeira pessoa ocultaao olhar apressado e superficial. No entanto, esse mesmo molde não é alheio à pessoa: está "aderido" a ela de forma tal que "só posso aproximar-me da pessoa através desta imagem que, por sua vez, mostra e esconde, revela e trai". Cada um traz consigo, ou melhor, é também o seu personagem. Écomo se sofrêssemos um longo treinamento "que faz de nós o que somos", começando desde os primeiros dias de vida, influenciados pela atitude dos pais e pessoas próximas, seguindo-se as influências do meio através das várias agências formadoras da sociedade, em que se destaca a escola e a igreja. Assim, a pessoa em "estado puro" não existe, é um sonho, pois é impossível desvincular-se das situações concretas da existência. Tudo está preso à roupagem do personagem, desde os instintos, as tendências, as inclinações, as aspirações. Ele afirma então: "Cada vez me dou conta de que a pessoa totalmente pura se nos escapa. Comigo mesmo ou com qualquer outro não alcanço a verdadeira realidade, senão somente uma imagem fragmentada e deformada, uma aparência, o personagem"4.

O personagem é acessível pelos métodos objetivosdas análises científicas, sejam eles de natureza biológica, psicológica ou sociológica. "Tudo o que no homem é mecanismo, fenômeno físico ou psíquico, pertence à esfera do personagem, e não à pessoa"4. Esta, por sua vez, é acessível pelo caminho da subjetividade, da intuição, vias privilegiadas que ele procurava percorrer na compreensão de si mesmo e do outro.

“Há sem dúvida barreiras interiores que se opõem à aspiração de sermos pessoais, impedindo-nos de dar lugar à pessoa que somos e de entrar em comunhão com a pessoa que o outro é.”

O relacionamento intersubjetivo é destacado como extremamente fecundo na revelação da pessoa. O não-eu é importante para a tomada de consciência de si mesmo, e é assim que se dá a influência do outro na formação da pessoa. Ela sustenta-se no diálogo, pois como mostrou Sartre, só é possível conhecer-se através do outro. Mas Tournier percebe que há dois sentidos na comunicação: um que esconde e outro que revela a pessoa. A linguagem pode nutrir e satisfazer o personagem, quando fica presa a lugares comuns e necessidades do cotidiano; ou pode penetrar o mundo imanente da pessoa, fazendo-a percebida e permitindo que ela se exprima. Só então chega-se à comunicação espiritual com o outro: "O personagem é uma aparência que alcança exteriormente o personagem do outro; a pessoa comunga interiormente com a segunda pessoa, o tu"4.

Ele aponta alguns momentos privilegiados nos quais a pessoa se revela. Ela emerge do personagem não só no diálogo da "cura de almas" com um religioso ou no diálogo psicoterápico com um profissional, mas também na vida de todos os dias num encontro significativo com um amigo, numa troca profunda de olhares, se têm o matiz da autenticidade. Há sem dúvida barreiras interiores que se opõem à aspiração de sermos pessoais, impedindo-nos de dar lugar à pessoa que somos e de entrar em comunhão com a pessoa que o outro é. Mesmo assim deve-se buscar através do diálogo a "transparência", que permite vislumbrara pessoa, mesmo sabendo que a transparência total é utópica. Cada um pode valer-se da força íntima que vem da "honestidade para consigo mesmo" e intervir no diálogo, propiciando ao outro a certeza de ser aceito e compreendido. O que confere também um sentido de responsabilidade e cautela à tarefa: "Esta busca apaixonada da pessoa, que domina minha vida, faz-me cada vez mais prudente, mais reservado em minhas conclusões. Observo quão redutivos e falsos são os juízos que os homens fazem constantemente uns dos outros; não só os juízos morais, mas também os psicológicos e filosóficos"4.

Martin Buber já destacara a diferença entre a relação eu-ele, que corresponde ao encontro entre personagens, e a relação eu-tu, de nível mais profundo. Apontara também o paralelo deste encontro profundo entre pessoas e a relação significativa com a divindade, com o Tu supremo. Semelhantemente, Tournier pensava que o diálogo com Deus está vinculado ao diálogo com o outro, ambos enriquecendo-se mutuamente. Ele entendia que não há diálogo humano verdadeiro sem que um diálogo interior com Deus o acompanhe, mesmo que isto não seja admitido, como fazem os descrentes, pois a presença de Deus é inerente a todo encontro verdadeiro entre pessoas. Esta presença é que desperta, revela e libera a pessoa. Assim é que um diálogo divino estabelece-se subjacente ao diálogo humano.

Nota-se que o conceito de pessoa deriva da sua concepção de fé. "A Bíblia nos revela o que é a pessoa: o homem é o ser a quem Deus fala, com quem estabelece um contato pessoal"4. Deus não se detém no personagem, a quem mesmo assim respeita; mas, através dessa roupagem, dirige-se especialmente à pessoa. No diálogo com Deus a pessoa se afirma e se define. É o que se constata em Jesus Cristo, a revelação do próprio Deus como pessoa: a sua presença sempre traz vida e revitaliza os circundantes. Nisto residiria a postura mais radical de Jesus Cristo, já que "chegar a ser pessoa, descobrir o mundo das pessoas, adquirir o sentido de pessoa, interessar-se nas pessoas mais que em suas idéias, seu partido, sua etiqueta, seu personagem, é toda uma revolução que muda o clima da vida"4.

