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Opinião

Aprendemos a resistir. Agora experimentaremos a esperança

Hoje, Dia da Consciência Negra, conversamos com o pastor batista Marco Davi de Oliveira, o autor do lançamento de novembro da Editora Ultimato, A Religião Mais Negra do Brasil. Nesta entrevista, ele fala sobre o racismo histórico, sobre a relação dos negros com o Pentecostalismo, sobre como Deus vê o preconceito racial e sobre o que comemorar e lamentar neste dia.

***

1. O que comemorar e o que lamentar no Dia Nacional da Consciência Negra?

Podemos comemorar muitas coisas. Dentre elas a certeza dos avanços que nos últimos anos temos alcançado. As políticas de ações afirmativas como cotas na universidade, nos concursos públicos, etc. A capacidade dos negros se articularem mais. Termos saído do mapa da fome, pois sabemos que os mais afetados eram e ainda são os negros. Saímos, mas ainda há fome no país e a pobreza continua atingindo a população negra com mais força. Podemos comemorar a alteridade de muitos negros e negras que já não têm vergonha de se mostrarem como são. Podemos comemorar que a juventude já se valoriza mais e não tem dificuldades em se declarar negra e de querer se relacionar com os seus iguais. É bom ver as meninas aceitando a textura e modos dos seus cabelos, pois isto tem trazido firmeza e determinação das meninas negras.

Temos de comemorar as marchas pelo país por mais de 10 anos com seus pontos em comum de reivindicações.

Mas temos de lamentar que a sociedade brasileira ainda seja racista. Que o genocídio da juventude negra continua crescendo. Lamentamos a covardia dos policiais que dão preferência aos negros com truculência em suas abordagens. Temos de lamentar que na sociedade do Brasil os negros são expostos, assassinados e amarrados em postes e troncos. Lamentamos que a mulher negra seja objeto de muita violência por negros e brancos. É triste saber que algumas denominações e igrejas ainda mantêm em suas estruturas e ensinos a fomentação da intolerancia religiosa contra as religiões de matrizes africanas.

Lamentamos também a falta de negros em setores de decisões do país. Ainda percebemos o racismo engendrado nas instituições brasileiras e também nas cristãs.

2. Em A Religião Mais Negra do Brasil você faz uma relação entre negritude e pentecostalismo. Qual a relação principal que deve ser feita entre eles?

Percebo que no Pentecostalismo, sobretudo, no que chamo de clássico, há algumas coisas que fazem com que os negros sejam atraídos. Mesmo que hoje em dia até as denominações pentecostais clássicas estejam diferentes, influenciadas pelo pentecostalismo moderno, ainda assim há atração nos negros pela vivência pentecostal. Algumas coisas eu sugiro no texto do livro, como: espontaneidade e alegria, liturgia mais acessível, utilização dos dons, limites. Mas acho que existe uma africanidade que toma conta dos cultos pentecostais. Essa africanidade mexe com as estruturas dos negros que são invadidos pelo que chamo reminiscência dos ancestrais.

3. A colonização do Brasil está inevitavelmente associada à relação do catolicismo com os negros. O que deveríamos celebrar, o que deveríamos lamentar e o que deveríamos consertar nesta história?

Ao pensar em colonização, eu não sei se devemos comemorar alguma coisa. Todo processo de colonização é doloroso, covarde e espoliador. Entretanto, em nosso país - e acho que em vários países da América Latina e Caribe -, o que se deu como resultado onde há a mistura de negros, indígenas e brancos é que os povos ficaram mais bonitos. O Brasil é um país de gente bonita. Podemos celebrar no Brasil a beleza do povo. Mas sem esquecermos dos desmandos que aqui ocorreram, pois muitos foram assassinados e muito sangue foi derramado nesta nação e noutros lugares da América Latina e também no Caribe.

A igreja católica, se já não o fez, devia pedir perdão aos negros no Brasil. Mas, creio que também as igrejas do protestantismo histórico, salvo algumas, pois como os católicos, usaram da estrutura de escravidão ou, no mínimo, se mantiveram omissos diante a situação.

Poderíamos consertar primeiro reconhecendo os erros sociais. Depois, construindo pontes para que os negros pudessem atingir oportunidades de ascensão. Por exemplo, tantos os católicos quanto os protestantes que têm as suas universidades poderiam ter uma inclusão além daquelas oferecidas pelos governos dos últimos anos.

4. Uma polêmica mais recente é a acusação de que muitos evangélicos são intolerantes para com seguidores de religiões de matriz africana. Você acha que isso é verdade ou seria uma generalização infundada?

