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Reflexão — Robinson Cavalcanti

História: a hora e a vez do Brasil

Robinson Cavalcanti

Crendo na Providência
Deus reina sobre as nações como Senhor da História, como o Deus da Providência. Não há História fechada, nem determinismo histórico, em razão de ideologias ou de fatores políticos ou econômicos. A História parecia (ou se apregoava) "marchar" para determinado fim, segundo preconizavam os poderosos e os impérios da ocasião. A História é um cemitério de poderosos, de impérios e de ideologias. A Providência gosta de pregar peças neles.

Somente a insensatez e a cegueira das mentes limitadas e turvadas pelo pecado faz com que os arautos do neoliberalismo pretendam, mais uma vez, o controle da História, na sutileza de sua intolerância e na idolatria de sua idéia "única".

É interessante notar que os cristãos realmente bíblicos não se impressionaram com as idéias "únicas" do nazismo ou do stalinismo, nem hoje se deixam impressionar pela idéia "única" do neoliberalismo. Outra não poderia ser a atitude dos que acreditam na Providência, no senhorio de Deus sobre a História e na destinação dos seres humanos à criatividade e à diversidade. Na destinação dos seres humanos ao incoformismo diante das injustiças.

Na destinação dos seres humanos ao sonho com um mundo melhor, que, enquanto a "parousia" não chega, vai sendo construído nas contradições de sua ambigüidade moral, que são sinais e antecipações do reino.

Denunciar a idolatria da idéia "única", fomentar, pelo Espírito, um santo inconformismo, organizar os inconformados, devolver os sonhos, as esperanças e as possibilidades, a partir de um Deus que ouve o clamor do povo e intervém, eis a tarefa da Igreja nesses anos cinzentos. Tarefa que contrasta com o hedonismo dos que aderiram à idéia "única" ou com o fanatismo dos inconformados enfermos.

A Providência e o Brasil
O Brasil é um país peculiar, por sua extensão geográfica e populacional, seu clima, seus recursos naturais (sem vulcões, terremotos, tufões, geleiras nem desertos), por sua cultura ao mesmo tempo homogênea e diversificada, pela fraternidade e hospitalidade do seu povo, por suas raízes religiosas. Aspectos positivos inegáveis, apesar da concentração do poder, da propriedade e da renda, que tem impedido o seu desenvolvimento harmônico sustentado. O que Deus criou por aqui foi excelente. O que os homens pecadores fizeram, nem tanto...

Nossa espiritualidade nos permitiu atravessar a secularização moderna sem cairmos no secularismo, cético e anti-religioso. Nossa vocação lúdica nos permitiu urbanização e a industrialização, sem a chatice ascética e laborlátrica do Primeiro Mundo. Nosso senso crítio não nos permitiu cair na armadilha das idéias "únicas" do nazismo e do stalinismo, e nos faz, ainda, resistir, pela mesma lógica e pelos mesmos argumentos, à idéia "única" do neoliberalismo.

O palco da História da Providência pode, muito provavelmente, estar reservando um lugar único para o Brasil nesse momento. Lugar de resistência e de devolução de esperanças para o mundo pós-moderno, destinado a construir a "Civilização do Lazer", que sucederá a "Civilização do Trabalho".

O Brasil, como a Antioquia, a Roma e a Inglaterra, no passado, poderá ser o farol da evangelização para o século XXI.

Para que isso aconteça é pré-condição que os cristãos evangélico se reconciliem com a sua cultura nacional e as sub-culturas regionais, iluminando-as; que se reconciliem com as suas raízes, salgando-as a partir de dentro; que se reconciliem com a sua identidade, resistindo às influências sutis, nefastas e perversas das teologias e ideologias, usos, costumes e preconceitos exportados do império atual. Que os vangélicos missionários não se comportem como morenos moços de recado do templo de César, mas como porta-vozes independentes e autênticos de um evangelho amadurecido nas terras de Santa Cruz. Evangelho da paz, do amor e da alegria. Evangelho da sanidade, divino, porém humano. Conhecedores da nossa história, apreciadores da nossa literatura, admiradores da nossa arte, participantes do nosso folclore, militantes dos nossos movimentos sociais, contempladores da nossa natureza, prontos para o sorriso, valorizadores do prazer, do bom e do belo.

Isso pressupõe unidade e reconstrução de um protestantismo católico, de um cristianismo reformado a partir das nossas raízes ibéricas (e não contra elas), aperfeiçoando a nossa herança luso-afro-ameríndia, e não tentando (inutilmente) demonizá-la ou substituí-la pela cultura anglo-saxã (muito mais enferma), sob aparente religiosidade.

Somos uma cultura plástica, das muitas cores e das cores fortes, dos muitos sons e dos sons fortes, que apela para as emoções e os sentidos, que busca no passado e abre possiblidades novas para a liturgia, como trabalho do povo na adoração.

O moralismo anacrônico, monástico, mórbido, patológico ou moderno e pequeno-burguês; o legalismo que anula a graça e retrocede à lei, que oprime e impede a maturidade, que infantiliza e reprime, que recalca e enferma; o sectarismo que isola, divide, agride, mata, seca, fere, atestando a insegurança dos seus promotores — tudo isso é incompatível com a brasilidade e com o evangelho.

Protestantismo não é americanismo. Evangelicalismo não é fundamentalismo. Mística não é esoterismo. Fé não é fanatismo.

É preliminar conhecer a história da Igreja, toda a História e a história de todos, que liberta do bitolamento. É preciso conhecer todo o mundo cristão e o mundo cristão de todos, que liberta do paroquialismo, do provincianismo, do caipirismo religioso. É preciso ler (de tudo), escutar (a todos), dialogar (com todos), o que nos torna humanos e sãos.

Autênticos ou imitadores?
Peregrinos no "mundo" do pecado (individual ou social) mas não turistas na terra que os viu nascer, como resultado da má interpretação das Escrituras, da colonização teológica, da tutela ideológica por parte dos "irmãos" da nova Roma. Não como pobres e coitadinhos, deslumbrados, tentados pelos bolsos (ou pelo bolso) da corte de César, pelo "prestígio" de se verem associados aos "grandes" do sinédrio do Norte.
Estrangeiros no seu próprio país, os de mente colonizada, sempre ávidos pelas novidades importadas, de costas para o seu povo, o seu cheiro, o seu som e as suas dores.

Deus usará o Brasil quando o seu povo aqui for brasileiro. Se não formos nós mesmos, mas a ridícula imitação de outra coisa, Ele nos dispensará e usará a outra coisa, pois Ele sempre prefere o original. 


Robinson Cavalcanti é bispo da Diocese Anglicana do Recife.

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