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Exclusivo On-line especial — 488 Anos de Reforma Protestante — A falta da Primeira Reforma

O valor da proposta original

Robinson Cavalcanti

As alternativas
Diante da crise por que passa o protestantismo, percebe-se uma lacuna e uma necessidade: a Primeira Reforma. Para a maioria dos brasileiros, a Primeira Reforma é algo desconhecido, vago ou de percepção distorcida. O protestantismo de Segunda Reforma, primeiro, de Terceira Reforma, depois, e, posteriormente, de Quarta e de Quinta Reformas terminaram por desenvolver o “rosto do protestantismo brasileiro”, na percepção tanto da sociedade não-protestante quanto dos próprios protestantes.

O que chamamos hoje, em uma tipologia, de protestantismo é, na realidade, um conglomerado de seis expressões, de seis fenômenos históricos, a saber:

A Pré-reforma: com as igrejas que surgiram antes do século 16, como, por exemplo, a Igreja Valdense;

A Primeira Reforma: em que se incluem o luteranismo e o anglicanismo;

A Segunda Reforma: de cunho zwingliniano-calvinista, como as igrejas reformadas e presbiterianas, com a rejeição do episcopado histórico, da liturgia e das artes sacras históricas e um rígido confessionalismo;

A Terceira Reforma: também chamada de “reforma radical”, fruto do anabatismo e do não-conformismo independente, com ênfase no batismo de adultos, na autonomia das comunidades locais, no individualismo, com uma visão de uma “apostasia geral” do cristianismo histórico. Aqui estariam os congregacionais, os batistas, os menonitas, dentre outros;

A Quarta Reforma: do início do século 20, com o pentecostalismo, com uma ênfase pneumatológica na contemporaneidade dos dons espirituais, especialmente a glossolalia, com uma tendência fundamentalista em teologia e pré-milenista em escatologia. Aqui se originam as Assembléias de Deus;

A Quinta Reforma: do final do século 20, também chamada de neopentecostalismo ou pós-pentecostalismo, com vertentes populares e elitistas, com ênfase na “batalha espiritual” e na “teologia da prosperidade”: Universal do Reino de Deus, Renascer e outras.

Apesar das modificações ocorridas no interior de cada uma ao longo do tempo, e de mútuas influências, é necessária extrema clareza quanto às características de cada um desses seis ramos da fé cristã reformada, para que cada fiel possa fazer sua escolha livre e consciente, sem se sentir deslocado ou tensionado. Se o pecado humano é o responsável pelo surgimento das denominações, elas são um fato. Como seres históricos e culturais, não vivemos em um vácuo, mas em um ou outro dos ramos do cristianismo. Os que negam a realidade histórica e confessional das denominações terminam por criar outras (mesmo sem nome). Na América Latina – e no Brasil em particular – o protestantismo construiu uma “identidade por contraste” com o catolicismo romano, muitas vezes em um sectarismo imaturo e, no fundo, emocionalmente dependente (por antagonismo) da Igreja de Roma. O estereótipo (nem sempre verdadeiro) é que ser protestante é ser sectário, antiintelectual, legalista, moralista, fundamentalista, insensível aos necessitados, culturalmente irrelevante, politicamente alienado ou reacionário e irracionalmente anti-romano. Esse lamentável “rosto” exclui a Primeira Reforma. Nesse contexto, os luteranos e os anglicanos não são considerados (e, às vezes, não se consideram) como protestantes (ou como protestantes autênticos). Leve-se em conta, ainda: a completa ausência ou discreta presença do luteranismo e do anglicanismo em 90% do território nacional; b) a imagem “estrangeira”, alemã ou inglesa, dessas denominações, seu relativo isolamento cultural e reduzida ênfase evangelística; c) a aparente predominância não-evangelical entre luteranos e anglicanos.

As características
Na Primeira Reforma podemos destacar as seguintes marcas gerais:

- A catolicidade. A consciência de continuidade histórica, com a conseqüente rejeição como heresia pneumatológica da “apostasia da igreja”. Continuidade histórica que inclui uma herança teológica (o pensamento cristão), confessional (os credos) e litúrgica (orações e ritos), um sentido de parcialidade e transitoriedade em relação ao conjunto do cristianismo, e uma atitude ecumênica;

- O lugar tanto da Palavra (Sagradas Escrituras), quanto dos sacramentos na liturgia e na espiritualidade, e da tradição e da razão na teologia;

- No anglicanismo e em parte do luteranismo uma ordem no governo da Igreja que incluiu o episcopado histórico, o presbiterato e o diaconato, com a participação dos leigos (sinodalidade, conciliaridade).

Como desdobramentos da Primeira Reforma, poderíamos destacar:

- Sociologicamente, a organização como Igreja, e não como seita;

- A inclusividade e não o monolitismo no secundário e no não-essencial;

- A busca de uma ética positiva e não negativa, e de uma atitude pastoral e não legalista-moralista;

- Uma missão integral, que pressupõe presença e diálogo;

- Uma abertura à contribuição filosófica e científica para a tarefa teológica e pastoral.

A Igreja da Inglaterra e a Igreja da Suécia somente foram possíveis com a Reforma. Sem a Reforma não teríamos hoje nem anglicanismo nem luteranismo, mas apenas o catolicismo romano nas Ilhas Britânicas ou na Escandinávia, quaisquer que fossem as suas peculiaridades. Ali se deu a Reforma necessária (sem exageros ou radicalizações). Esses ramos reformados são, assim, herdeiros de séculos de pensamentos e experiências, em constante processo de atualização e inculturação.

As necessidades
É de se reconhecer que há uma grande diferença entre as propostas herdeiras da Primeira Reforma e as outras manifestações protestantes que marcaram o cenário religioso brasileiro.
Os luteranos e os anglicanos são desafiados à constante redescoberta e reapropriação atualizada das marcas institucionais e teológicas originais da Reforma do Século 16, demarcando-se uma diferença em relação aos “rostos” protestantes majoritários no Brasil. Não pedem desculpas por serem o que são e como são, não cultivam sentimentos de inferioridade ou superioridade, e não sentem necessidade de negar as suas características pela imitação dos outros para serem aceitos.

Ao contrário, há um rico tesouro a ser partilhado. Essa proposta faz falta no presente cenário. A vida religiosa brasileira seria grandemente beneficiada com essa presença e essa partilha. Há muita gente que desconhece o legado e as características da Primeira Reforma, e que não se identifica ou se satisfaz com as alternativas mais disseminadas. Gente madura, moderada, valorizadora da história e da estética. Gente predisposta a essa proposta, seu conteúdo e seu ethos: gente que valoriza a História, a moderação, a mística, a afetividade, a estética, os símbolos, a arte, a liberdade de pensamento, respeito à diversidade e à privacidade, a inculturação da fé e a Reforma como constante atualização da catolicidade.

A partir da redescoberta da Primeira Reforma, o protestantismo brasileiro seria revitalizado, com um novo impacto na fé e na vida do povo da terra de Vera Cruz.

Escutemos Lutero e Cranmer...

(Retirado da edição 279 de Ultimato, nov/dez de 2002)

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