Infelizmente, acho sim. É claro que não dá para generalizar. Há evangélicos que não pensam da mesma forma que a maioria. Entretanto, temos visto muitas ações de intolerância através dos chamados “evangélicos”. Muitos até se justificam afirmando ser um posicionamento teológico. Já “demonizaram” até os negros. Aliás, as teologias de muitas igrejas tendem a colocar os negros na invisibilidade ou como maldições; o que é um racismo absurdo. Chamo de racismo institucional gospel. Claro, tudo isso em nome de Cristo Jesus. Ninguém quer separação, desde que os anjos não sejam negros, os pais da fé sejam todos brancos, etc. Parece que os negros sempre estiveram em desvantagem. Um dia o senhor me perguntou: “Depois de nós, quando vocês vieram?”. Na cabeça dele, os brancos vieram ao mundo primeiro, pois era inadmissível que negros fossem a origem de tudo. Pensar com essa superioridade racial é racismo. E isso se esvai também para as religiões de matizes africanas ou a tudo que tem origem negra.

5. Os evangélicos nasceram sob a bandeira da defesa da verdade. Com isso, os confrontos e as divisões fizeram parte da caminhada histórica da igreja. É possível caminharmos amando a verdade, mas sem odiar as pessoas?

Obviamente, afirmo que sim. Basta fazermos mais perguntas do que nos agarrarmos a nossa verdade. Quando isso acontece somos mais tolerantes com aqueles que pensam ou sentem diferentemente de nós.

6. Como lutar pelos direitos dos negros sem, ao mesmo tempo, distanciá-los dos outros?

Lutar pelos direitos dos negros é um caminho sem retorno, bem como é uma estrada que nos leva para a beirada. Quem se atreve, apanha muito. Pode experimentar o ostracismo. Pode ter conflitos internos. Até pode “experienciar” amarguras profundas. Mas quem entra nesta nunca mais deseja sair, porque passa a lutar pela justiça. Ainda mais se for negro ou negra. Isso se torna a própria vida. Lutar não é segregar. Lutar por direitos dos negros é buscar a reconciliação. A reconciliação se dá pela garantia de direitos.

Os negros já estão afastados dos seus direitos. Lutar por nós é aproximar os negros de tudo o que eles têm direito e de tudo o que eles construíram na história deste país e em todo o mundo.

7. Você é um pastor batista e é um militante do movimento negro evangélico. Que balanço você faz da luta contra o preconceito racial no Brasil?

Percebo que temos avanços extraordinários, principalmente, nestas últimas décadas. Conseguimos as cotas, tanto nas universidades quanto nos concursos públicos. Tivemos a presença de negros em setores antes não alcançados.

Mas, em contrapartida, ainda vemos que a sociedade brasileira, justamente nestas últimas décadas, está se revelando uma sociedade racista e hostil aos negros e negras. Nunca tinha notado o quanto o Brasil é, de fato, racista. Isso porque hoje os negros podem pegar o mesmo avião antes determinados aos ricos e brancos. Podem estudar na mesma universidade antes privilégio de brancos historicamente. Podem ter suas famílias com a possibilidade de sonhar. Sim, hoje a juventude negra sonha com a possibilidade de ter ascensão e poder. Por isso, aqueles que tinham os privilégios salvaguardados estão raivosos com a necessidade de dividir os espaços com negros e pobres.

8. Se olharmos para a Bíblia, o que podemos aprender sobre a justiça racial?

Pergunta difícil, pois teríamos várias possibilidades. Mas quero ressaltar dois textos que vejo como muito importantes. Primeiro o de Êxodo capítulo 1.1–14 e o capitulo 3.7-8a. O texto nos diz que Deus não é um Deus apático ao sofrimento do seu povo. Deus é um Deus que intervém na história. Aprendemos algumas coisas aqui.

Primeiro, Deus vê o sofrimento do povo oprimido. O verso diz “De fato tenho visto a opressão sobre o meu povo”. Creio num Deus que vê e se importa com o sofrimento de um povo. É por isto que posso ver e ter esperança de ver, ainda mais, muitas mudanças no Brasil.

Segunda lição que podemos aprender é que Deus ouve o clamor do povo oprimido. Outra parte do que lemos diz: “tenho escutado o seu clamor.” Sim, Deus não só vê, mas também escuta a voz de quem sofre. Deus ouviu o clamor de dor dos negros e negras escravizados no Brasil, nas Américas e África e continua a ouvir o grito dos oprimidos. O grito dos oprimidos causa náuseas em Deus. Ele se incomoda com o clamor do sangue de quem sofre a violência, de quem experimenta a dor do descaso econômico, cultural e social.

