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Capa

O pecado de Lúcifer

Entrevista com Nelson Roberto Massambani

Nascido em Apucarana, no Paraná, Nelson Roberto Massambani começou a fazer uso de drogas quando era um adolescente de 15 anos. Só se livrou delas seis anos depois, em 1988. Nesse tempo tentou fazer agronomia na Universidade Federal de Viçosa e não conseguiu. Casou-se com uma moça da sociedade viçosense que, pouco depois, foi obrigada a requerer anulação do casamento à justiça brasileira e ao Vaticano. As muitas drogas o deixaram doente. Passou algum tempo na cadeia e outro num hospital psiquiátrico. Depois, foi, por conta própria, para a Casa de Recuperação Nova Vida, em Curitiba. Nos primeiros dias não falava coisa com coisa, comia grama, conversava com sapo e quebrava tudo que era espelho com medo de si próprio. Por fim foi alcançado pela misericórdia de Deus e tornou-se outro homem. Hoje, Nelson Massambani, 36 anos, casado com Christiane Roswitha, acaba de ser ordenado e empossado como pastor da Igreja Metodista Congregacional, em Belo Horizonte. Nos piores momentos de sua vida, sob o efeito das drogas, Nelson se achava um deus e cometia o mesmo pecado de Lúcifer.

Ultimato - Você consegue identificar o que o levou às drogas?
Nelson -
Com certeza muitas são as causas que levam um jovem ao uso e abuso de drogas. Entre elas cito a curiosidade, a auto-afirmação diante de um grupo, as frustrações, a busca do desconhecido e de novas aventuras, o desequilíbrio emocional provocado por lares desestruturados. Ou a soma de tudo isso. No meu caso, não foi diferente. Mas devo somar mais uma causa: o vazio da alma, aquele anseio da criatura pelo Criador. Muitas vezes, sob o efeito das drogas, nos sentimos meio deuses.

Ultimato - Quando e com que espécie de droga se deu a primeira experiência?
Nelson -
Minha primeira experiência foi com lança-perfume, anfetaminas e ansiolíticos associados com vodka e cerveja, no carnaval de 1977, quando pulei alucinadamente durante quatro noites que me pareceram intermináveis. Tinha, então, 15 anos e meio.

Ultimato - Quanto tempo se passou entre essa primeira experiência e o início da dependência química?
Nelson -
O uso de drogas legais (fumo e álcool) foi gradativo a partir daí. Mas o uso de substâncias ilegais — maconha, haxixe, ácido (LSD), anfetaminas e ansiolíticos — se deu três anos depois, em 1980, quando comecei meu curso de agronomia na Universidade Federal de Viçosa. O nome de nossa turma era Oitentação. No meu entender, a dependência química aconteceu a partir do momento em que eu já não tinha mais controle das minhas ações. Foi em fevereiro ou março de 1981.

Ultimato - Explique o que é dependência química.
Nelson -
É difícil, já que nem os cientistas sabem ao certo explicar os mecanismos da dependência. O consenso é que talvez a chave esteja com uma molécula produzida pelo cérebro, chamada dopamina. Ela é um neurotransmissor, ou seja, um mensageiro químico que está presente em uma parte do sistema nervoso, chamado circuito de recompensa. Essa parte do cérebro coordena todas as atividades que envolvem o prazer. Graças ao circuito de recompensa, o ser humano se sente satisfeito quando dorme, descansa ou faz sexo. A dopamina é o principal agente desse sistema. Se uma ação qualquer provoca liberação de dopamina, você sente prazer. Nada mais óbvio, portanto, do que repetir a ação. Isso vale para coisas tão distintas quanto comer chocolate, namorar, tirar um dez na escola, marcar um gol. E, para alguns, usar drogas ou álcool. Quando o psicotrópico chega ao cérebro, estimula a liberação de uma dose extra de dopamina no circuito de recompensa. Os cientistas acham que quanto maior o prazer provocado por uma droga, maior é a vontade de consumi-la de novo. Isso explica o poder da droga de induzir ao vício.

Ultimato - Por quanto tempo você fez uso de drogas?
Nelson -
Por seis anos; de meus 15 aos 21.

Ultimato - Como é o tipo de prazer proporcionado pelas drogas?
Nelson -
Sob o efeito de drogas é possível sentir algum prazer e sensações gostosas. As que eu usei me davam uma sensação de bem-estar e de passividade diante de certas situações. Outras vezes senti euforia e uma disposição tal, que me achava superior aos demais mortais. Sob o efeito de ácidos, tive percepções sensoriais superaguçadas e distorcidas.

