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Série Paul Tournier — A Influência da Religião Sobre a Saúde II

Os frutos do pioneirismo de Paul Tournier

Francisco Lotufo Neto

No artigo anterior analisamos o relacionamento positivo que a religião madura e intrínseca tem sobre a saúde, principalmente a saúde mental. Esses achados são sistemáticos e apontam para os efeitos benéficos da religião já aqui na terra.

A motivação para estes estudos deveu-se a pessoas que tiveram a coragem e a integridade de manter sua fé num ambiente muitas vezes hostil na primeira metade deste século. Homens como Oskar Pfister e Paul Tournier, o primeiro, pastor e psicanalista, o segundo, médico e psicoterapeuta.

Mecanismos de ação
As constatações do benefício da religião levaram os cientistas a tentar entender por que a religião assim age sobre a saúde. Diversos mecanismos por meio dos quais a religião pode influenciar a saúde física e mental foram encontrados:

1) Comportamento e estilo de vida.As prescrições bíblicas de 3.000 anos atrás sobre dieta, circuncisão, preparo da alimentação, limpeza, sexualidade foram importantes para prevenir infecções, doenças sexualmente transmissíveis e câncer, num período em que o conhecimento científico e a medicina preventiva não estavam desenvolvidos.

Outra recomendação médica frequente é componente da prática espiritual — o dia semanal de descanso — relaxar o corpo e a mente, refrescar e restaurar, adorar a Deus, ter comunhão com a família e outros fiéis.

Hoje outras doenças são prioritárias, muitas delas relacionadas aos estilos de vida contemporâneos (estresse, dependência de substâncias, alimentação excessiva, comportamento sexual). Estes podem ser vistos como violações de leis e práticas espirituais, pois estas prescrevem moderação no comportamento sexual e alimentar, advertem contra o beber excessivo, contra o perseguir incessante do dinheiro e poder, a competição, as emoções negativas (hostilidade, raiva, ressentimento e culpa), narcisismo e incapacidade de amar. Há um apelo claro à moderação, com implicações importantes para a saúde.

Um exemplo da aplicação de princípios semelhantes ou claramente religiosos à prática médica é o programa de Thoresen e colaboradores para ensinar pessoas com doença coronariana a modificar seu comportamento. Este programa reduziu muito a mortalidade dos seus participantes. Vejamos o que ele propunha: aprender a dar e receber amor diariamente; ver o mundo não como um lugar hostil que precisa ser combatido, mas como um lugar que pode ser amoroso, cooperativo, pacífico e feliz; praticar a oração (parte que os pacientes acharam ser a mais valiosa do programa); desenvolver humildade e paciência (entrar na fila mais comprida e lenta do supermercado, aprendendo a tolerar e ter prazer na espera); modelar o comportamento de amar e aceitar (treino em sorrir); deixar de brincar de deus (aprender a deixar de controlar o ambiente e a aceitar suas limitações pessoais).

Neste programa o conceito de "graça", tão caro a Paul Tournier, foi introduzido de maneira secular: que é sábio e desejável receber as coisas maravilhosas que a vida oferece, que estas não precisam ser ganhas (amor, serenidade, descanso, riso, alegria, divertimento, família, crianças, animais, plantas, beleza, vida); encorajamento da vida simples e abundante, por meio de uma postura de paciência e aceitação com humildade, amor, alegria, serviço desinteressado e obediência suave a preceitos espirituais, recebendo em troca as bênçãos decorrentes.

Este projeto, após quatro anos de seguimento, demonstrou redução de 50% na morbidade e mortalidade coronariana, melhora que não ocorreu no grupo-controle.

2) Apoio social
Pertencer a um grupo religioso e participar dele pode trazer consequências psicossociais saudáveis que influenciam positivamente a saúde. A religião promove coesão social, sensação de pertencer, incorporar e participar, sanciona continuidade dos relacionamentos, padrões familiares, e outros sistemas de apoio. Por meio do desenvolvimento de comunhão e companheirismo provê apoio social, modera o estresse e a raiva, e enfatiza estilos mais reflexivos de lidar com as situações e de se adaptar aos problemas.