E em terceiro lugar, Deus sente a dor, o sofrimento de quem está sendo oprimido. Fico a imaginar os sentimentos de Deus ao ver os negros e negras sofrendo no Brasil, ontem e hoje. Talvez ele diga a mesma coisa ainda hoje: “sei quanto eles estão sofrendo”. Imagine a dor que Deus sentiu quando via os negros e negras sendo tirados das suas terras, sem terem possibilidade de escolha. Como Ele amargou de sentir a dor quando as pessoas eram violentadas, maltratadas, ultrajadas covardemente pelos senhores de engenhos, por outros negros que cumpriam ordens. Quanta dor Deus sentiu ao perceber o Estado brasileiro legitimando através de leis os açoites, as chibatadas, os afogamentos, os calabouços, as correntes, etc. Quanta dor! Deus sente a dor dos oprimidos ainda hoje quando olha a maneira como negros e negras são tratados no mercado de trabalho, quando mulheres negras são violentadas em suas dignidades no sistema de saúde que as trata de maneira diferente. Deus sente a dor dos oprimidos quando percebe a população negra com muito mais dificuldades de ter acesso às universidades. Sente dor quando nota a violência contra a juventude negra no Brasil. Geme de dor quando sente o que sente as crianças no interior desta nação, ainda sem escola, sem registro de nascimento, sem esperança de vida e sem futuro.

O interessante é que Deus se compadece e “desce” na história para livrar os oprimidos. O texto mostra que Deus desce para livrá-los e levá-los a um lugar de esperança. “Por isso desci para livrá-los... e tirá-los daqui para uma terra boa e vasta, onde manam leite e mel...”. Sim. Deus não é apático nem distante das dores que ele mesmo sente. Deus vem em direção de quem sofre e age a seu favor. Hoje mesmo, diante das lutas que ainda continuam contra nós, temos um advogado que milita por nós. Que desceu deixando a sua glória e seu poder para nos alcançar e livrar. Por causa dos oprimidos, Deus se encarna e se faz homem, negro como os negros e pobre como os pobres, para trazer libertação e nos levar para um lugar de esperança. Aprendemos a resistir, agora experimentaremos a esperança. Essa esperança nunca acabará até vermos igualdade racial no Brasil. Até experimentarmos a terra que manam leite e mel. Esse processo que está sendo iniciado através das políticas de ações afirmativas, promovendo igualdade, tem na bíblia sua razão de ser. Porque, podemos ver na Palavra de Deus, que políticas de ações afirmativas é coisa de Deus. A justiça lhe agrada.

Outro texto que posso ressaltar rapidamente é o texto de Lucas 19.1-9, que fala de uma conversão. Zaqueu sobe numa árvore para ver a Jesus. Essa ação já poderia ser vista como a sua conversão. Como em nossas igrejas muitas vezes o reflexo de conversão é o levantar das mãos, etc. Aquele homem tem um encontro com Jesus, recebe o perdão dado pelo Senhor. Entretanto, a manifestação real da conversão se deu quando ele resolve devolver e reparar os danos causados aos mais pobres. Zaqueu percebe que não basta pedir e receber perdão, é necessário a reparação com ações restauradoras.

Os negros ficaram 350 anos na escravidão. Foram impedidos de crescerem socialmente. Não podiam nem estudar nas escolas públicas. Foram submetidos a leis que não lhes favoreciam, como a lei do vento livre, a lei do sexagenário, a lei da vadiagem, e outras. Quando estavam “livres” e preparados para usarem o que haviam aprendido durante anos em vários ofícios, foram submetidos a ideologia do branqueamento, que os levou a confusão e a invisibilidade. Quando estavam em condições de trabalharem nas fábricas ou na agricultura e construírem as suas vidas, foram substituídos por brancos trazidos da Europa para tomarem os seus lugares. Por isso, o Estado brasileiro deve reparar a população negra com políticas públicas que facilitem a possibilidade de crescimento social dos negros e negras do Brasil.

9. Martin Luther King Jr. teve um sonho de que as pessoas não fossem julgadas pela cor da pele. Que sonhos a igreja cristã deveria ter?

A igreja precisa sonhar em ser igreja. Hoje está cada vez mais difícil ver um grupo de pessoas conscientes de suas prerrogativas cristãs. A igreja pode sonhar em amar cada vez mais. Sonhar em respeitar as pessoas em suas demandas e verdades. Sonhar em ser mais relevante no contexto onde está.

Mas deve começar pedindo perdão pelas omissões ocorridas no passado. Sobretudo, sobre a omissão diante a escravidão, ao genocídio da juventude negra, ao genocídio das mulheres negras. Deveria pedir perdão pelo pecado de uma teologia racista e excludente.
Precisamos sonhar cada vez mais com um país com igualdade racial, onde negros e brancos tenham realmente as mesmas oportunidades. Dentro das igrejas também. Deve haver mais igualdade racial na igreja evangélica do Brasil.

• Marco Davi de Oliveira é natural de Teresópolis, RJ. É casado com Nilza Valéria e pai de Marco Davi Filho e Lethícia Mariáh. É pastor batista na cidade de São Paulo, bacharel em teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, licenciado em história e mestre em ciências da religião pela Universidade Metodista de São Paulo. Milita no Movimento Negro como um dos coordenadores do Movimento Negro Evangélico (MNE) e participou da Tearfund no programa Indivíduos Inspirados. É articulista das revistas “Novos Diálogos” e “Afropress”, além de palestrante e pesquisador da temática racial.
Equipe Editorial Web
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