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Reflexão — Ricardo Gondim

A falta que fazem os profetas

Confesso que não gostava de ler os profetas da Bíblia. Sempre os considerei rígidos demais, exageradamente metafóricos e confusos. Em meus primeiros anos como cristão, não sabia situá-los historicamente. Lê-los me entediava.

A primeira vez que senti simpatia pelos profetas foi quando vi-me desafiado a enxergar o coração paterno de Deus nas páginas do Antigo Testamento e, assim, reli toda a Bíblia. Recordo-me da minha alegria quando percebi, pela primeira vez, que a saga bíblica resume-se em mostrar um pai em busca de seus filhos. Entendi a profundidade da interpretação que os antigos rabinos de Israel davam ao dilúvio. Afirmavam que depois de Jeová insistir cento e vinte anos com os seus filhos, viu a dureza de seus corações, chorou por quarenta dias e quarenta noites e suas lágrimas cobriram a terra. Aprendi sobre a paciência e longanimidade divina em tolerar momentos históricos perversos. Consegui, finalmente, estudar os profetas sem considerá-los grosseiros.

Mas me apaixonei mesmo pelos escritos dos profetas quando li Abraham J. Heschel, rabino que se tornou notório por sua abordagem sobre o coração amoroso de Deus em meio a um judaísmo inclemente. Seu livro The Prophets é um libelo da literatura judaica.

Heschel apresenta-nos os profetas, mostrando que eles não foram meros microfones que amplificavam e decodificavam o falar de Deus, mas gente inserida na cultura, com temperamento e individualidade. A tarefa do profeta não se resumia em transmitir o ponto de vista divino. Ele encarnava o coração de Deus. O profeta em Israel não vaticinava apenas. Ele era também poeta, pregador, patriota, crítico social. Sempre iniciava suas profecias com juízo, mas sempre as concluía com esperança e redenção.

O profeta não repetia jargões, não perpetuava o que já fora dito, mas pensava fora dos paradigmas. Não era convencional. A mágica de suas palavras vinha de sua intuição, de seu inconformismo e da largura de seus anseios.

Inúmeras vezes a linguagem do profeta foi hiperbólica. O exagero era uma maneira de mostrar sua angústia, seu desespero de não se acovardar diante do iminente fracasso nacional.

Meu apetite pela leitura dos profetas fez nascer em mim o desejo de vê-los entre nós. Entendo que o ministério profético com autoridade canônica foi até João Batista (Mt 11.13). Sei também que o dom carismático da profecia (1 Co 12) resume-se à função tríplice que Paulo nos deu em 1 Coríntios 14.3 — edificar, exortar e consolar. Entretanto, o ministério profético que desejo não é um título ou cargo, acho que é uma paixão. Sinto que a igreja evangélica brasileira tem bons evangelistas e excelentes estrategistas eclesiásticos, e que já demonstramos alguma maturidade teológica, mas ainda somos carentes de líderes com a verve profética.

O movimento evangélico brasileiro necessita de homens como Martin Luther King Jr., um dos mais autênticos profetas do século XX. Sua vida, tantos anos depois de sua morte, continua impressionando pela coerência, bravura e profundo compromisso com os valores do reino de Deus.

Li sua autobiografia e confesso que senti o meu coração desafiado por esse homem que viveu, falou e lutou como um profeta para os americanos, mas cuja vida inspira todas as nações.

King Jr. nasceu em 15 de janeiro de 1929 em Atlanta, Geórgia, e foi ordenado pastor batista em 25 de janeiro de 1948. Quando assumiu a igreja que seu pai pastoreava, a Dexter Avenue Church, em Montgomery, Alabama, decidiu que jamais se curvaria às leis segregacionais do sul dos Estados Unidos.

