Opinião
15 de julho de 2025- Visualizações: 4864
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Por uma leitura não ideológica da Bíblia – nem leitura androcêntrica, nem vitimocêntrica
A Bíblia não pode ser vista como um manual, mas como um testemunho da ação de Deus na vida da Igreja
Por Lidice Meyer Pinto Ribeiro
Ultimamente a tradução da Bíblia para o português tem sido revista pois observou-se muitas ocorrências de traduções, tanto do hebraico como do grego, que prestigiam o masculino em detrimento do feminino ou ocultando-o. É o caso das palavras plurais no masculino – que embora sejam inclusivas, dão-nos a sensação de se referirem exclusivamente a homens, como discípulos, anciãos, líderes – e mesmo da palavra homem que muitas vezes é usada para a humanidade como um todo.
Em artigos anteriores demonstrei o caso da palavra hebraica sokenet traduzida para Abisague em 1 Reis 1.2,4 como cuidadora e quando aparece no masculino (soken) em Isaías 22.15, traduzida como “administrador do palácio real”. Também já reportei o caso da palavra grega syzyge usada por Paulo em Filipenses 4.2-3, traduzida na maior parte das Bíblias como companheiro. Ocorre que a palavra syzyge é um adjetivo que pode ser aplicado aos dois gêneros ou mesmo ser um nome próprio. A tradução no masculino limita a ação relatada no versículo além de trazer uma falsa compreensão da necessidade de supervisão masculina às mulheres. Mas estes são apenas alguns exemplos.
Infelizmente, a falta de conhecimento das línguas originais do texto bíblico, aliada a traduções de viés androcêntrico acabam por fomentar compreensões errôneas do texto e a dar voz a posicionamentos estremados.
Chama-me a atenção o crescimento de um movimento dentro da igreja que eu denomino de vitimocentrismo. Ele é formado principalmente por mulheres, embora haja também homens que têm se pautado por esta leitura vitimocêntrica da Bíblia. As principais premissas desta leitura equivocada da Bíblia são:
“A Bíblia é um dos textos fundadores da misoginia institucionalizada no mundo ocidental; a Bíblia nasceu dentro de uma cultura patriarcal e foi transmitida por comunidades que usaram o seu conteúdo para definir o lugar das mulheres, para silenciá-las, e muitas vezes, para puni-las; a relação entre espiritualidade e gênero nas Escrituras parte de uma construção binária e hierárquica que coloca o masculino como mediador privilegiado do divino; as mulheres na Bíblia são tratadas como propriedade, peças numa transação patriarcal – sem voz, sem nome, sem escolha; mulheres na Bíblia são violadas e descartadas sem justiça nem reparação; Jesus é homem e se cerca de doze homens; Jesus não questiona a masculinidade como norma e nunca denuncia a violência bíblica contra as mulheres; Paulo perpetua a estrutura sistémica de violência de género que atravessa o texto bíblico.”

A leitura vitimocêntrica foca nas situações de violência à mulher destacando estupros, assassinatos e silenciamentos. Não há como negar que estas situações sejam descritas na Bíblia. A Bíblia é um livro vivo que relata histórias de diversos períodos históricos, retratando diversas culturas e diversos posicionamentos socioculturais, inclusive em relação às mulheres. E é esta uma das características mais belas do Livro Sagrado. Ao mesmo tempo que há relatos de violência, há também relatos de protagonismo feminino e de mulheres exaltadas pela sociedade. A Bíblia traz exemplos de mulheres que oram e evangelizam em público e nas igrejas e também traz textos que as silenciam e descaracterizam. Todos os textos devem ser lidos dentro de sua perspectiva cultural e temporal. A Bíblia não pode ser vista como um manual de normas e conduta, mas como um testemunho da ação de Deus na vida de seu povo e da Igreja.
É hora de revermos muitos dos conceitos errados perpetuados pelas traduções androcêntricas, mas sem o risco de sermos levados ao extremo de desvalorizá-la como texto sagrado, reduzindo a Bíblia apenas à textos de viés patriarcal que vitimizam violentamente as mulheres.
Imagem: Yoshie Kawakami, Ten virgins. “The Bible Through Asian Eyes”. Reproduzida com permissão.
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Muito já se falou da adolescência como uma fase crítica da vida, em que as dificuldades próprias da idade inspiram cuidados especiais – o que é ainda mais importante hoje.
Os adolescentes desta geração são o grupo mais impactado pelo ritmo acelerado das mudanças. A matéria dessa edição oferece subsídio para melhor conhecer e atuar com esse grupo. Nos depoimentos dos 12 adolescentes que participam eles pedem: “Acreditem em nós!”.
É disso que trata a edição 414 de Ultimato. Para assinar, clique aqui.
