Apoie com um cafezinho
Olá visitante!
Cadastre-se

Esqueci minha senha

  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.
Seja bem-vindo Visitante!
  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.

Colunas — Avivamento tupiniquim

Memória Histórica (parte III)

Manfred Grellert

O leitor pode perguntar: por que se preocupar com o que aconteceu no início do século 19 nos Estados Unidos e na Inglaterra, quando procuramos entender o avivamento tupiniquim de hoje? A razão para isso é que o nosso protestantismo é um protestantismo de migração, de missão e de imitação, um tanto débil em criação local. Temos algumas interessantes novidades nacionais, especialmente invenções eclesiásticas, umas autênticas e outras espúrias. Mas não tivemos reformadores brasileiros, nem santos como Tereza de Ávila e João da Cruz da Espanha. Nem um fundador de ordens religiosas da estirpe de um Inácio de Loyola, que hoje lemos com muito proveito. Somos não apenas economicamente dependentes, mas também teologicamente dependentes. Imitamos até o fast-food teológico de fora, que engorda, mas não nutre. De tempos em tempos aparece uma novidade que deixa os seus estragos. O produto são santos frouxos, contextualmente inócuos, correndo para lá e para cá sem uma proposta real.

Mas há algumas exceções. Uma delas é a teologia da libertação, que tentou sua articulação protestante com Richard Shaul e Rubem Alves, rapidamente cassados pelos poderes eclesiásticos de turno. No mundo católico, nosso bom papa polonês não só cassou o Boff, mas acabou com os bispos proféticos, hoje uma espécie de dinossauros em extinção, que inspiraram e iluminaram a consciência latino-americana. Como eram interessantes, e ecumênicos, os documentos da CNBB da metade da década de 60 até a metade da década de 80! De Medellin a Santo Domingo (CELAM), a Igreja Católica, com a sua re-romanização, foi três passos para trás e três para a direita. Ganhou a Opus Dei e a ala conservadora do Vaticano. As igrejas locais (nacionais) andam um pouco fracas. Mas nos falta ainda hoje uma teologia da libertação evangélica, que não precisa de inspiração marxista. Os profetas e o autêntico evangelho de Jesus Cristo são fundamentos suficientes, junto com a inspiração de nossos melhores modelos históricos das mais diferentes latitudes e épocas, para uma agenda de transformação nacional.

A outra exceção é a teologia da missão integral, filha da Fraternidade Teológica Latino-Americana, que teve sua primeira reunião em Bogotá (1969) e que buscou uma via média entre a libertação (TL) e o protestantismo conservador, abençoador sistemático da realidade iníqua do continente. Já em 1969, esses “hermanitos” afirmaram nossa responsabilidade por uma reflexão independente, contextual, informada pelas Escrituras, iluminada pelo Espírito Santo, e em relação dialética com a experiência mundial e ecumênica da Igreja. Descobrimos que tínhamos cabeças para pensar — e não para só para ruminar o que vinha de fora. Essa agenda continua em construção, como testemunham os CLADEs I a IV, mas também os CBEs 1 e 2. E umas FTLs um tanto capengas por aí. O intento nobre é articular uma teologia e uma missiologia a partir do evangelho e a serviço do evangelho, que seja ao mesmo tempo transformadora da vida pessoal e da realidade, embasada numa teologia do reino de Deus. Nossas estruturas de educação teológica ainda inibem a articulação desse modelo de teologia, mas sua prática se espalhou por todo canto onde o amor e a obediência ao Cristo bíblico quebram esquemas missiológicos tradicionais, onde se crê num Cristo poderoso, Senhor e transformador de toda a realidade. O avanço em microcontextos é impressionante.



O Segundo Grande Avivamento

Mas voltemos ao século 19: que resultados deixou o Segundo Grande Avivamento do início daquele século? Levantamos a pergunta tendo em vista a nossa preocupação com a explosão protestante no Brasil. Nosso avivamento tupiniquim deixará bons frutos que permanecem, ou somente folhas, muitas folhas? Nossos netos dirão o que de fato terá acontecido. A história será contada. E se darão nomes aos bois. E também aos cabritos.