Ultimato - As drogas lhe causaram transtornos sérios?
Nelson -
Os transtornos vão do físico aos emocionais e espirituais. Entre estes últimos, cito uma experiência muito estranha: sob o efeito das drogas, eu me sentia um deus, superior a todos, soberbo, arrogante, que é o pecado de Lúcifer. No que diz respeito aos transtornos emocionais, as drogas me causaram muito sofrimento no meio da família (desconfiança, brigas, desavenças, desrespeito, desonra), no meio de amigos (deixavam-me inteiramente só nos momentos mais difíceis por que passei, ora na cadeia, ora no hospital psiquiátrico) e comigo mesmo (sentia-me derrotado, frustrado, arrasado, sem auto-estima e sem condições de me reerguer). Quanto aos transtornos físicos, minha capacidade de concentração foi reduzida em cerca da metade, além de outros problemas orgânicos.

Ultimato - Quando iniciou a sua recuperação?
Nelson -
Em 1984, numa cadeia. Foi ali que tive uma experiência pessoal com Deus.

Ultimato - A recuperação foi imposta por alguém ou você mesmo a desejou? O que o fez querer libertar-se das drogas?
Nelson -
Não, minha recuperação não me foi imposta. Alguns fatores contribuíram para eu desejá-la intensamente: 1) eu me via no fundo do poço e com a morte me rondando; 2) não queria tomar os muitos remédios de controle, que passei a usar depois de minha internação num hospital psiquiátrico; 3) tive duas experiências marcantes com Deus: uma com o auxílio da Bíblia, dentro do hospital psiquiátrico, e outra com o próprio Deus, dentro da cadeia; 4) a vontade de ir por conta própria para uma casa de recuperação, e não por imposição da família; 5) o apoio integral que eu recebi de minha família quando da minha ida para a casa de recuperação e, especialmente, depois, ao voltar para casa convertido a Jesus Cristo, o que muito bem me fez, já que meus pais, então, não eram evangélicos.

Ultimato - O que aconteceu primeiro: o abandono das drogas ou a conversão a Jesus Cristo?
Nelson -
As duas coisas aconteceram simultaneamente. Nos dois primeiros meses que passei na Casa de Recuperação Nova Vida (CRENVI), em Curitiba, eu estava completamente fora do meu consciente, louco, não falava coisa com coisa, conversava com sapo, comia grama, quebrava todos os espelhos com medo de mim mesmo. A conversão se deu juntamente com a cura, a libertação, a aceitação incondicional do reino de Deus, a minha adoção na família do Pai Celeste. Todavia, mesmo após a conversão, as lutas permaneceram, tive uma recaída. Por fim, estou em pé e firme, pela graça e misericórdia do Senhor.

Ultimato - O dependente de droga pode se livrar do problema sozinho ou precisa de uma casa de recuperação?
Nelson -
O dependente de droga precisa de uma experiência viva de novo nascimento em Jesus Cristo, precisa se render incondicionalmente ao amor de Deus. Se isso vai acontecer em casa, na rua, na cadeia, na igreja, numa casa de recuperação não vem ao caso. O que quero dizer é que a casa de recuperação não liberta ninguém e, sim, o Senhor Jesus. Já vi drogados e alcoólatras que ficaram uma ou duas semanas numa casa de recuperação e tiveram uma experiência de novo nascimento; estão recuperados e restaurados na família e na sociedade. Vi também pessoas passarem um ano em uma casa de recuperação e, dez dias depois de ir para casa, voltaram para as drogas e o álcool. Já vi dependentes de crack libertos instantaneamente após uma verdadeira oração de entrega ao Senhor Jesus Cristo. Eles estão firmes até hoje. Creio, porém, que há pessoas que necessitam muito de uma casa de recuperação. O meu caso foi um deles. Se eu não tivesse ido para a CRENVI, hoje estaria morto. Deus sabia disso. A casa de recuperação pode ser um grande apoio para o viciado e para a família dele.

Ultimato - O que acontece numa casa de recuperação? Qual o tratamento dispensado por ela?
Nelson -
Varia de casa para casa. Mas a ênfase é uma vida de intensa oração e leitura da Bíblia, além de uma terapia ocupacional. Faz-se todo tipo de trabalho. Na maioria das casas de recuperação, faltam melhores instalações, mão-de-obra, especializada ou não, e recursos. Impressionam o descaso das autoridades e a falta de visão das igrejas. A grande maioria dessas casas são um milagre. Não somente sob o aspecto de experimentar o poder de Deus libertando, curando e salvando, mas também no que diz respeito à dependência de Deus para o suprimento diário de suas necessidades.

Ultimato - Lembra-se da última vez que você tomou drogas?
Nelson -
Lembro-me, porque foi por ocasião da minha primeira e única recaída, depois de curado. Aleluia! Graças a Deus! Já estava casado e fazia o último ano do Instituto e Seminário Biblico Menonita. Ao voltar para casa depois de uma aula, num percurso de apenas 500 metros, achei no caminho uma carteira recheada de maconha, e da boa. No dia seguinte, no final da tarde, enrolei um baseado e fui fumar nos fundos do internato do seminário. Senti-me muito mal, culpado, arrasado, o pior dos homens. Então entendi melhor o Salmo 51, quando Davi diz “o meu pecado está sempre diante de mim” (verso 3). Deus foi gracioso comigo e usou minha esposa de forma muito sábia naquele momento de derrota. Ele me firmou os pés na rocha outra vez e lá se vão mais de dez anos longe das drogas.