Saiba mais:
» A Missão da Mulher, Paul Tournier
» Deixem que Elas Mesmas Falem – As mulheres da Bíblia com a palavra, Elben Magalhães Lenz César
» A Bíblia – Um livro como nenhum outro, John Stott e Tim Chester
» Homens administram, mulheres “aquecem a cama”: Os erros de uma tradução descontextualizada, por Lidice Meyer
» Patriarca ou patriarcado?, por Lidice Meyer
» E se as mulheres da Bíblia vivessem hoje?, live de Diálogos de Esperança
Por Lidice Meyer Pinto Ribeiro
Ultimamente a tradução da Bíblia para o português tem sido revista pois observou-se muitas ocorrências de traduções, tanto do hebraico como do grego, que prestigiam o masculino em detrimento do feminino ou ocultando-o. É o caso das palavras plurais no masculino – que embora sejam inclusivas, dão-nos a sensação de se referirem exclusivamente a homens, como discípulos, anciãos, líderes – e mesmo da palavra homem que muitas vezes é usada para a humanidade como um todo.Em artigos anteriores demonstrei o caso da palavra hebraica sokenet traduzida para Abisague em 1 Reis 1.2,4 como cuidadora e quando aparece no masculino (soken) em Isaías 22.15, traduzida como “administrador do palácio real”. Também já reportei o caso da palavra grega syzyge usada por Paulo em Filipenses 4.2-3, traduzida na maior parte das Bíblias como companheiro. Ocorre que a palavra syzyge é um adjetivo que pode ser aplicado aos dois gêneros ou mesmo ser um nome próprio. A tradução no masculino limita a ação relatada no versículo além de trazer uma falsa compreensão da necessidade de supervisão masculina às mulheres. Mas estes são apenas alguns exemplos.
Infelizmente, a falta de conhecimento das línguas originais do texto bíblico, aliada a traduções de viés androcêntrico acabam por fomentar compreensões errôneas do texto e a dar voz a posicionamentos estremados.
Chama-me a atenção o crescimento de um movimento dentro da igreja que eu denomino de vitimocentrismo. Ele é formado principalmente por mulheres, embora haja também homens que têm se pautado por esta leitura vitimocêntrica da Bíblia. As principais premissas desta leitura equivocada da Bíblia são:
“A Bíblia é um dos textos fundadores da misoginia institucionalizada no mundo ocidental; a Bíblia nasceu dentro de uma cultura patriarcal e foi transmitida por comunidades que usaram o seu conteúdo para definir o lugar das mulheres, para silenciá-las, e muitas vezes, para puni-las; a relação entre espiritualidade e gênero nas Escrituras parte de uma construção binária e hierárquica que coloca o masculino como mediador privilegiado do divino; as mulheres na Bíblia são tratadas como propriedade, peças numa transação patriarcal – sem voz, sem nome, sem escolha; mulheres na Bíblia são violadas e descartadas sem justiça nem reparação; Jesus é homem e se cerca de doze homens; Jesus não questiona a masculinidade como norma e nunca denuncia a violência bíblica contra as mulheres; Paulo perpetua a estrutura sistémica de violência de género que atravessa o texto bíblico.”

A leitura vitimocêntrica foca nas situações de violência à mulher destacando estupros, assassinatos e silenciamentos. Não há como negar que estas situações sejam descritas na Bíblia. A Bíblia é um livro vivo que relata histórias de diversos períodos históricos, retratando diversas culturas e diversos posicionamentos socioculturais, inclusive em relação às mulheres. E é esta uma das características mais belas do Livro Sagrado. Ao mesmo tempo que há relatos de violência, há também relatos de protagonismo feminino e de mulheres exaltadas pela sociedade. A Bíblia traz exemplos de mulheres que oram e evangelizam em público e nas igrejas e também traz textos que as silenciam e descaracterizam. Todos os textos devem ser lidos dentro de sua perspectiva cultural e temporal. A Bíblia não pode ser vista como um manual de normas e conduta, mas como um testemunho da ação de Deus na vida de seu povo e da Igreja.
É hora de revermos muitos dos conceitos errados perpetuados pelas traduções androcêntricas, mas sem o risco de sermos levados ao extremo de desvalorizá-la como texto sagrado, reduzindo a Bíblia apenas à textos de viés patriarcal que vitimizam violentamente as mulheres.
Imagem: Yoshie Kawakami, Ten virgins. “The Bible Through Asian Eyes”. Reproduzida com permissão.
REVISTA ULTIMATO – ADOLESCÊNCIA – ONLINE E OFFLINEMuito já se falou da adolescência como uma fase crítica da vida, em que as dificuldades próprias da idade inspiram cuidados especiais – o que é ainda mais importante hoje.
Os adolescentes desta geração são o grupo mais impactado pelo ritmo acelerado das mudanças. A matéria dessa edição oferece subsídio para melhor conhecer e atuar com esse grupo. Nos depoimentos dos 12 adolescentes que participam eles pedem: “Acreditem em nós!”.
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» A Missão da Mulher, Paul Tournier
» Deixem que Elas Mesmas Falem – As mulheres da Bíblia com a palavra, Elben Magalhães Lenz César
» A Bíblia – Um livro como nenhum outro, John Stott e Tim Chester
» Homens administram, mulheres “aquecem a cama”: Os erros de uma tradução descontextualizada, por Lidice Meyer
» Patriarca ou patriarcado?, por Lidice Meyer
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Lidice Meyer P. Ribeiro é doutora em Antropologia e professora na Universidade Lusófona, Portugal. É autora de, entre outros, Cristianismo no Feminino – o papel da mulher na vida da Igreja (Editora Mundo Cristão).
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