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Reflexão — Valdir Steuernagel

Babel ou Pentecostes — qual o nosso destino?

O capítulo está longo e sério

O dia 11 de setembro já é uma data histórica. Pela sua realidade e surpresa. Pela sua loucura e ousadia. Pelo seu toque de maldade e pela instalação mais ampla do terror. Pela incerteza que ele introduziu nas relações entre povos, etnias e religiões. Confesso que me surpreendi também com as conseqüências daqueles atos terroristas. E, assim, volto a esse assunto.

Eu tinha uma viagem marcada para os Estados Unidos e o Canadá poucos dias depois do atentado (no dia 16 seguinte). Pensei que não demoraria e os aeroportos já estariam funcionando novamente, as coisas de volta ao normal. Mas me enganei: a coisa foi muito feia! Está feia. E parece ficar cada vez mais feia.

Todo mundo tem suas manias. Eu, por exemplo, gosto de analisar direções e tendências. Ler jornal. Assinar revista. Conversar sobre política. Estabelecer prognósticos. Mas, dessa vez, eu não soube dimensionar as coisas (não que eu soubesse fazê-lo em outras ocasiões...). O que mais me impressiona não é o montante de bombas que os EUA estão jogando sobre o Afeganistão, pois por lá os beligerantes parecem estar ditando o tom; e estes querem usar as bombas. O que mais me surpreendeu foi a forte reação da população norte-americana: sua raiva e seu susto. Sua prepotência cega e sua ingenuidade. Seu medo e sua insegurança. Sua fragilidade e seu diagnóstico sombrio. Em meio a esse quadro, fica difícil separar a realidade da paranóia, que também acaba sendo uma realidade.

E as bombas continuam caindo, sem que se saiba se elas surtirão o efeito desejado. Entrementes, já devem estar caindo sobre si mesmas. Afinal, o que ainda resta para ser destruído no Afeganistão, senão o pobre e a sua pobreza? E, esta, a bomba só cultiva.

O insistente cheiro doce-azedo de Nova York persiste, e a ele se juntou o cheiro de morte do Afeganistão. Parece já não haver espaço para que possamos respirar ar puro neste enfumaçado momento da história em que vivemos.



O mundo ficou diferente

Aqui também eu me enganei. A expressão “o mundo será diferente após 11 de setembro” começou a ser usada muito cedo. Eu escutava esse diagnóstico de forma bastante cética. Afinal, não é de hoje que se vê maldade. O caos no Sudão e a guerrilha na Colômbia. A guerra em Angola e a violência no Brasil. A marginalidade em El Salvador e a pobreza insistente na Nicarágua. A recente memória da Iugoslávia e a persistente violência em Israel. Tudo isso, e muito mais, não nos tem falado da contínua e assustadora realidade do mal?

De forma cínica, contudo, se poderia dizer que o mundo seria diferente porque, dessa vez, a maldade terrorista atingira o centro financeiro, geopolítico e militar do mundo. O mundo seria diferente porque “o grande dinossauro” passaria a cuspir fogo, o que não deixa de refletir um pouco do que está acontecendo.

Apesar disso, no entanto, eu não diria simplesmente que o mundo ficou diferente depois de 11 de setembro, mas que, depois desse dia, a realidade veio à superfície. A maldade já não pode ser nem disfarçada nem escondida. Não se pode mais negar a violência. A injustiça parece insuportável. O grito de desesperança tornou-se ensurdecedor.

Somos frutos de uma geração na qual a maldade já não parece ter fronteiras: nem geográficas, nem étnicas, nem sociais, nem éticas. Tudo parece valer, desde que os objetivos sejam alcançados. E, por vezes, esses objetivos são meramente destrutivos. Sejam eles a supremacia política ou o monopólio étnico, a preservação do capital ou do espaço, a rota do tráfego ou o mandato da tribo. Afinal, haveria diferenças substanciais entre a matança de Ruanda, a limpeza étnica da Bósnia, a derrubada das torres do World Trade Center e os brutais seqüestros-relâmpagos nas grandes cidades?

O que perpassa o ar é essa avassaladora mensagem política de que quem não estiver comigo pode vir a ser uma das minhas vítimas.