O apoio social correlaciona-se à saúde e pode atuar de diversas maneiras: a) favorecendo a aderência a programas promotores de saúde; b) promovendo a comunhão regular com outros, que é característica importante de muitos sistemas religiosos. Em momentos de solidão, depressão e morte de pessoa próxima essa comunhão é de muito valor; c) por meio de processamento cognitivo e crenças, que influenciam o lidar com o estresse. As crenças da pessoa e suas interpretações em relação ao sofrimento e a vida são críticos para como lidar com as dificuldades; d) por vias psiconeuroendocrinológicas, que talvez façam com que a experiência religiosa e o companheirismo sirvam para bloquear ou inibir o impacto de emoções deletérias como a ansiedade e a anomia.

Apesar de o apoio social ser reconhecido como uma consequência importante da religião, parece não ser o principal meio pelo qual ela exerce sua ação sobre a saúde. Estudo comparando religião com frequentadores de clubes, que também oferecem apoio social, mostrou que mesmo assim a religião era superior. Algo mais existe nela...

“Os rituais religiosos públicos e privados são métodos poderosos para manter a saúde mental e para prevenir o início ou a progressão de distúrbios psicológicos. Ajudam a pessoa a enfrentar o terror, a ansiedade, o medo, a culpa, a raiva, a frustração, a incerteza, o trauma e a alienação, a lidar com emoções e ameaças universais.”

3) Sistema de crenças
As crenças religiosas podem gerar paz, autoconfiança e sensação de propósito na vida, ou o oposto: culpa, depressão e dúvidas. O efeito benéfico da religião pode advir do fato de o indivíduo perdoar a si mesmo e aos outros, desenvolver autoconceitos emocionais mais saudáveis e dar-se de modo não egoísta.

Historicamente a religião é benéfica à saúde mental por fornecer cognições fora do ordinário. Mais e mais pessoas abandonam a religião organizada quando ela perde a sua utilidade como instrumento explicativo.

4) Rituais religiosos
Evidências empíricas da psiquiatria e da medicina de cuidados primários mostram que os rituais são invariavelmente associados ao benefício.

Os rituais religiosos públicos e privados são métodos poderosos para manter a saúde mental e para prevenir o início ou a progressão de distúrbios psicológicos. Ajudam a pessoa a enfrentar o terror, a ansiedade, o medo, a culpa, a raiva, a frustração, a incerteza, o trauma e a alienação, a lidar com emoções e ameaças universais, oferecendo um mecanismo para delas se distanciar. Redu z em a tensão pessoal e do grupo, a agressividade, moderam a solidão, a depressão, a anomia, a sensação de não ter saída e a inferioridade.

Schumaker diz que a ausência de religião priva a pessoa dos benefícios produzidos pelos rituais encenados pela maioria, caminhos antiquíssimos para a saúde psicológica, pois incorporam cognições, filiação social, ação coletiva e catarse.

5) Oração
A oração é uma das formas mais antigas de intervenção terapêutica e continua sendo frequentemente utilizada, inclusive pelos médicos (dois terços de uma amostra de 126 médicos relataram rezar pelos seus pacientes).

Byrd acompanhou por dez meses 393 pacientes admitidos em unidade coronariana, dividindo-os em dois grupos. Os nomes dos pacientes de um desses grupos foram fornecidos a participantes de um grupo que se reunia sistematicamente para interceder mediante a oração. Em síntese, um grupo de cristãos fora do hospital orou pelas pessoas de um dos grupos. Os que receberam oração apresentaram menos edema pulmonar, foram entubados com menor frequência e necessitaram de menos antibióticos.

Dossey conclui que não orar pelos pacientes é o mesmo que evitar a ministração uma droga ou um procedimento cirúrgico eficaz. Recomenda que seja seguida a tradição da medicina, indo ao cerne dos dados obtidos cientificamente sem contorná-los, não importan-do o quão desconfortável isso possa ser, pois as evidências em favor da eficácia da oração não podem ser ignoradas.

6) Meditação
Um dos principais objetivos de muitos sistemas de prática espiritual é propiciar a vivência de paz interior, no seu sentido mais amplo e profundo. A literatura sobre os benefícios da meditação émuito extensa e seus benefícios já são reconhecidos por todos.

7) Confissão
"É somente com ajuda da confissão me sou capaz de me atirar nos braços da humanidade, livre finalmente do fardo do exílio moral." Esta frase do psiquiatra Jung mostra a importância da confissão para a saúde. A confissão reluz a raiva, aumenta a simpatia e reduz as repercussões negativas do ato e da a culpa, tendo um valor catalítico e um feito positivo no enfrentar os problemas com sucesso, no ajustamento e na evolução terapêutica.

