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Seções — Livros

C. S. Lewis e Sigmund Freud
muitas semelhanças e uma diferança enorme


Há algo mais importante do que a idéia de Deus, do amor, do sexo e do sentido da vida? Essas inquietações básicas é que fazem a diferença entre os animais e os seres humanos. Nós as temos, em todos os tempos e em todos os lugares; e o resto da criação de Deus nem sequer tem conhecimento delas. Essas palavras-chaves definem nossa existência e, conforme o valor que damos a elas, nos empurram gloriosamente para cima ou vergonhosamente para baixo.

É, portanto, uma boa notícia para o público brasileiro o lançamento de Deus em Questão — C. S. Lewis e Freud debatem Deus, amor, sexo e o sentido da vida (Editora Ultimato, agosto/2005), originalmente publicado em inglês pela Simon & Schuster, nos Estados Unidos, há apenas três anos. Escrito pelo psiquiatra Armand M. Nicholi Jr., professor da Escola de Medicina de Harvard e do Hospital Geral de Massachusetts, o livro foi traduzido pela professora Gabriele Greggersen, especialista em C. S. Lewis, da Faculdade Teológica Sul-Americana, em Londrina, PR.

Sigmund Freud e C. S. Lewis

Freud nasceu na Áustria na metade do século 19 (1856) e Lewis nasceu na Irlanda no final do mesmo século (1898). Mas ambos morreram na Inglaterra e foram sepultados a noroeste de Londres, Freud aos 83 anos e Lewis aos 65.

Freud é o fundador da psicanálise. Seu nome aparece em sexto lugar numa relação dos 100 cientistas mais influentes. C. S. Lewis foi o famoso crítico literário, escritor e professor de literatura medieval e renascentista de Oxford. Há quem se refira ao século 20 como o “século de Freud”, e Nicholi considera Lewis “o mais popular defensor da fé no século 20”.

Os dois gigantes do século passado não eram tão gigantes assim. Tanto Freud como Lewis tiveram várias crises de depressão, algumas bem agudas. Os dois experimentaram problemas seriíssimos com a morte de entes queridos. Três anos depois de perder a filha mais querida (Sophie), Freud viu morrer o neto de 4 anos de idade (filho de Sophie). Ele sonhava o tempo todo com a morte e sofria de ataques de pânico. Aconselhava: “Se você quer suportar a vida, prepare-se para a morte”. Lewis, por sua vez, nunca se esqueceu da morte da mãe quando era um garoto de 9 anos nem da morte da esposa, com a qual se casou aos 58 anos, ambas vítimas de câncer. Afirmava que a morte é “o maior de todos os males”.

Os dois homens, especialmente o primeiro, tiveram uma vida muito sofrida. Numa carta escrita ao editor do jornal britânico Time and Tide, Freud se queixa amargamente do anti-semitismo (ele era judeu): “Eu vim para Viena, quando era uma criança de 4 anos. Depois de 78 anos de trabalho assíduo, tive de deixar o meu lar, vi a sociedade científica que fundei sendo dissolvida, nossas instituições destruídas, nossa imprensa tomada pelos invasores, os livros que eu havia publicado, confiscados ou reduzidos a uma pasta, meus filhos expulsos das suas profissões” (ele se refere ao nazismo). Vítima de câncer no céu da boca nos últimos 16 anos de vida, Freud se submeteu a cerca de 30 cirurgias, todas com anestesia local, além dos efeitos dos inúmeros tratamentos de radioterapia. Lewis também sofreu por longos anos as lembranças pessoais da Primeira Guerra Mundial, quando foi ferido por um estilhaço que matou amigos que estavam ao seu lado na linha de frente. Além de alguma discriminação em Oxford, que só lhe ofereceu uma cadeira quando ele estava com 50 anos.

Freud e Lewis eram netos de religiosos – o primeiro, de um rabino e o segundo, de um pastor anglicano – e foram educados no temor de Deus e nas religiões da família.

