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Colunas — Ponto Final

A boca cheia de riso

Rubem Amorese

Se o louvor provém da mente, a adoração nasce da gratidão.Esta última parece ser um fenômeno composto de um sentimento que se apóia sobre um reconhecimento. Alguém nos fez um bem que não poderíamos fazer, nem obrigar outro a realizá-lo, nem pagar por ele. Também não poderíamos pagar por esse bem. Se pagamos, não existe favor (Rm 4.4). Portanto, quem fez isso por nós o fez graciosamente — de graça.

Esse sentimento tem matizes que variam do desdém à comoção, a partir da avaliação que fazemos do bem recebido, tendo em vista nossas necessidades (se não tínhamos consciência da necessidade, somos menos gratos). Varia com a possibilidade de realizá-lo nós mesmos e com a percepção das razões ou motivações pelas quais alguém nos agraciou. Sim, esse alguém pode nos ter feito um bem por obrigação (porque a mãe mandou), por dever de ofício (como o bombeiro que salva alguém de um incêndio), ou simplesmente por amor (uma vez que ninguém o obrigava nem constrangia).

Mas nem tudo é de fácil explicação. A gratidão também se origina em certa qualidade do nosso coração — uma misteriosa e instável capacidade ou disposição para agradecer. Nesse sentido, ela é resultante de um estado devocional da alma. E a devoção é um movimento de retribuição, de doação, de oferta. Esse estado emocional é tão poderoso que nos habilita a grandes transformações pessoais.

Algumas pessoas são prontas ao reconhecimento. Outras, nunca satisfeitas, dispõem-se mais à cobrança, crítica ou lamentação. Sofrem muito. Às vezes, sem saber disso.

Na sociedade de mercado em que vivemos a gratidão afetiva está em baixa, pois as relações comerciais são utilitárias e se recompensam com dinheiro, prestígio, serviços ou produtos de boa qualidade. Exigimos ISO-9000; o resto é considerado sentimentalismo.

Não sei por que existem essas diferenças pessoais. Mas imagino que uma das grandes dádivas do Espírito há de ser a graça da gratidão, a cobrir de flores aquele jardim que, a olhos humanos, parece tão árido.

Para Paulo, o mundo se divide entre aqueles que, diante do conhecimento de Deus, respondem com graças e aqueles que se permitem a contaminação do coração pelo ressentimento, restando-lhes o raciocínio queixoso e exigente (Rm 1.21).

Estou convencido de que a gratidão (ou não) a Deus revela o “nervo do dente” de um coração: a fonte de águas, doces ou amargas, de nossa vida. Dali flui um rio emocional, capaz de contaminar todo o nosso ser, produzindo “morte” ou “mudança de sorte” e determinando os rumos de nossa existência.

Tal é a profundidade dessa fonte que torna-se difícil imaginar a adoração sem gratidão. Águas amargas podem até louvar, e com honestidade, pelo uso da razão. Mas a genuína adoração nasce de uma “boca cheia de riso”, contaminada pelo coração grato. Tenha ela o perfume das flores da alegria ou o aroma do incenso da dor, estará dizendo que tudo o que Ele é e faz é bom. Cheiro suave ao Senhor.

Peço a Deus a graça da gratidão para poder adorar com o salmista: “Quando o Senhor restaurou a sorte de Sião, ficamos como quem sonha. Então, a nossa boca se encheu de riso, e a nossa língua, de júbilo... Com efeito, grandes cousas fez o Senhor por nós; por isso, estamos alegres.” (Sl 126.1-3)


Rubem Amorese é consultor legislativo no Senado Federal e presbítero na Igreja Presbiteriana do Planalto, em Brasília. É autor de, entre outros, Igreja e Sociedade – o desafio de ser cristão no Brasil do século XXI e Icabode – da mente de Cristo à consciência moderna.
rubem@amorese.com.br


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