8) Perdão
Está relacionado com a culpa, a ver-;onha e a reconciliação, mas principalmente com a segunda. A vergonha é a realização de que os outros nos estão sendo como realmente somos, e não orno gostaríamos que nos vissem. O perdão é o reconhecimento de que na verdade somos mais parecidos com quem nos ofendeu do que diferentes esses.

9) Conversão
A conversão religiosa e experiências religiosas intensas parecem ter um efeito benéfico, reduzindo sintomas patológicos. Nas igrejas todos já presenciaram mudanças intensas na vida de pessoas pós a experiência de conversão.

10) Exorcismo
Consiste em invocar o nome de Deus ara expulsar um espírito maligno que e crê habitar ou possuir uma pessoa, local ou objeto.

Sem levar em consideração a dimensão espiritual, são os seguintes os mecanismos psicológicos do exorcismo: a) a eficácia apóia-se sobre o efeito placebo: funciona porque as pessoas acham que vai funcionar; b) o resultado é influenciado por fatores e processos psicológicos (percepção, crença, expectativa, motivação, dramatização e reforço); c) a doença recebe um nome (por exemplo ossessão), o rótulo é manipulado e um novo nome é usado (curado, exorciza-o, expulso); d) quando o tratamento não funciona imediatamente, a falta de ura não é atribuída ao sistema terapêutico, mas ao curandeiro ou ao remédio; e) relação terapeuta-cliente: o vínculo é importantíssimo. Na prática clínica tem sido demonstrado que calor humano, empatia, e terapeuta genuíno produzem melhores resultados. No meio mágico, a onipotência e carisma do curandeiro (a auto-apresentação como poderoso, auto-confiante, onipotente e energia autoritária); f) remissão espontânea de sintomas psicológicos; g) abreação, por meio dele vivencia-se novamente intensa experiência emocional na tentativa de solucionar um problema psicológico e liberar as emoções acumuladas por meio de uma descarga catártica.

“A confissão reduz a raiva, aumenta a simpatia e reduz as repercussões negativas do ato e da a culpa, tendo um valor catalítico e um efeito positivo no enfrentar os problemas com sucesso, no ajustamento e na evolução terapêutica.”

11) Liturgia
Envolve a participação ativa e consciente da assembléia por meio da leitura de textos sagrados, louvor com hinos, salmos e cânticos, oração silenciosa e em grupo, e celebração de sacramentos (na religião cristã, o batismo, a confirmação e a eucaristia, a reconciliação e as devoções).

A liturgia apropriada ao momento de vida da congregação ou da família facilita muito a catarse emocional. O ministro religioso é treinado a planejá-la de acordo com períodos de celebração ou contrição e seguindo os ritos de passagem (no Ocidente o nascimento, o aprender a ler, o início da adolescência ou vida adulta, a entrada na universidade ou no mercado de trabalho, o casamento, a separação, a aposentadoria, a saída dos filhos de casa, a morte, as lembranças dos entes queridos).

12) Bênção
Bênção, passes, imposição de mãos, unção dos enfermos são práticas presentes em diversas religiões desde a antiguidade. São formas, atos ou palavras para comunicar poder às pessoas em nome de Deus, ou uma expressão de confiança entre as pessoas. Fazem parte do trabalho pastoral e a intenção é transmitir a promessa de força que será encontrada, não em quem a expressa, mas em Deus. Em nome de quem as palavras estão sendo ditas.

O benzer é uma das práticas mais presentes em nossa medicina folclórica. Oliveira, em seu texto O que é benzeção, mostra benzer como um ato de súplica, de imploração, de pedido insistente aos deuses para que eles se tornem mais presentes, para que tragam boas novas e benefícios. É um instrumento para produzir solidariedade, um elemento que aglutina as pessoas, que repara a tragédia, a dor, a aflição e o sofrimento.

13) Direção espiritual
É descrita como um relacionamento que tem por objetivo o desenvolvimento do "self' espiritual. Isso inclui a construção de um forte relacionamento com Deus e o desenvolvimento de uma vida pessoal plena de sentido. Toma diferentes formas dependendo das crenças religiosas, mas o diretor espiritual tem em seu repertório de comportamentos o uso de encorajamento, apoio e confronto, viando criar um clima de confiança que conduza o orientando a correr riscos e a crescer.