Outra semelhança notável entre os dois grandes expoentes foi o ateísmo confesso de ambos. Mas essa semelhança acabou, com a conversão de Lewis aos 31 anos.

Surpresas e mais surpresas

Há 30 anos, o psiquiatra Armand Nicholi, professor da Universidade de Harvard, oferece um curso sobre Freud na Escola de Medicina de Harvard. Para dar essas aulas e escrever Deus em Questão, Nicholi pesquisou intensamente, visitou a biblioteca de Freud em Londres, esteve em Viena e outros lugares relacionados com a vida do médico austríaco e entrevistou várias pessoas, inclusive Anna Freud, a filha e sucessora de Freud. Depois de discorrer sobre as idéias filosóficas de Freud, Nicholi começa a fazer comparação entre Freud e C. S. Lewis, o que torna o curso fascinante. Em seu livro, Nicholi discorre sobre ambos ao mesmo tempo, tanto na parte um (Em quê acreditar?) como na parte dois (Como viver?).

O leitor pouco versado em Freud e C. S. Lewis é surpreendido a todo momento com certas revelações ao correr da leitura. Uma delas diz respeito à vida amorosa e sexual de Freud. Em abril de 1882, aos 26 anos, ele se enamorou de uma jovem chamada Martha, mas por falta de recursos, o noivado durou quatro anos. Nesse período, escreveu mais de 900 cartas para ela — quase uma por dia. O casamento só aconteceu em setembro de 1886. O casal teve seis filhos em oito anos. Para não aumentar o número de filhos, Freud e Martha passaram a viver na abstinência sexual. Quanto à vida amorosa e sexual de C. S. Lewis, Nicholi conta que o professor de Oxford casou-se, aos 58 anos, com a americana Joy Davidman, em abril de 1956. Ela era uma mulher culta, escritora, membro do partido comunista e divorciada (o primeiro marido foi flagrado dormindo com uma prima de Joy). Por causa dessa situação constrangedora, o casamento de Lewis só se consumou um ano depois. Além disso, ela estava com câncer e os médicos disseram que ela poderia morrer em questão de meses.

Outra revelação surpreendente no livro de Nicholi é a extraordinária mudança pela qual passou C. S. Lewis depois de sua conversão. Seu apego a Jesus Cristo, suas convicções inabaláveis quanto à redenção por meio da morte e ressurreição do Senhor e sua coragem em testemunhar para todo mundo através de seus muitos livros — simplesmente encantam. Lewis morreu no dia 22 de novembro de 1963, há 42 anos.

Deus em Questão: C. S. Lewis e Freud debatem Deus, amor, sexo e o sentido da vida é um dos livros mais preciosos que eu já li.

E. César


Dois gigantes intelectuais frente a frente
entrevista com Armand Nicholi
Por David Neff

“As experiências da primeira infância revelam um paralelismo impressionante” entre Lewis e Freud. Se essas experiências de amor e perda foram assim tão semelhantes, como se explica que esses homens tenham-se revelado tão diferentes?

Nicholi — Até a conversão de Lewis, ele e Freud se mostravam bastante parecidos — intelectualmente talentosos, introspectivos, altamente críticos e desconfiados em relação aos outros, clinicamente depressivos, pessimistas, sombrios e hostis a seus pais e a toda autoridade — especialmente à noção de Autoridade Última — etc. Porém, quando chegou à casa dos 30, Lewis teve uma experiência de conversão que transformou a sua vida.

Você realizou pesquisas empíricas sobre a conversão religiosa de estudantes universitários. O que você concluiu pela comparação entre a conversão desses estudantes e a de Lewis?

Nicholi — Tanto Lewis, quanto os estudantes perceberam nos partidários da fé algo que fazia falta nas suas próprias vidas. Lewis observou isso nos colegas que faziam parte do corpo docente da Universidade de Oxford e em alguns dos grandes escritores que ele admirava; e os estudantes, em alguns colegas que refletiam uma fé robusta. Tanto Lewis, quanto os estudantes fizeram um esforço consciente de abrir a mente para observar as evidências de perto. No caso de Lewis, tudo começou com a leitura do Novo Testamento em grego; no caso dos estudantes, com grupos de estudo bíblico no campus. Tanto aquele quanto estes conquistaram a fé no contexto de uma universidade moderna, liberal, onde o clima tende a ser hostil. Muitas vezes as pessoas acham que a visão de mundo espiritual é somente para as massas ignorantes, e que trata-se de uma muleta psicológica que não funciona. Alguns a consideram uma expressão de patologia, como o próprio Freud pensava.

