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Opinião

O difícil caminho da unidade da Igreja

Por Erní Walter Seibert

Quando falamos da unidade da Igreja ou do Corpo de Cristo, há pelo menos dois textos bíblicos fundamentais que precisam ser lembrados. No capítulo 4 da Epístola de Paulo aos Efésios, os versículos 3 a 6 ensinam que a unidade é um presente de Deus, mas é um presente que deve ser conservado, pois pode ser destruído. O texto bíblico diz: “Façam tudo para conservar, por meio da paz que une vocês, a união que o Espírito dá. Há um só corpo, e um só Espírito, e uma só esperança, para a qual Deus chamou vocês. Há um só Senhor, uma só fé e um só batismo. E há somente um Deus e Pai de todos, que é o Senhor de todos, que age por meio de todos e está em todos”. A unidade é um dom, um presente dado pelo Espírito Santo aos cristãos. A unidade não é um objetivo a ser alcançado, pois há um só Deus e Pai de todos, uma só fé e um só batismo. Mas a unidade pode ser conservada. Isso significa que ela pode ser perdida.

O texto pode ser considerado até chocante, quando pensamos no quadro do cristianismo dos nossos dias. A divisão das igrejas, a competição entre muitas denominações, o desentendimento entre líderes, tudo isso parece indicar que a unidade da Igreja não existe e que ela deve ser buscada. Mas quando olhamos com cuidado para o texto bíblico, vemos que ele nos lembra: é preciso fazer “tudo para conservar, por meio da paz que une vocês, a união (unidade) que Cristo dá”. Embora a unidade seja um dom, um presente que Deus dá, ela pode ser perdida. Por isso mesmo, precisa ser conservada. Há uma tensão presente no texto, uma verdade paradoxal, com a qual temos de lidar no nosso dia a dia.

O outro texto bíblico muito conhecido que fala sobre a unidade é a oração sacerdotal de Jesus. Ela está registrada no capítulo 17 do Evangelho de João. Nos versículos 21 a 23, o texto bíblico diz: “E peço que todos sejam um. E assim como tu, meu Pai, estás unido comigo, e eu estou unido contigo, que todos os que crerem também estejam unidos a nós para que o mundo creia que tu me enviaste. A natureza divina que tu me deste eu reparti com eles a fim de que possam ser um, assim como tu e eu somos um. Eu estou unido com eles, e tu estás unido comigo, para que eles sejam completamente unidos, a fim de que o mundo saiba que me enviaste e que amas os meus seguidores como também me amas”. Jesus fala da unidade que há dentro da Trindade e diz que essa unidade deve estar também com os discípulos. Mas a unidade tem uma consequência prática, que é repetida duas vezes nesses versículos: “Para que o mundo creia…”, ou: “A fim de que o mundo saiba…”. A falta de unidade do povo de Deus dificulta que as pessoas cheguem à fé. Ela é um escândalo que provoca a descrença.

O que provoca a divisão dos cristãos, do Corpo de Cristo? Na prática, os motivos são os mais diversos. Podem ser mesquinhos, como orgulho, poder, desentendimentos diversos e pessoais. Mas, muitas vezes, as situações podem ser mais complexas, como divisões por entendimentos doutrinários diferentes, não concordância em torno do que seja a verdade. Um teólogo corretamente chamou a atenção para três aspectos que quase sempre estão presentes na discussão da questão da unidade do Corpo de Cristo. Em geral, todos concordam que deveria haver unidade. Ninguém afirma que a falta de unidade seja o propósito de Deus. Aí a discussão começa a gravitar em torno do que é a verdade. Parece que estabelecer ou reconhecer o que seja a verdade sempre é difícil. E onde estaria a solução? Novamente, o texto bíblico pode ajudar.

Em Efésios 4.2 o apóstolo Paulo escreve: “Sejam sempre humildes, bem-educados e pacientes, suportando uns aos outros com amor”. O amor é o vínculo da paz. O amor torna possível a coexistência, mesmo quando há divergências. O amor orienta um coração humilde, bem-educado e paciente. E o que tem isso a ver com unidade e verdade? Quando há tensão entre a verdade e a unidade, o amor entra em cena, com humildade. O amor é o vínculo da paz. O amor estimula a humildade. E aí fica mais fácil de buscar a verdade e a unidade.

É fato que não existe unidade com desprezo à verdade. Mas é fato também que a verdade não elimina a unidade. Por isso, precisamos do amor. Aliás, o amor é outro dom precioso que recebemos de Deus e aprendemos dele. Deus nos ama em Cristo. Deus sabe quem nós somos. Ele conhece nossas falhas e imperfeições. Ele sabe a verdade a nosso respeito. E nem por isso ele deixa de nos buscar e de nos integrar à sua família. O amor de Deus, que excede o nosso humano entendimento, é que faz possível a comunhão de Deus conosco.

Belas lições podemos tirar da Palavra de Deus para a vida e a unidade do Corpo de Cristo. Verdade e unidade conseguem conviver quando existe o amor.

Erní Walter Seibert é doutor em Ciências da Religião, mestre em Teologia e tem MBA em Marketing de Serviços. É autor de cinco livros e tem trabalhos sobre Teologia e Ciências da Religião publicadas em várias revistas especializadas, tanto no Brasil como no exterior. Atualmente, ocupa o cargo de diretor-executivo da Sociedade Bíblica do Brasil.


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Leia mais: 
» Construindo a unidade na diversidade
» O chamado à unidade evangélica

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