Seções — Livros
Se num domingo, ao chegar à sua igreja você tivesse encontrado uma enorme placa com os dizeres: “Fechado para balanço. Lamentamos informar, mas o Espírito Santo não existe”, qual teria sido a sua reação? Claro, no mínimo, um susto.
Agora, falando francamente, essa nova “informação” teria feito alguma diferença naquela semana? Para muitos de nós, acredito, a resposta é não.
Esta provocação, feita pelo pensador reformado Francis Schaeffer, veio-me à memória logo no início da leitura de A Conspiração Divina — um roteiro para trilhar no caminho de Deus (Editora Mundo Cristão, Tel.: 11 5666-4829). Para Willard, Jesus Cristo está ausente das nossas escolhas e atitudes. Na prática, obedecer ou não a Cristo é irrelevante para os nossos dias. Não compreendemos o significado das palavras de Jesus e não conseguimos imitá-lo.
A Conspiração Divina é um livro de peso e de muitas páginas, para leitores poucos afeitos aos livros que ficam de pé sozinhos nas prateleiras. Melhor, é um livro abrangente, prático, acessível e espantosamente profundo. Usando as palavras de Richard Foster, Willard nos ensina toda a Bíblia e ajuda-nos a ver que os ensinamentos de Jesus são inteligentes, vitais e práticos. Oferece uma filosofia conceitual para a compreensão do significado e do propósito da existência humana.
“Apesar de estar sempre agindo com rapidez, eu jamais estou com pressa, porque nunca assumo mais trabalho do que posso realizar com a necessária paz de espírito.”
A aparente contradição destas palavras, ditas pelo pregador inglês John Wesley há quase 300 anos e citadas por Charles Hummel, é um desafio ao ativismo nosso de cada dia.
Uma das marcas dos nossos relacionamentos é falta de tempo. Aliás, para o autor, estar ocupado, muito ocupado, nos dá status, nos dá uma sensação de segurança. Tornamo-nos indispensáveis. O problema é que ainda não aprendemos a remir o tempo. Tratamos pessoas como coisas e fazemos o que é urgente, em detrimento daquilo que é importante.
Livres da Tirania da Urgência (Editorial Press, Tel.: 11 6161-3844; Editora Ultimato, Tel: 313891-3149) é excelente para muitos de nós que precisamos de dias mais longos. Mostra-nos a diferença entre administrar o tempo e administrar a vida e enfatiza o ensino bíblico acerca da mordomia do tempo. Hummel cita C.S. Lewis e aponta algumas sugestões ao desafio que o escritor inglês nos propõe: “ponha as primeiras coisas em primeiro lugar e teremos as segundas a seguir; ponha as segundas coisas em primeiro lugar e perderemos ambas.”
John Knox — um dos mais influentes escoceses do século 16
Carlos Caldas
A família presbiteriana no mundo encontra em João Calvino o referencial no que se refere à formulação doutrinária. Mas encontra no escocês John Knox (1513 [?]-1572) o referencial no que se refere à formulação do seu modo de governo eclesiástico. Agora os leitores em língua portuguesa encontram à sua disposição uma muito bem feita biografia do reformador escocês. Trata-se da obra John Knox — o patriarca do presbiterianismo, publicada em 2001 pela Editora Cultura Cristã (Tel.: 11 270-7099. E-mail: cep@cep.org.br). Seu autor é o erudito brasileiro Waldyr Carvalho Luz, que por muitos anos lecionou no Seminário Presbiteriano do Sul (Campinas, SP) e, mais tarde, no Instituto Bíblico Palavra da Vida (Atibaia, SP) e no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp.