O que mais marcou o Segundo Grande Avivamento, junto com uma poderosa proclamação do evangelho, foi o surgimento de numerosas “sociedades voluntárias evangélicas interdenominacionais”, como sociedades missionárias, de produção de literatura, de promoção de Escolas Dominicais, de reforma moral, e aquelas que buscavam a reforma da sociedade, lutando com assuntos como temperança, paz e abolição da escravatura. Na Inglaterra, buscava-se um “império benevolente”, marcado pela preocupação com os pobres, as prostitutas e os escravos. A evangelização era feita com uma clara compreensão de que uma nação não reformada estaria debaixo do juízo de Deus. Ainda na Inglaterra, o lorde Shaftesbury, sucessor de Wilberforce, lutou contra a opressão capitalista das classes trabalhadoras, contra o abuso do trabalho infantil, a favor de cuidados para doentes mentais, e a favor de casas para os pobres. Partiu-se de Escolas Dominicais para escolas para os filhos dos trabalhadores. Também houve preocupação com os órfãos (Mueller, Barnardo, Spurgeon), criou-se a YMCA (União Cristã de Moços), a Cruz Vermelha, e trabalhou-se com todos os tipos de marginalizados sociais: cegos e surdos (inventaram o Braille), aleijados, enfermos, velhos, e muitos outros. No continente europeu, a Innere Mission (Alemanha) buscava levar o evangelho aos pobres por proclamação e demonstração. Abraham Kuyper lutou pela transformação da cultura e da sociedade (chegou a ser primeiro-ministro da Holanda, fundou um partido político e uma universidade). Kuyper quis que os evangélicos estivessem na vanguarda dos movimentos de transformação social, mas era aberto a cobeligerâncias com não-cristãos, devido a sua compreensão da “graça comum”, segundo a qual Deus ilumina a mente de todas as pessoas preocupadas com o bem comum. Até a época de Finney, entendia-se que ser evangélico regenerado era ser um militante da transformação da sociedade. Seu avivamento juntou proclamação do evangelho com luta pela libertação da escravatura. Infelizmente esse evangelicalismo lúcido desapareceu, por razões que brevemente tocaremos em nosso próximo artigo.



Avivamento contextual

Hoje nos resta somente afirmar que, mesmo que nossa história evangelical seja marcada também por pecados que assolaram todas as expressões da fé crista, ela é ao mesmo tempo uma história que pode iluminar nosso testemunho no Brasil atual. Ser evangélico é também trabalhar pela transformação da sociedade brasileira e sonhar com uma pátria boa para todos. Negar essa tarefa é desconhecer o testemunho pujante de gerações anteriores e meter-se com agendas tacanhas. Jesus Cristo quer transformar o Brasil. Temos irmãos e irmãs que não são da nossa grei. E temos brasileiros e brasileiras de boa vontade como cobeligerantes. Podemos todos fazer algo, a partir da casa, do bairro e do município. Mas também devemos orar, estudar e discutir entre nós e com outras pessoas uma agenda digna de nossa vocação de testemunhas fiéis do evangelho em nossa geração. A questão é produzirmos frutos que permaneçam, e não apenas folhas. Agora que somos tantos (25 milhões), temos responsabilidades das quais antes podíamos abdicar. Se bem que ser evangélico já significava testemunhar do evangelho para a transformação pessoal e social de nossa terra. Somos herdeiros de uma história digna de ser ponderada. Mas nossa agenda só pode se articulada a partir do nosso caminho com Cristo em nossas plagas, porque testemunho e missão são contextuais.


Manfred Grellert é responsável pela área de Formação Cristã da Visão Mundial Internacional.



Leia também:

Memória Histórica (parte I) e
Memória Histórica (parte II)

QUE BOM QUE VOCÊ CHEGOU ATÉ AQUI.

Ultimato quer falar com você.

A cada dia, mais de dez mil usuários navegam pelo Portal Ultimato. Leem e compartilham gratuitamente dezenas de blogs e hotsites, além do acervo digital da revista Ultimato, centenas de estudos bíblicos, devocionais diárias de autores como John Stott, Eugene Peterson, C. S. Lewis, entre outros, além de artigos, notícias e serviços que são atualizados diariamente nas diferentes plataformas e redes sociais.

PARA CONTINUAR, precisamos do seu apoio. Compartilhe conosco um cafezinho.


Opinião do leitor

Para comentar é necessário estar logado no site. Clique aqui para fazer o login ou o seu cadastro.
Ainda não há comentários sobre este texto. Seja o primeiro a comentar!
Escreva um artigo em resposta

Ainda não há artigos publicados na seção "Palavra do leitor" em resposta a este texto.