Olá visitante!
Cadastre-se

Esqueci minha senha

  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.
Seja bem-vindo Visitante!
  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.

Colunas — Perguntas básicas

Acerca das boas obras

Martin Weingaertner

Segundo a literatura budista, “o indivíduo faz o mal por si mesmo; sofre por si mesmo; por si mesmo deixa de fazer o mal; é purificado por si mesmo”. É esse o caminho que me leva a Deus?

O budismo está ancorado nessa fé na capacidade humana. Como toda busca religiosa, parte do princípio filosófico de que somos capazes de vencer o mal e de conquistar o bem. A fé cristã, porém, navega contra essa correnteza, insistindo que ela é um duplo equívoco: Quem pensa poder “por si mesmo deixar de fazer o mal” subestima o mal e sobrestima a si mesmo. O diagnóstico bíblico é: o ser humano foi atropelado pela rebelião contra o bem e não dispõe de recursos para superá-la. O apóstolo Paulo diz: “eu, contudo, não sou [espiritual], pois fui vendido como escravo ao pecado. Não entendo o que faço. Pois não faço o que desejo, mas o que odeio. [...] Porque tenho o desejo de fazer o bem, mas não consigo realizá-lo. Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo.” (Rm 7.14ss, NVI.)



Segundo se lê em Islamismo - História e Doutrina (p. 81), “o desejo do muçulmano é que o peso das boas obras que tiver praticado supere o das suas ações más na balança do último juízo”. O discurso de Jesus sobre o julgamento (Mt 25.31-46) combina com o discurso muçulmano?

Toda religião oferece alguma modalidade de contabilidade transcendente. Nelas, o próprio ser humano estabelece as obras computáveis e, depois, avalia seu desempenho. Elaboramos a prova e conferimos a nós mesmos a nota. Os atentados de 11 de setembro mostraram ao mundo quão arbitrárias são essas avaliações! Muhamed Atta, piloto do avião que colidiu na primeira torre, o fez na convicção de “que esta batalha é em prol de Deus” e que estava “viajando rumo a Deus e às bênçãos desta viagem” (das suas instruções manuscritas; Time, 8/10/2001, p. 39). Ele agiu na convicção religiosa, compartilhada por muitos, de que a guerra santa é uma das colunas do islamismo. Este exemplo drástico pode induzir a um moralismo cristão arrogante. Nada pior do que isso. Basta lembrar que protestantes irlandeses que impediram crianças católicas de irem à escola passando pelo seu bairro se alimentam do mesmo veneno. Jesus denuncia esse mecanismo religioso de autojustificação na parábola do fariseu e do publicano (Lc 18.9-14). Para entendê-la, precisamos deixar de caricaturar o fariseu e o publicano. Equivocadamente, temos o fariseu como fingido, mas ele representa o ser humano no seu esforço religioso mais sublime e sincero. Jesus o contrasta com o publicano, um aproveitador inescrupuloso, que menospreza a fé e compactua com os invasores para ficar rico às custas do seu próprio povo. Colocando-os lado a lado, diante de Deus, um com seus méritos e o outro com seus débitos, Jesus afirma do canalha arrependido: “este homem, e não o outro, foi para casa justificado diante de Deus”.



Enquanto Paulo enfatiza mais a fé, Tiago enfatiza mais as obras. Há algum atrito entre um e outro?

Creio que não. Vou tentar explicar as afirmações conflitantes de ambos. A justificação pela fé, isto é, pela confiança na graciosidade de Deus para com o pecador, não é invenção de Paulo. Apenas explicita o que Jesus ensinou e praticou e o que o próprio perseguidor de cristãos experimentou. Junto a Damasco, ele fora alcançado pela misericórdia imerecida à semelhança do malfeitor na cruz. A partir de então tornou-se arauto incansável desse presente inaudito. Já Tiago reage a uma situação diferente. Enquanto Paulo enfrenta a autojustificação humana, o irmão do Senhor depara-se com quem aceitou a salvação graciosa e a usa como desculpa para cruzar os braços e viver descomprometidamente. Obviamente, Tiago tem de classificar esta fé deturpada de “morta”. O próprio Paulo rejeitaria uma leitura pela metade do seu evangelho. Quem omitir o que diz o final de suas cartas sobre a obediência, jamais entenderá a fé que pregou. Na carta aos Romanos, Paulo usa duas vezes a expressão “a obediência que vem pela fé” (1.5; 16.26) para indicar o vínculo indissociável fé e obras.

Lutero dizia que Tiago “desfigura as Escrituras e, assim, opõe-se a Paulo e a todo texto sagrado”, além de chamar a carta de Tiago de “a epístola de palha”.

Lutero realmente teve dificuldades com a carta de Tiago. Mas ele discorda de Tiago, principalmente pelo uso que a igreja medieval fazia da sua carta. Esquecida da graça, ela recorria a Tiago para fundamentar teologicamente sua pregação de salvação por obras e sua lucrativa indústria de indulgências. Foi nesse cenário que Lutero, que não usava meias palavras, externou seu desacordo com Tiago. Nem por isso ele deixou de traduzir a carta, nem de pregar sobre ela.

Calvino também critica Tiago, dizendo que “na proclamação da graça de Cristo, Tiago parece mais moderado do que seria próprio a um apóstolo”.