A maldade sem fronteiras usa o outro como objeto, seja na prostituição infantil, seja no uso de adolescentes como soldados em loucas guerras regionais, tribais ou étnicas. A maldade sem fronteiras usa civis como detonadores de minas em diversos terrenos minados com o objetivo de poupar a vida de soldados. A maldade sem limites invade hospitais para matar feridos e rouba armazéns de organizações humanitárias que buscam distribuir comida entre os pobres. A maldade sem limites incita outros ao suicídio destruidor, prometendo-lhes um céu que nunca se alcançará dessa maneira. A maldade sem limites mata indiscriminadamente crianças, velhos e mulheres, sem saber se com isso alcançará os seus objetivos. A maldade sem limites mata Abel, seja por ciúme, seja por inveja. A maldade sem limites tem os seus traços estampados em nosso rosto, quando olhamos no espelho da nossa capacidade para fazer o mal. Mas a maldade sem limites é limitada pela mão de Deus. Graças a Deus! A maldade sem limites se defronta com o seu limite na cruz. O limite ao avesso. O limite como perdão.



Babel e o espelho tamanho gigante

É muito importante observar a forma como a Bíblia avalia comportamentos e situações humanas, sejam pessoais, sejam coletivas. Ela costuma contar histórias que falam pouco e contam muito. Oferecem pistas claras da vida e do comportamento humano. Desenham opções e traçam conseqüências. Estabelecem uma íntima conexão entre adoração a Deus e construção das relações humanas e da sociedade. E assim, ela diz, são as coisas: quem é temente a Deus respeita e cuida do outro. Quem ora a Deus dignifica o outro. Quem ama a Deus zela pelo próximo. Quem lê a Bíblia promove a paz e busca a justiça. Mas quem se volta contra Deus ou decide ignorá-lo desorienta a própria vida e desencarrilha as relações humanas e sociais. Dança em torno de falsos deuses. E, olhando a coisa por outro lado, quem não cuida do outro e não busca a justiça não conhece a Deus.

O livro de Gênesis fala da torre de Babel, construída num projeto de autonomia em relação a Deus. Afirmação da identidade auto-suficiente do ser humano. O resultado é catastrófico. Deus não se deixa desafiar nem enquadrar. As pessoas são confundidas e dispersas. E assim vivemos até hoje nesta Babel pós-moderna, de sons barulhentos e linguagens confusas. De torres destruídas e estoques de bombas esgotados. E nos declaramos pessoas de um novo milênio. O fato é que vivemos no caos da Babel.



Pentecostes é a insistência teimosa de Deus

A vida não termina numa brincadeira de cabra-cega. Não termina com as pessoas batendo cabeça umas contra as outras. A vida não termina com o simples, mesmo que verdadeiro, diagnóstico de que “hoje não há razões para otimismo”, como diz Rubem Alves. Como símbolo daquele que nunca desiste, Deus coloca a esperança na nossa moribunda agenda. Não a esperança construída com os tijolos de Babel, mas a esperança que nasce como fruto da graça de Deus. Uma esperança totalmente divina e que se torna graciosamente humana.

A Bíblia não fala apenas de Babel, como uma parábola da impossibilidade humana. Ela fala também de Pentecostes, como uma parábola da absoluta possibilidade de Deus.

Oriundas de Babel, as pessoas se encontravam em Jerusalém, vindas de muitos e espalhados lugares e falando muitas e diferentes línguas. Acostumadas aos desagregadores sons de Babel, elas são surpreendidas com o som do céu, preenchedor e unificador. A casa fica cheia dele e cada um o entende em sua própria língua materna. Afinal, Deus sempre fala na língua materna. Língua do coração. Língua do acolhimento, que afirma o pertencimento.

A Bíblia caminha de Babel para Pentecostes. Esses são os passos que semeiam a teimosa esperança. E sem ela, não podemos ficar. Sem ela, a história não pode terminar. Babel não vai triunfar.

Hoje, as torres e as bombas estão caindo e o ruído da desesperança parece tremendamente ensurdecedor. Mas o som do céu, vindo da parte de Deus, abre os nossos ouvidos e nos chama à conversão. Mostra-nos Jesus e nos convida para o arrependimento. Mostra as sementes da esperança que vão crescer e se transformar na nova Jerusalém.

Vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe. Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, ataviada como noiva adornada para o seu esposo. Então, ouvi grande voz vinda do trono, dizendo: Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles. E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram. E aquele que está assentado no trono disse: Eis que faço novas todas as coisas. E acrescentou: Escreve, porque estas palavras são fiéis e verdadeiras. (Ap 21.1-5.)

Esse é o fruto da insistente teimosia de Deus. Esse é o desenho da esperança que ganha contornos diante de nós. Esse quer ser o nosso destino... assim desejado por Deus.




Valdir Steuernagel é pastor luterano e diretor do Centro de Pastoral e Missão, em Curitiba, Paraná. É autor de, entre outros, Para Falar das Flores... e Outras Crônicas.

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