Mas Lewis acabou se mostrando mais bem ajustado no final.

Nicholi — Tanto Lewis, quanto os estudantes passaram a viver mais efetivamente depois da experiência de conversão. Os estudantes que passaram pelo que chamaram de “conversão religiosa” apresentaram uma mudança radical no estilo de vida — abandono do uso de drogas, auto-imagem ampliada, um espírito mais perdoador em relação aos outros e a si mesmos, melhor controle dos impulsos, crescente capacidade de estabelecer “relacionamentos mais profundos e satisfatórios”, alteração marcante no humor e na afetividade, e alívio do que consideravam “desespero existencial.”

Amigos de Lewis que já o conheciam desde antes da sua conversão notaram essas mesmas mudanças nele. A qualidade dos seus relacionamentos mudou; ele começou a sair mais da toca. Dizia que a sua conversão representou o início do processo que fez com que se tornasse mais extrovertido. Ele passou a ter outro conceito das pessoas quando se deu conta de que cada ser humano vive para sempre, muito além das instituições, dos governos e nações, e, por isso, têm valor infinitamente maior.

O livro apresenta um capítulo dedicado à idéia que Freud e Lewis tinham do sexo. Quem era sexualmente mais bem ajustado?

Nicholi — Embora consideremos Freud o pai da nova sexualidade, suas cartas e suas biografias apontam para o fato de que, no que diz respeito ao sexo, ele vivia de acordo com a tradição, ou seja, sexo só no casamento; fidelidade total ou abstinência. A grande maioria dos biógrafos concorda que, durante um noivado que durou quatro anos, Freud não teve relações sexuais, e um deles observa que ele foi fiel durante todo o casamento. Mesmo depois de casado, sua vida sexual parece ter sido bastante restrita — quando tinha 37 anos de idade, ele escreveu a um amigo: “Estamos vivendo na abstinência agora”.

Lewis dá poucos detalhes de sua vida sexual antes da sua conversão. Na época em que ainda estava no exército, ele evitava o contato com prostitutas — quem sabe até por medo de doenças. Ele descreve um desejo sexual robusto, do qual se conscientizou no início da adolescência. Afirma que, antes de se converter, tentava viver uma vida moral, mas sempre falhava nos campos do “desejo e da raiva”. Quando passou a olhar para a sua própria vida com mais seriedade, ficou “apavorado” com o “bestiário de luxúrias” que via dentro de si. Quando finalmente se casou, já cinqüentão, confessou que isso foi alentador para o seu desejo sexual. Pouco mais tarde, afirmou: “[Minha esposa e eu] banqueteávamos amor, de todas as espécies... Nenhuma glândula do coração ou do corpo ficou insatisfeita”. Sua esposa escreveu: “Parecíamos um casal de vinte e poucos anos em lua-de-mel”.

Freud perguntava: “O que as mulheres desejam?” Já Lewis trocou um grande volume de correspondências com mulheres. Algum homem teria conseguido entender o sexo oposto?

Nicholi — Freud sabia que tinha dificuldade de entender as mulheres. Ele se referia à sexualidade feminina como um “continente oculto”. Muitas de suas teorias eram um escândalo para as feministas, e ele é, com freqüência, acusado de ter preconceito contra as mulheres. Porém, ele tinha muitas seguidoras mulheres. Vale lembrar ainda que há muitas mulheres entre os primeiros psiquiatras, com quem ele tinha boas relações de trabalho.