Nessa cidade, aconteceu o grande boicote às companhias de ônibus. Rosa Parks,

uma costureira de 42 anos, recusou-se a ceder seu lugar em um ônibus a um homem mais jovem que ela e foi presa. Organizou-se um movimento na cidade e King Jr. foi eleito por unanimidade o seu presidente.

Depois de várias vezes preso, de sofrer atentados com uma bomba que foi jogada na varanda de sua casa em 27 de janeiro de 1957, ele passou um mês na Índia, aprendendo os princípios da não-violência usados por Ghandi na resistência ao imperialismo britânico. Aplicou-os nos Estados Unidos e conseguiu vencer a tirania e o ódio com o amor.

Em 28 de agosto de 1963, King Jr. subiu os degraus do Memorial de Lincoln para fazer o seu mais famoso discurso, I Have a Dream (Eu tenho um sonho).

Sua voz ecoou por todo o mundo enquanto a paixão de um profeta se derramou por seu povo. Era o coração de Deus que pedia que os homens não fossem julgados pela cor de sua pele, mas pelos conteúdos do caráter. Sua vida impressionou tanto que, em 10 de dezembro de 1964, ele recebeu o Prêmio Nobel da Paz.

Juntei alguns de seus pensamentos, os quais reproduzo aqui para que notemos a falta que os profetas fazem.

Homens e mulheres vivendo em comunidade:

"Quando o indivíduo não é mais um verdadeiro participante e não percebe sua responsabilidade para com sua sociedade, os conteúdos da democracia se esvaziam. Quando a cultura se degrada e a vulgaridade é entronizada; quando o sistema social não constrói segurança, mas induz o medo, inexoravelmente o indivíduo é impelido a se isolar completamente desta sociedade sem alma. Este é o processo que produz alienação — talvez a mais insidiosa característica da sociedade contemporânea."

A grandeza dos ideais:

"A medida de um homem não se afirma em tempos de conforto e conveniência, mas repousa nos seus posicionamentos em tempos de desafios e controvérsias."

"A coragem encara o medo e, portanto, dele se assenhora. A covardia reprime o medo e, portanto, dele se torna escrava. Homens corajosos nunca perdem o elã pela vida mesmo que a situação que vivam seja sem brilho; covardemente, homens esmagados pelas incertezas da vida perdem o desejo de viver. Devemos constantemente erguer diques de coragem para deter as inundações do medo."

O próximo:

"A maioria daqueles que vivem na América rica ignora os que vivem na América pobre; ao fazerem isso, os ricos americanos terão de eventualmente enfrentar a pergunta que Eichmann preferiu ignorar: Qual a minha responsabilidade pelo bem-estar do meu próximo? Ignorar o mal é tornar-se cúmplice dele."

Deus e a religião:

"A ciência investiga; a religião interpreta. A ciência fornece o conhecimento que dá poder; a religião fornece a sabedoria que dá controle. A ciência lida com os fatos, a religião lida primordialmente com os valores. As duas não são rivais. Elas se complementam. A ciência ajuda a religião a não cair no vale paralisante da irracionalidade e do obscurantismo. A religião previne a ciência de despencar no pântano do materialismo obsoleto e do niilismo moral."

Em 4 de abril de 1968 uma bala assassina silenciou esse profeta de Deus. Contudo, sua vida continua inspirando milhões de homens e mulheres. Martin Luther King Jr. não pode ser esquecido pela geração evangélica deste novo milênio. Que ele nos inspire a desejar mais profetas na igreja. Precisamos de homens e mulheres que não nos deixem acostumados com a ordem natural das coisas. Precisamos de gente cuja voz troveje ira contra a iniqüidade e a injustiça, mas que nunca fale sem a ternura de Deus. Que o mote de King Jr. — I have a dream — ecoe entre as paredes das igrejas, para que nunca deixemos de sonhar em tempos de imediatismos.

Jesus mandou que orássemos pedindo mais obreiros para a sua seara. Minha prece é que Ele envie mais profetas.

Soli Deo Gloria.

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