Ultimato - O abandono das drogas foi de uma hora para outra ou foi progressivo?
Nelson -
No meu caso, foi de uma hora para outra, pois estava dentro da casa de recuperação. Naturalmente sofri muito com as crises de abstinência. Para largar o cigarro, gastei muito mais tempo.

Ultimato - Depois de recuperado, você correu algum risco de voltar às drogas?
Nelson -
Jamais vou bater no peito orgulhoso, pois “aquele que pensa estar em pé, veja que não caia” (1 Co 10.12). Todavia, a cada dia que passa, me sinto mais e mais fortalecido em Deus. Não só com referência às drogas, mas ao pecado em geral.

Ultimato - Para um ex-dependente de drogas um acontecimento desagradável ou uma frustração aguda pode se constituir numa tentação e volta às drogas?
Nelson -
Com certeza, especialmente quando se trata de decepções amargas com a família. É por isso que tenho destacado a importância fundamental da família na recuperação do drogado e do alcoólatra.

Ultimato - Seu apelido quando estudante de agronomia na Universidade Federal de Viçosa era Medonha. Por quê?
Nelson -
Quando entrei na UFV, em 1980, estava careca por causa do trote e usava um boné preto e branco com as palavras Equipe Medonha em ambos os lados. Era o nome da equipe de uma gincana de minha cidade. Pelo fato de usar o boné o tempo todo, passaram a me chamar de Medonha. O apelido fez juz pois fiquei dois anos sem cortar o cabelo e um ano sem fazer a barba. Era mesmo um bicho medonho.

Ultimato - Você se casou com uma jovem de Viçosa e, depois, o casamento foi anulado. Por quê?
Nelson -
Por causa das drogas. Vendo-me naquele estado, sofrendo muito, e sem esperança de me ver recuperado, a moça entrou com o pedido de anulação do casamento, no que foi atendida pela justiça brasileira e também pelo Vaticano. A história é longa, mas duas coisas devem ser destacadas: 1) Deus usou a família dela, que havia me adotado como filho, para cuidar de mim num momento crucial da minha vida, quando havia cheiro de morte no ar; 2) Deus executou o milagre completo, pois quando fui entrar com os papéis para me casar com a Roswitha, o documento dizia: Nelson Roberto Massambani — solteiro.

Ultimato - No seu tempo de estudante em Viçosa havia tráfico de drogas? O uso de drogas era generalizado?
Nelson -
Obviamente a resposta é sim, pois as drogas não têm fronteiras. Em Viçosa, bem como em outras cidades universitárias, o consumo e conseqüente tráfico de drogas é muito maior. Não sei como está a situação hoje, mas, na minha época, fumar dentro das quatro pilastras (entrada da UFV) não dava cadeia. Eu mesmo fumei muitas vezes em frente à reitoria, no bandejão, no Belvedere, no Recanto das Cigarras. Nos shows, então, a “marofa” rolava solta. Era realmente uma loucura. Fico triste em pensar que minha passagem pela UFV foi marcada pelas drogas.

Ultimato - Você tem ajudado outros a se livrar das drogas? Com sucesso?
Nelson -
Desde a minha passagem pela Casa de Recuperação Nova Vida e minha conversão tenho estado diretamente envolvido com drogaditos e alcoólatras. Durante anos fiz trabalho de prevenção muito intenso em escolas, faculdades, instituições, sem deixar de fazer também o trabalho curativo (visitas, apoio, encaminhamento de alguns para casas de recuperação etc.). Deus tem sido gracioso, revelando seu poder e amor, resgatando vidas que estavam à beira da morte, dando vida, e vida em abundância. “Jesus Cristo ontem e hoje é o mesmo, e o será para sempre”, como afirmam as Escrituras (Hb 13.8). Nele nosso trabalho não é vão. É isso que me faz prosseguir!


Firmeza com sabedoria

A luta contra as drogas pode fazer parte do cotidiano de qualquer família. Especialistas ensinam os pais como inserir a prevenção primária na rotina de casa.

Evite conflito familiar. O ambiente familiar sadio é um dos aspectos mais importantes contra o uso das drogas.

Comece cedo a falar sobre drogas. Não mistificando-as e alertando para seus perigos.

Seja firme e coerente na sua posição contra drogas. Evite ficar passivo diante de influências negativas que seus filhos possam estar recebendo de amigos, parentes e da mídia.

Conheça todos os amigos de seus filhos e a opinião que eles têm sobre as drogas. Também procure saber o que os professores e todos aqueles que exercem alguma influência sobre seus filhos pensam do assunto.

Conheça bem o seu filho e os seus hábitos. Assim, mudanças que podem indicar que ele está se iniciando nas drogas serão percebidas com mais facilidade.

(Extraído do Jornal do Brasil de 15/11/98)

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