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Colunas — Política

Como não transformar o município de Santa Evangélica do Norte numa Zâmbia

Paul Freston

A seguinte carta, que caiu por acaso nas minhas mãos, foi enviada ao prefeito recém-eleito de Santa Evangélica do Norte. Como todos sabem, o novo prefeito é evangélico, pertencente a um partido que nunca governou aquele município. Da mesma forma, lá nunca houve um prefeito evangélico, situação muito diferente da de Santa Evangélica do Sul, onde o prefeito, renomado cantor evangélico, se encontra em segundo mandato, tendo sido eleito primeiro pelo PFL, transferindo-se logo para o PPB e em seguida para o PTB, estando atualmente (pelo menos, até a semana passada) no Prona.

O autor da carta é pastor de uma igreja na capital do Estado.



Meu caro amigo e irmão …,

Escrevo estas linhas logo após o meu retorno de Santa Evangélica do Norte, ainda sob o impacto dos últimos acontecimentos. Foi um privilégio estar presente na sua posse e no culto de ação de graças que a seguiu. Quando nos conhecemos, há seis anos atrás, você era apenas um jovem militante sindical. Nunca imaginei que um dia chegasse a prefeito; e prefeito evangélico! Você, que era ateu e achava que evangélico era a pior coisa que já apareceu neste país. Levou tempo para superar essa idéia, não é? Mas, quando mudou, mudou para valer.

Sabe, quando você se converteu, eu, que estava longe aqui na capital, tinha um certo receio. Temia que você abandonasse a política, renunciasse ao mandato de vereador e mergulhasse somente no trabalho da igreja. Estranho um pastor dizer que temia isso, não é? Mas eu temia, sim, porque você era claramente um vocacionado para a política, mas andava com um grupo de crentes avessos a tudo isso. Esse grupo foi bom para você em muitas coisas, mas dizia que a única coisa que melhorava o mundo era Jesus no coração e que a política era perda de tempo. Não sabiam que Jesus, que precisa estar no coração de todos, é também o transformador da cultura.

Na época, você não tinha argumentos contra eles, mas continuou a atividade política como que por costume. Vivia uma vida cindida: na igreja, era o super crente; na política, era o militante de sempre, com a nova identidade evangélica acrescentada mas não integrada. Ficava uma coisa postiça. Era uma situação que não podia durar para sempre, e eu temia que se resolvesse com a sua saída da política.

Felizmente, meus temores não se concretizaram. Você ficou na política (e na igreja!). E cresceu nas duas. E agora que o evangelista da igreja virou prefeito da cidade, meu medo é outro. Você vai achar que nunca estou contente! Mas é assim: a política é importante, mas é sempre perigosa, porque mexe com o poder. Relacionar fé e política é como andar na corda-bamba; nunca se pode relaxar e achar que já dominou a técnica.

Meu medo é outro porque ultimamente você anda com evangélicos que não têm nenhuma rejeição à política. Pelo contrário, acham que são iluminados por Deus para consertar a política. Acham que os evangélicos têm o direito de governar, pelo simples fato de serem evangélicos. Acham que as promessas do Antigo Testamento a Israel se aplicam aos evangélicos hoje. Estão empolgadíssimos com a sua vitória porque acham que será o ungido de Deus para transformar Santa Evangélica do Norte em protótipo da Nova Jerusalém. Na cadeira de prefeito, você será canal para as bênçãos divinas. “Deus entregou esta cidade nas nossas mãos”, um deles orou no culto de sua posse.

Então, meu medo agora não é que você rejeite a política, ou que continue sem integrar a política com a sua fé, mas que você integre fé e política sem tensões, de uma forma ingênua e triunfalista, se esquecendo que todos nós somos falhos e pecaminosos. Essa turma da teologia do domínio não aprendeu bem a teologia, nem a história. Se os seus primeiros amigos evangélicos demonizavam toda e qualquer política, os seus novos amigos demonizam a política dos outros e divinizam a sua própria. Você precisa se lembrar que a política é sempre feita por homens e mulheres imperfeitos e pecadores, mesmo que sejam cristãos sinceros. É por isso que precisamos da transparência democrática, de pecadores vigiando outros pecadores, pois na política ninguém é digno de receber uma carta branca para governar.