Julian define o alvo da direção espiritual como sendo o de aprofundar o relacionamento de uma pessoa com Deus. Ajudar a pessoa a prestar atenção àcomunicação pessoal de Deus e a responder, crescendo em intimidade com Ele e vivendo as consequências desse relacionamento. O foco da direção espiritual e em temas espirituais, oração, a leitura das escrituras e literatura religiosa, exercícios de visualização, escrever um diário e outras práticas religiosas usadas para aumentar a consciência da presença de Deus e o relacionamento com ele.

14) Idioma para expressar o estresse e promover ajustamento pessoal
A religião pode ser utilizada como um idioma para expressar o sofrimento em momentos de desorganização social e insatisfação, por meio de comportamentos que a psiquiatria pode in-terpretar como sendo dissociativos.

Outros mecanismos como técnicas de alteração de consciência, experiências místicas, experiências de proximidade com a morte, influências superempíricas e sobrenaturais também são descritas. Um poder ativo que transcende ou existe independentemente do mundo natural, que escolhe quando e por que abençoar ou dotar indivíduos ou grupos de pessoas com saúde. Essa visão de mundo é enfatizada dentro das tradições judaico-cristã e islâmica. Enfatiza a transcendência de Deus e sua presença e poder atuando na natureza e na história. Esse poder divino está acima das leis naturais e não pode ser objeto de escrutínio científico e experimentação. 


O momento atual no Brasil

Por todo o Brasil diversos profissionais procuram manter viva a herança de Paul Tournier. Essa tem sido a missão do Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos. Seus núcleos estão atuantes em diversas capitais e universidades, procurando colaborar com entidades afins como a Eirene, que trabalha com famílias, e com todos os projetos que envolvam a saúde mental.

“Ministérios voltados para a família ensinando a melhorar a comunicação, prevenindo a desestruturação dos lares tem imenso impacto na prevenção de problemas mentais e sociais.”

O Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo possui um núcleo de estudos sobre o relacionamento entre psiquiatria e religião. Além de estudos científicos a respeito do assunto, reconhecendo o imenso potencial terapêutico das comunidades religiosas e da religião madura e saudável, provê assessoria às igrejas, comunidades ou sinagogas que desenvolvem projetos que envolvam saúde mental. As possibilidades de colaboração são muitas. Muitas igrejas e organizações paraeclesiásticas realizam importante trabalho na recuperação de dependentes de drogas. O Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos ministra o curso "Logus" para pastores, visando atualizá-los e melhor equipá-los para a prática do aconselhamento. Além disso, há possibilidades de trabalho em prevenção de violência, de depressão, no qual o grupo de risco maior é o de mulheres jovens, com crianças pequenas e problemas financeiros e conjugais. O perfil demográfico de nossa população está mudando rapidamente. O número de pessoas idosas será cada vez maior, e as igrejas estarão prestando um grande serviço à sociedade se criarem programas para esta população. Projetos para a terceira idade, respeitando e valorizando a experiência e capacidades de nossos idosos, o cuidar de pessoas com doença de Alzheimer (também conhecida como esclerose) são extremamente necessários. Ministérios voltados para a família promovendo bem-estar, ensinando a melhorar a comunicação, prevenindo a desestruturação dos lares tem imenso impacto na prevenção de problemas mentais e sociais. Os pastores e líderes precisam usar o potencial dos pro-fissionais da área de psicologia e saúde mental disponível em suas igrejas. Ajudar nisso é o objeti-vo deste núcleo de estudos e trabalho.

Olhando para trás, somos edificados pela vida desse homem que procurou viver com retidão sua fé e as possibilidades da graça de Deus. Olhando para frente, somos desafiados a continuar o bom trabalho, atendendo as necessidades cada vez maiores de nossa popula-ção, que muito sofre pela falta de saúde mental. Creio ser este um ministério que a Igreja deve considerar em suas prioridades.

Nota
LOTUFO NETO, Francisco. Psiquiatria e religião; a prevalência de transtornos mentais entre ministros religiosos. Tese de Livre-docência apresentada em 1997 na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Francisco Lotufo Neto é médico psiquiatra, membro do Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos e professor associado do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Texto n° 5, retirado da edição 253, set-out de 1998

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