Lewis também tinha muitas amigas mulheres, que admirava e com quem se correspondia. Ele parece ter tido uma compreensão pouco comum das mulheres, talvez não apenas por causa dos clássicos da literatura, mas também graças à sua convivência com a sua mãe substituta, a senhora Moore, e sua filha. Sua dissertação The Allegory of Love (A alegoria do amor) destaca o amor entre homem e mulher, e seus escritos populares sobre o casamento moderno e a família revelam forte insight clínico psicanalítico e compreensão.

Freud diz que o adulto bem ajustado precisa ter habilidade de amar e trabalhar. Como você compararia a visão de Freud e a de Lewis sobre o trabalho?

Nicholi — Ambos trabalhavam duro em suas respectivas profissões e eram bons escritores. Tanto Freud quanto Lewis — este antes de se tornar cristão — tinham forte desejo de se tornarem famosos. Quando tinha 17 anos de idade, Freud recomendou a um amigo que não jogasse fora as cartas que recebera dele, porque um dia ele seria famoso. Em suas auto-análises, ele relacionava o desejo de se tornar famoso a uma história que lhe haviam contado quando ele era criança: uma senhora idosa profetizara que sua mãe dera à luz um bebê que se tornaria um grande homem. Quando estava com cerca de 50 anos de idade, ele disse: “Em vista da inevitável ingratidão da humanidade [...] Eu certamente não trabalho movido pela expectativa de vir a ter alguma recompensa ou fama”. No entanto, seu diário e suas cartas sugerem que esse desejo permaneceu.

Antes de sua conversão, C.S. Lewis tinha “sonhos de sucesso e fama”. Depois, passou a tratar o desejo de ser famoso como escritor como um problema sério. A vontade de ser melhor reconhecido pelos outros atiçava o orgulho. Já quando se concentrava em escrever bem e se esquecia de querer ficar famoso, ele realmente escrevia bem e, assim, era reconhecido por isso — talvez essa idéia tenha reforçado o seu princípio de que, quando as primeiras coisas são postas em primeiro lugar, as segundas não decrescem, mas crescem.

Como você compararia Lewis e Freud no que diz respeito à felicidade?

Nicholi — Ambos sofriam de depressão clínica. Antes de se tornar cristão, em seu diário e cartas, Lewis parece irritável, pessimista, obscuro e sem esperança. Diz que o seu ateísmo baseava-se na sua “visão muito pessimista da existência”. Depois da sua conversão, ele passou a dizer que a alegria se tornara “a história central da minha vida”. Seus amigos passaram a considerá-lo uma pessoa animada e sociável. Ele havia sido surpreendido pela alegria no relacionamento recém-estabelecido com o Criador. Lewis afirma que Deus não nos pode dar “felicidade alguma além de si mesmo, pois ela não existe fora dele”. A sua nova fé ajudou-o a superar a depressão. A pesquisa médica recente lançou bastante luz sobre os aspectos positivos da fé no tratamento da depressão.

Freud, por sua vez, quando jovem, usou cocaína durante algum tempo como forma de melhorar o ânimo. Ele relacionava a felicidade ao prazer, e para ele a maior fonte de prazer era a satisfação instintiva, o prazer sexual. E como isso só ocorre de vez em quando, ele conclui que está descartada qualquer chance de felicidade.

Certamente Lewis não era nenhum inimigo dos prazeres.

Nicholi — Lewis divide a felicidade em várias categorias, mas diz que todas elas vêm da mesma fonte. Ele mostrava-se capaz de apreciar os pequenos prazeres da vida, como assistir ao pôr-do-sol, ouvir uma boa música ou tomar um banho quentinho. E dizia que metade de toda a felicidade vem das amizades.

Já Freud parecia ter uma capacidade limitada de apreciar pequenos prazeres. E suas cartas não expressam muita felicidade. Certamente ele experimentou alegria em estar com os filhos e a família, mas a grande maioria dos seus escritos indica que ele não considerava a vida uma experiência particularmente feliz.

Nota

1. Publicado originalmente em inglês pela Christianity Today, em abril de 2002. Traduzido por Gabriele Greggersen. Publicado com autorização.

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