Esse pessoal faria bem em conhecer um pouco a experiência de dois países onde evangélicos com essa teologia se tornaram presidentes. Na Zâmbia, um evangélico chamado Frederick Chiluba ganhou uma eleição para presidente em 1991. Todo mundo ficou contente, porque foi um dos primeiros países africanos a restaurar a democracia. Chiluba, como você, entrou na política por meio da militância sindical. O regime lá era de partido único, e Chiluba acabou na prisão. Lá, ele se converteu. Quando a democracia começou a ser restaurada, ele se tornou candidato da oposição a presidente. Ganhou folgado. Mas as expectativas que o povo tinha foram frustradas. Não demorou para Chiluba começar a imitar o antigo regime. Só não instituiu um partido único. Mas intimidou a oposição, mudou a constituição para seu maior adversário não poder concorrer na eleição seguinte, e agora está querendo mudar a constituição de novo para poder se reeleger pela segunda vez. Desrespeitou os direitos humanos, não cumpriu muitas promessas eleitorais, favoreceu o próprio grupo étnico dele e mergulhou na corrupção.

Bem, isso acontece em muitos lugares do mundo, mas Chiluba não só se desmoralizou; desmoralizou também o cristianismo. Quando assumiu a presidência, Chiluba fez três atos significativos. Primeiro, ele chamou um grupo de evangélicos para fazer uma cerimônia de purificação do palácio do governo, botando para fora os espíritos maus que ele associava ao governo anterior. Em segundo lugar, ele fez uma cerimônia de unção, inspirada na unção do rei Davi. E em terceiro lugar, ele fez uma cerimônia declarando a Zâmbia uma “nação cristã”. Dizendo que “uma nação é abençoada quando entra num pacto com Deus”, ele se arrependeu em nome do povo “de nossos maus caminhos de idolatria, feitiçaria, ocultismo, imoralidade, injustiça e corrupção:

Eu submeto o governo e a nação inteira ao senhorio de Jesus Cristo. Ainda declaro que a Zâmbia é uma nação cristã que procurará ser governada pelos justos princípios da Palavra de Deus. A retidão e a justiça devem prevalecer em todos os níveis de governo, e aí veremos a justiça de Deus exaltando a Zâmbia.

Parece que Chiluba fez essa coisas influenciado por uma teologia que acha que tais atos simbólicos trazem benefícios quase que automáticos. Ele disse que

Zâmbia entrou num pacto com Deus e por isso Deus está abençoando esta nação de tal forma que vamos deixar de ser um país devedor e nos tornaremos um país credor.

A reação dos líderes eclesiásticos foi variada. Alguns disseram que a declaração de uma “nação cristã” foi um erro, porque não tinha havido um debate democrático a respeito, criaria cidadãos de segunda classe, incentivaria a hipocrisia e traria descrédito sobre o cristianismo. A Zâmbia se tornaria realmente uma nação cristã, disseram, quando cristãos vivessem plenamente sua fé, e não por meio de uma declaração.

Outros líderes evangélicos, porém, ficaram empolgados. Não precisava de debate democrático, disseram, porque o que é bíblico não precisa ser submetido a procedimentos democráticos! Achavam que, já que era “nação cristã”, pastores deveriam ter posições no governo, o governo deveria dar terrenos para as igrejas construírem e a construção de mesquitas muçulmanas deveria ser proibida. Alguns queriam um Ministério de Assuntos Evangélicos, cadeiras cativas no parlamento e acesso ilimitado ao palácio presidencial.

Mas depois de um tempo, mesmo alguns dos adeptos mais fervorosos do presidente começaram a ficar desgostosos. Chiluba convidava pessoalmente alguns evangelistas famosos a fazerem cruzadas evangelísticas no país. O próprio Chiluba falava nessas cruzadas também. Mas quando ele tentou convidá-los de novo, muitos líderes evangélicos se recusaram a apoiar, dizendo que as igrejas, e não o governo, é que deveriam fazer os convites. Você vê que um governo “evangélico” acaba dividindo os próprios evangélicos, porque não há concordância sobre o que é tarefa do governo e tarefa das igrejas. E porque não há dinheiro e favores e cargos suficientes para todos!

O maior evangelista da Zâmbia era grande defensor de Chiluba. Mas, depois de certo momento, ele se desvinculou e virou um dos maiores opositores. Fundou um partido e quer se candidatar a presidente no final deste ano, dizendo que “não se deve entregar o país a incrédulos”. Diz que a Zâmbia não é uma nação cristã porque os líderes não vivem segundo as normas do cristianismo. Segundo ele, Chiluba não deveria ter declarado uma “nação cristã” até que todos os membros do governo fossem nascidos de novo. O país não precisa de alguém com muita competência e conhecimento para mudar a economia; precisa apenas de alguém com moral e integridade. Alega que Chiluba manteve o apoio de alguns líderes cristãos somente porque distribui dinheiro do governo para eles e porque ameaça retirar os passaportes diplomáticos que os principais pastores têm, se criticarem o governo.