Pessoa lembra liberdade. Tournier entendia que uma é sinônimo da outra. Ser pessoal implica a possibilidade de dispor livremente de si mesmo. É a partir dessa disponibilidade que se viabiliza a pessoa, pois esta requer compromisso livre e responsável diante de si mesmo e do outro.

Liberdade traz consigo a condição de fazer escolhas. A relação é dialética mais uma vez: é preciso ser pessoa para tomar decisões; estas, por seu turno, são reveladoras da dimensão da pessoa. Não obstante, Tournier percebia na clínica como é difícil esse desafio: a indecisão prolongada, a existência dúbia, o eximir-se de assumir posições mortificam a pessoa. É preciso coragem para tornar-se pessoa. Coragem para fazer opções, coragem para renunciar o que reforça cada vez mais qualquer desconfiança da própria pessoa. Ser capaz de escolher com determinação e responsabilidade, eis o desafio constante à pessoa. Daí a sua simpatia pelo método socrático, o qual, ao não impor suas ideias, mas apenas sugerir pistas para as conclusões próprias de cada um, mostrava-se exímio na arte de ajudar outros a chegar a ser pessoas.

Até que ponto vai a nossa liberdade? Tournier falava com frequência nos condicionamentos biológicos e psicológicos. Também não lhe escapavam as tendências massificantes da sociedade contemporânea, destacando os aspectos desumanizantes da "engrenagem da produção que envolve milhões num automatismo paralisante". Via ainda o aumento progressivo dos poderes do Estado, com ingerência cada vez maior na vida do cidadão. Percebia a própria ciência a serviço desta avalanche automatizadora que reforça o personagem e abafa a pessoa. Mesmo assim afirmava a liberdade humana quase que como princípio de fé: "Para mim a pessoa supera a natureza, é uma potência sobrenatural, espiritual, que dirige a natureza segundo suas escolhas"4.

“Não há diálogo humano verdadeiro sem que um diálogo interior com Deus o acompanhe, mesmoque isto não seja admitido, como fazem os descrentes, pois a presença de Deus é inerente a todo encontro verdadeiro entre pessoas.”

As escolhas seriam isentas, neutras? Ele afirmou que a inteligência registra tudo, formando um "banco de dados" infinito; mas entendia que é o "coração" que escolhe, pois é nele que se ligam as "correntes da vida". Ele não cria na neutralidade absoluta. As escolhas são sempre precedidas por uma definição de valores. Dizia-se contrário a Sartre, que, ao negar todo valor, deixava os homens imersos num impasse angustioso, obrigados a escolher e sem condições de fazê-lo; e apontava os valores que sustentavam as próprias posições deste pensador.

O que visualizava é que, antecedendo a toda decisão comprometida, há uma escolha fundamental de natureza espiritu-al: "A escolha do Deus de cada um". Assim, a pergunta fundamental é: "Qual é o seu Deus?"4. Ao fazer escolha, a pessoa baseia-se em valores; portanto, a questão tem que ver com a dimensão espiritual. Não cabe ao interlocutor impor ao outro a sua escala de valores nem, ao contrário interromper o diálogo sob o pretexto da neutralidade. Mas deve manter clara a sua posição e assumir a responsabilidade por suas convicções, sem pretender prevalecer sobre o outro. As respostas àquela pergunta básica podem vir do hedonismo, do racionalismo, do naturalismo, entre outros, e estarão fundamentando as escolhas de cada um.

Por fim, a pessoa apresenta-se no seu dinamismo. Há um ritmo na vida, uma alternância, uma sucessão, um movimento. A cada momento em que ela se revela segue-se uma mudança, uma superação. Daí subsistir sempre um mistério: "A pessoa é um potencial, uma corrente de vida. Ela é uma realidade espiritual, misteriosa, misteriosamente ligada a Deus, misteriosamente ligada ao outro. Nós sentimos esses laços nas horas privilegia-das, em que ressurge novamente uma corrente de vida que rompe o cerco mortal do personagem, que manifesta a liberdade e que instaura o amor".

Nesta perspectiva a vida é uma fascinante aventura. No trabalho, na família, nos grupos.sociais, a sós, sempre surgem oportunidades capazes de nos apaixonar. Há o momento de grandes realizações e empreendimentos e há o momento do recolhimento, da meditação, do diálogo. A nossa civilização estabeleceu a primazia do visível sobre o invisível, do que se mede e pesa sobre o imponderável, do fazer sobre o ser, do "homo faber" sobre o "homo religiosus". Isto limita a vida e bloqueia a aventura. Cabe-nos resgatar essa dimensão negada da existência humana, porque "a maior aventura não é a ação, é nossa própria evolução"4.

Notas
1. BREHIEL, E. História da filosofia. São Paulo: Editora Mestre Jou, 1977.
2. COLUNS.G. R. Thechristianpsychology of Paul Tournier, Grand Rapids: Boker Book House, 1973.
3. TILLICH, P. A coragem de ser. Rio de Janeiro: Ed. Paz e Terra, 1972,
4. TOURNIER, P. El personage y Ia persona.Buenos Aires: Editora La Aurora, 1974.
5. Técnica psicanaiítica y fe religiosa. Buenos Aires: Ed. La Aurora, 1969.
6. Medecine de Ia personae. 11. ed. Neuchatel: Ed. Delachaux, 1963.

Uriel Heckert é médico psiquiatra, professor de Psiquiatria da Universidade Federal de Juiz de Fora e Presidente do Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos.

Texto n° 1, retirado da ed. 250, jan-fev de 1998

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