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Especial Brasil — Bráulia Inês Ribeiro

A dança dos 500 anos

Celebramos os 500 anos do Brasil dançando em uma grande roda e cantando o mantra dos crentes Jarawara, monótono e hipnótico, durante um tempo que nos pareceu infinito. A família de índios Jarawara que visitou a base está passando por um momento muito difícil. A tribo é constituída de mais ou menos 250 pessoas e localiza-se ao sul do Amazonas. Até alguns anos atrás nenhum deles seguia Jesus. Hoje uma igreja indígena está nascendo e buscando seu caminho em Deus. A família de Inohuê e Bonitá é uma das mais crentes da aldeia. Há alguns dias, o filho mais velho (13 anos) do casal saiu para caçar, orgulhoso de já estar participando, como adulto, do suprimento das necessidades alimentares da família. No caminho, já bem distante da aldeia, tropeçou e caiu sobre sua espingarda. A velha cartucheira disparou acidentalmente e feriu o rapaz de morte. Quando ele chegou à aldeia, carregado pelos companheiros, já estava morto.

Inohuê e Bonitá foram para Porto Velho viver o seu luto. Faz parte da cultura sair do lugar onde ocorre a morte e passar algum tempo fora, onde as lembranças/almas dos parentes não os possa alcançar. Quando voltam, têm de queimar a cabana e construir outra em outro lugar.

Como Bonitá conhece Jesus, no dia da morte do filho, angustiada, ela sonhou com o menino, que lhe aparecia dizendo: “Mamãe, vou morar com Jesus agora”. Então ela se consolou pela certeza de que o amor de Jesus estaria com ele. Porém, desde o dia que voltaram de Porto Velho, eu ainda não vira Bonitá sorrir. Séria, com os olhos fitos ao longe, contagiava a todos com sua dor silenciosa.

Quando paramos para lembrar quem somos e quem é o Brasil, resolvemos dar aos Jarawara o lugar de honra. Na hora do almoço, eles foram servidos primeiro e depois nos ensinaram cânticos e danças para que pudéssemos aprender um pouco o que é ser Jarawara — ou o que é ser Brasil.

Enquanto rodávamos ali, todos em círculo, mesmerizados pelo cantochão indígena, percebi pela primeira vez um sorriso no rosto de Bonitá. Era uma visão insólita: muitas pessoas — gordos, magros, velhos, jovens — dançando umas atrás das outras e cantando palavras que não entendiam. A selva nos cercava por todos os lados e, em nosso auditório de madeira, o som dos cânticos era tão característico quanto os ruídos da mata ao redor. Éramos brasileiros voltando a ser o que somos, renegando as caravelas que nos dão uma falsa sensação de pertencer às terras européias, que nunca na verdade foram nossas.

Nós cantávamos e Bonitá sorria. Seria porque, pela primeira vez, se sentia integrada no meio daquela gente estranha? Seria porque coube a ela a oportunidade de dar um pouco de si para nós? Seria porque achava que talvez um dia aprenderíamos algo que ela julgava que precisamos aprender — nós, que vivemos em nossa ignorante vida não-Jarawara? Ou seria porque Jesus a consolou pela morte de seu filho?

Qualquer que tenha sido o motivo, aquele momento foi sagrado, especial, erguido a uma dimensão eterna, acima das contingências humanas. Nossa alma se uniu à dela numa dança visceral. Nossas raízes brotaram da terra vermelha para o céu numa oração ao Deus que nos torna um. Brotou a nossa árvore Brasil.

Ainda que tenha sido uma união ilusória, nós, jocumeiros ali dançando, não representamos o verdadeiro Brasil, indiferente e cruel com seus filhos mais frágeis. Ainda que tenha sido algo temporário e a alma solitária dos 250 Jarawara fuja de nossos dedos e nosso coração volte a se preocupar apenas consigo mesmo, valeu a pena.


Bráulia Inês Ribeiro é missionária entre grupos indígenas da Amazônia e leciona lingüística e missiologia na Escola de Treinamento Transcultural da JOCUM, em Porto Velho, RO.

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