Ainda que Calvino tenha atuado na geração posterior a Lutero, ele deparou-se com o mesmo cenário espiritual e eclesiástico, de modo a sentir também que Tiago não lhe fornecia a munição com o peso específico de que necessitava para o combate pela verdade do evangelho, para o qual fora chamado.



Tiago elogia as obras de Abraão (Tg 2.21) e a epístola anterior elogia a fé de Abraão (Hb 11.8-19). Uma coisa tem mais valor que a outra?

Penso não se tratar de duas coisas, mas de uma só, “a obediência que vem pela fé” ou a “fé que gera obediência”. Tiago elogia as “obras de Abraão”, referindo-se à sua obediência confiante em Deus, que lhe ordenara o absurdo sacrifício do seu próprio filho. Ele enfoca a fé ‘de ré’, a partir do resultado. Ele destaca a obediência que a fé gerou e pela qual esta mostrou ser autêntica. O autor de Hebreus olha para o começo, para a fonte que gera a ação obediente. O teólogo e mártir alemão Dietrich Bonhoeffer enfatiza que, ao separar fé e obediência, bagatelizamos a “graça preciosa”. E “a graça barata é inimiga mortal da Igreja” (Discipulado, Sinodal, p. 9).



A fé sem obras é morta (Tg 2.6). E as obras sem fé?

São mortíferas, porque inflam o nosso ego de vaidade até estourar. Enquanto isso, toda sorte de vermes se nutrem no seu interior, mormente a incapacidade de autocrítica.



Duas vezes a Epístola aos Hebreus fala em “obras mortas” (6.1; 9.14). O que é isso?

Respondo com uma pequena parábola: Certo dia, um filhote de macaco encontrou uma jaguatiricazinha. Não contaminados pelas hostilidades dos adultos, conversaram sobre sua condição de filhotes. Dizia o macaquinho: “É estressante ser filho”. Respondeu a jaguatirica: “Não entendo você, pois ser filho é algo lindo!” O macaco pensou um pouco e retrucou: “Você acha lindo, porque sua mãe não vive pulando de galho em galho!” “Pula, sim!”, revidou o gatinho. Depois de um silêncio, o macaquinho retornou: “Se sua mãe também pula de galho em galho e você acha isso lindo, é porque vocês, felinos, nascem cegos e não enxergam bem!” Meio encabulada, a jaguatirica não se deu por vencida: “É bem verdade que não enxergo bem, mas, em compensação, a minha mãe vê no escuro!” Por que ambos divergem tanto quanto ao ser filho? O gatinho é carregado por sua mãe. Fica despreocupado, pois confia em quem cuida dele. O macaquinho, porém, agarrado ao peito da mãe, a cada salto fica de costas para o abismo. É atormentado pelo temor de que não consiga segurar-se. Além disso, sua mãe poderia ter queda de cabelos... Em ambos os casos, ele despencaria. Cristão é como filhote de gato: é carregado por quem vê no escuro. Quem depende de suas próprias obras é qual o filhote de macaco.



Um dos atritos entre católicos e protestantes na época da Reforma era a questão da fé e obras. Quais eram as posições então assumidas pela igreja romana e pela igreja reformada?

Os atritos entre os líderes da Reforma do século 16 e a igreja romana podem ser sintetizados no debate de Erasmo e Lutero sobre o livre arbítrio. Erasmo afirmava que o homem coopera com a graça de Deus, querendo e buscando a sua salvação. Em sua resposta “Da vontade cativa” (Nascido Escravo, Ed. Fiel), Lutero insiste que, depois da queda, a humanidade está incapacitada para optar pelo bem, ainda que o queira. Assim, a obra salvadora é de Deus unicamente. Não há cooperação na salvação. A nossa parte não é fazer, segurar, mas deixar Deus fazer, carregar, qual a jaguatiricazinha.



Ainda existe diferença entre católicos e protestantes quanto à questão da fé e obras?

Há segmentos católicos com os quais se chegou a um consenso razoável na compreensão de fé e obras, à luz da Escritura. Mas, enquanto em Augsburgo luteranos e católicos assinavam solenemente um consenso desses, Roma publicava as indulgências referentes à virada do milênio. Assim, na prática, a dissensão básica continua.




Martin Weingaertner, pastor luterano, é capelão do Tribunal de Justiça do Paraná. É autor de comentários bíblicos sobre 1 e 2 Timóteo e Tito (Encontro Editora) e editor do devocionário Orando em Família.

QUE BOM QUE VOCÊ CHEGOU ATÉ AQUI.

Ultimato quer falar com você.

A cada dia, mais de dez mil usuários navegam pelo Portal Ultimato. Leem e compartilham gratuitamente dezenas de blogs e hotsites, além do acervo digital da revista Ultimato, centenas de estudos bíblicos, devocionais diárias de autores como John Stott, Eugene Peterson, C. S. Lewis, entre outros, além de artigos, notícias e serviços que são atualizados diariamente nas diferentes plataformas e redes sociais.

PARA CONTINUAR, precisamos do seu apoio. Compartilhe conosco um cafezinho.


Opinião do leitor

Para comentar é necessário estar logado no site. Clique aqui para fazer o login ou o seu cadastro.
Escreva um artigo em resposta

Ainda não há artigos publicados na seção "Palavra do leitor" em resposta a este texto.