O doutor Waldyr, com seu estilo literário inconfundível e inimitável, apresenta de maneira que se aproxima de um romance a trajetória de John Knox em trinta capítulos não numerados, identificados por três ou quatro substantivos (exemplos: Frustração, Reação, Repercussão, Seqüela; Tensão, Tumulto, Ponderação). Para produzir esta biografia, o autor pesquisou muito. E apresenta uma narrativa pormenorizada da vida e da carreira de John Knox, suas lutas, seus sofrimentos e suas conquistas. Alguns lances na vida de Knox são dignos de um movimentado filme de aventuras. Por exemplo, durante 1 ano e 7 meses, ele foi prisioneiro em uma embarcação francesa, condenado a remar com vários outros infelizes, em condições subumanas.
O retrato de Knox pintado por Luz mostra com bastante clareza como o patriarca do presbiterianismo era um homem de convicções inabaláveis, disposto a ir até o fim em seu propósito de estabelecer a fé reformada em sua terra natal. O reformador da Escócia foi pregador ardoroso e influente, corajoso por demais, sempre firme em sua luta. Neste sentido, não resta dúvida que Knox constitui-se em exemplo de vida.
No que diz respeito à língua portuguesa, John Knox — o patriarca do presbiterianismo preenche uma lacuna no campo de estudos sobre a Reforma Protestante do século 16.
Jorge Amado — o outro lado?
Betty Bacon
No pequeno artigo da edição anterior (Livros, set./out.), refleti sobre as qualidade literárias do recém-falecido Jorge Amado. Li o artigo do irmão Mark Carpenter naquela edição. Creio que não se trata de “um lado” e “outro lado”, como se um falasse contra o autor e o outro, a favor. A verdade não seria tão simples.
Comentei como os anseios e valores que Jorge Amado transmite são os mesmos de muitos de seus patrícios, o que seria confirmado pela grande divulgação pela televisão nacional e mundial. Este modo de pensar tem de ser confrontado com o evangelho de Cristo, o único que tem poder de libertar e purificar da corrupção espiritual e intelectual.
Fui criticada, creio que não só por ter lido muitos romances do autor, apesar do motivo para isso, como também por parecer apoiá-lo na sua visão do mundo. Pois ele é realmente pornográfico, principalmente nas obras mais recentes, quando deixou de propagar o comunismo e se tornou profeta do amor livre. Por isso deixei de ler seus últimos romances. A pornografia não procede dos fatos descritos, mas da perspectiva da qual se descrevem. Não há assunto em Jorge Amado que a Bíblia não aborde também, mas da perspectiva do Espírito Santo.
Portanto, gostaria de esclarecer alguns fatos que o pequeno espaço da edição anterior não permitiu.
Primeiro, seus valores são de fato distorcidos. Sua visão do ser humano e do mundo em que vive é totalmente incompatível com os valores da Palavra de Deus. Segundo, o seu enfoque especial dos problemas sociais e da sexualidade é incoerente e desonesto. Parece com o discurso do general assírio que tentou derrubar as defesas do rei Ezequias com argumentos tão variados que se autoconfundiam (ver 2 Reis 18). A dura situação do pobre, do retirante e do injustiçado não se ameniza, complica-se pelo sexo indiscriminado e promíscuo. Jorge Amado ora canta a ‘liberdade’ do amor livre, ora descreve a inevitável tragédia da moça traída que acaba morrendo como prostituta de baixíssimo nível. Terceiro, as divindades por trás do candomblé, tão apoiado pelo escritor, embora bem arraigadas na cultura baiana, estão usurpando o lugar de Jesus Cristo, o Senhor. Elas escravizam. Cristo liberta. A Bíblia é categórica em condenar tais cultos.
Finalmente, ainda creio que seu talento literário foi enorme. A grande tragédia de Jorge Amado foi ter ele prostituído uma capacidade tão grande a serviço da própria prostituição — física e espiritual. Tragédia maior foi que nunca aceitou Jesus como Senhor e Salvador.
Betty Bacon é missionária inglesa e vive no Brasil há 50 anos. Hebraísta, fez parte da comissão para tradução da Nova Versão Internacional da Bíblia Sagrada. É autora de, entre outros, Insights into Brazilian Literature, sobre literatura brasileira.
Opinião do leitor