Está vendo como as coisas ficam embaralhadas? Aconteceram coisas parecidas na Guatemala, o país com maior porcentagem de evangélicos na América Latina. Lá, já houve dois presidentes evangélicos. O primeiro era um general extremamente repressivo, que enquanto presidente aparecia na televisão todo domingo para pregar para o povo. Hoje ele diz que, para ele, não havia diferença entre ser chefe de estado e ser ancião de sua igreja: “Como presidente, eu apenas ministrava a uma congregação maior”! Ele via a nação como uma megaigreja, e o chefe de estado como um mestre de verdades espirituais. O segundo presidente evangélico era líder leigo de uma grande igreja. Na época de sua campanha para presidente, ele também dirigia uma campanha de batalha espiritual chamada “Jesus é Senhor da Guatemala”. Era uma campanha para livrar o país de uma suposta maldição colocada sobre ele há três mil anos por causa de religiões pré-cristãs. Como era de uma igreja de elite, os membros alugavam aviões para expulsar os demônios da região que sobrevoavam. Como presidente, ele foi um desastre: não aprofundou a democracia, continuava as velhas práticas de compra de votos e foi corrupto. Aí, tentou um golpe, fechando o congresso e suspendendo a constituição. Não deu certo, e ele teve de fugir para o exílio.

Cuidado, então, com esse triunfalismo político evangélico. Cuidado com os evangélicos que se acham capazes de governar! Temos de entender a diferença entre o Antigo e o Novo Testamentos. Nenhum país hoje está na posição de Israel no Antigo Testamento. Nenhum grupo pode reclamar um direito divino de governar. Esse pessoal que diz que os evangélicos devem governar nunca promove debates dentro da comunidade evangélica. Como estabelecer um projeto comum? Quais evangélicos estarão no poder? Isso eles nunca discutem.

A nossa política pode ser confessional (inspirada pela nossa fé), mas não devemos querer um Estado confessional. Não é bom que o Estado se torne juiz de doutrinas e práticas religiosas. Você também, como prefeito, terá de entender a diferença entre ser um legislador evangélico e um governante evangélico. São papéis diferentes, com implicações diferentes para sua responsabilidade cristã. Como bom governante cristão, você precisará ser neutro entre todas as religiões (inclusive aquelas de que não gostamos), e entre religiosos e ateus. Você precisará perceber, também, a fronteira entre as tarefas de um governante e as de um cidadão evangélico comum. Chiluba, promovendo cruzadas enquanto presidente, se complicou nesse ponto.

Ah, e mais uma coisa para terminar. Você obviamente se lembra daqueles pastores que o atacaram durante a campanha, dizendo que você era candidato do diabo. Pois bem, logo você vai perceber que esses mesmos pastores estão querendo se aproximar de você e te tratando com (aparentemente) o maior respeito. Sabe por quê? Porque agora você não é mais candidato mas “autoridade instituída por Deus”. Vão te cortejar porque têm uma teologia que quase diviniza o poder; e porque querem estar próximos do prefeito, seja quem for, para não perder vantagens. Mas fique sabendo que, do mesmo jeito que te abraçam agora, podem te esfaquear pelas costas depois. Estou falando, obviamente, dos piores entre eles. É possível que alguns outros passem realmente por uma mudança de visão, principalmente se você fizer um bom governo. O importante é você tratar todo mundo igual, mas não acreditar em tudo que ouve. Às vezes se brinca no meio evangélico que a última coisa que se converte é o bolso. Mas não é; é o fascínio pelo poder.

Você agora é prefeito, é “autoridade”. Mas para mim, você continua a ser uma pessoa de pouco tempo na fé, que precisa de discipulado. Tomara que você esteja mais maduro na fé quando deixar a prefeitura do que quando entrou. E que Santa Evangélica do Norte seja um pouco melhor também!

Um grande abraço fraterno.




Paul Freston é professor de sociologia na Universidade Federal de São Carlos, SP. É autor de, entre outros, Neemias — um profissional a serviço do reino (ABU Editora).

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