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Opinião

Há um lugar reservado para o branco na igreja? Há um lugar para o negro?

Por Abraão Filipe
 
Novembro é considerado o mês da Consciência Negra e é importante falarmos disso. Afinal, nossos irmãos e irmãs negros não estão invisíveis em nossas igrejas. Como eles se sentem em nosso meio? Qual o lugar que ocupam em nossas comunidades de fé? Como os temos visto? Com quais olhares? Há um lugar reservado para o branco? Há um lugar para o negro? Há uma classificação do pior ou do melhor, superior ou inferior?
 
A verdade é que eles existem, resistem e estão presentes. Eles podem e querem ficar. Por isso, a data é uma oportunidade de chorar com os que choram e celebrarmos juntos a liberdade conquistada por Jesus na cruz e transformar em ações reais a reconciliação produzida pelo Espírito Santo. Embora haja, sim, um misto de liberdade e sofrimento, dores de uma realidade que é muito dura e perversa, um quadro mal pintado, um retrato cruel da nossa desumanidade, que se manifesta no racismo diariamente.
 
Alguns retalhos de esperança podem ser costurados através de seus depoimentos. Por isso, trazemos relatos de como esses homens e mulheres se sentem em suas igrejas e qual a relação que desenvolvem com a fé em suas vidas. Em seus diferentes matizes de cores, todos se identificam como negros. Eles se reúnem em distintas comunidades de fé presentes em Viçosa, MG, desde denominações mais tradicionais até às pentecostais.
 
Assim como bradou o profeta Joel e depois foi reafirmado ousadamente por Pedro no Pentecostes, podemos viver o cumprimento de uma linda promessa que nos enche de esperança: “O Senhor diz ao seu povo: ‘Depois disso, eu derramarei o meu Espírito sobre todas as pessoas: os filhos e as filhas de vocês anunciarão a minha mensagem; os velhos sonharão, e os moços terão visões. Até sobre os escravos e as escravas eu derramarei o meu Espírito naqueles dias.’” (Joel 2.28,29). Sim, ele prometeu derramar seu Espírito sobre toda carne: a que se considera cara ou “a carne mais barata do mercado”. Podemos e devemos viver juntos, em unidade e em amor, e marchar para que todos sejam respeitados como filhos e filhas de Deus, criados à sua imagem e semelhança. 
 
É inevitável evocarmos a memória e as palavras do pastor Martin Luther King Jr., em seu histórico discurso proferido em 1963: “Agora é hora de sair do vale escuro e desolado da segregação para o caminho iluminado da justiça racial. [...] Agora é hora de transformar a justiça em realidade para todos os filhos de Deus. [...] Não, não, não estamos satisfeitos e só estaremos satisfeitos quando ‘a justiça correr como a água e a retidão como uma poderosa corrente’. [...] Não haverá nem descanso nem tranquilidade na América até o negro adquirir seus direitos como cidadão. Os turbilhões da revolta continuarão a sacudir os alicerces do nosso país até que o resplandecente dia da justiça desponte. [...] Digo-lhes hoje, meus amigos, que, apesar das dificuldades e frustrações do momento, eu ainda tenho um sonho. [...] Eu tenho um sonho que um dia os filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos descendentes de donos de escravos poderão sentar-se juntos à mesa da fraternidade. [...] Eu tenho um sonho que meus quatro pequenos filhos um dia viverão em uma nação onde não serão julgados pela cor da pele, mas pelo conteúdo do seu caráter. Eu tenho um sonho hoje. [...] Eu tenho um sonho que um dia ‘todos os vales serão elevados, todas as montanhas e encostas serão niveladas; os lugares mais acidentados se tornarão planícies e os lugares tortuosos se tornarão retos e a glória do Senhor será revelada e todos os seres a verão conjuntamente’.”
 
1. Madalena Leandro (68 anos)
 
Eu me sinto bem-vinda na minha igreja e gosto de estar nela. A igreja é um lugar onde devemos receber a todos, sem distinção de cor, de idade, de finanças. 
 
Quando eu cheguei aqui, achei o povo muito parado, mas agora estão cheios da graça, da unção. O povo de Deus tem que ser alegre, tem que se movimentar, não pode ficar parado.
 
Acolhimento é uma coisa muito especial. Eu me sinto acolhida. Quando chega alguém, nós temos que agir assim: acolher aqueles que chegam. Todos devem ser acolhidos pela igreja e todos da igreja devem acolher. Eles vão falar: ‘eu cheguei e todo mundo me abraçou, me cumprimentou, conversou comigo.’ Por isso, devemos ser acolhedores.
 
Muitas pessoas acham que estão sendo excluídas, que deixam elas no canto. Mas muitas vezes isso está em nós mesmos, que não sabemos fazer a coisa certa: quando chegamos na igreja, nós não podemos ficar no canto, não, temos que nos entrosar no meio do povo. Se é jovem, vai para o meio dos jovens. É senhora, vai para o meio das senhoras. Criança, vai para as crianças. ‘Ah, não, eu vou ficar aqui, eu sou pobre, eu sou coitadinha...’ Não podemos pensar assim. Nós temos que estar no meio do povo e é onde eu estou. É maravilhoso. O povo gosta e eu também.
 
2. Carla Helena Gomide (20 anos)
 
Primeiramente, falando de mim: graças a Deus, não tenho dificuldade. Eu não vejo barreira em questão de raça. Logicamente, é uma construção que eu tenho, de onde eu estou inserida, do que Deus já fez na minha vida como cristã. Eu já tive complexo de inferioridade; não da igreja em relação a mim, mas às vezes de mim em relação à igreja, pois nós trazemos uma carga familiar muito grande, uma carga de outros espaços. Mas dentro da igreja eu nunca ouvi “ela não vai participar disso por ser negra”. De jeito nenhum! Eu gosto muito de pensar sobre o olhar; e de quem parte o olhar.
 
Pensando na cultura negra, na igreja que eu frequento, por exemplo, não há diferença em relação às outras; não vejo isso como dificuldade. Inclusive, há pessoas negras, homens negros e mulheres negros inseridos no diaconato, na liderança, no serviço, na evangelização, no ministério de missão.
 
Pensar sobre isso nos remete a outras coisas. Hoje, temos uma facilidade muito grande de dialogar com quem já conhece o evangelho. Então, a igreja consegue receber negros que já conhecem a Jesus. Numa questão mais geral, se a pessoa não for cristã, vejo que nós temos muita dificuldade de alcançar, de falar a mesma linguagem, de chegar à sua cultura e acolher quem veio de um outro lugar. Nesse sentido, nós não olhamos o olhar de quem está vindo para inseri-lo em nossa comunidade.
 
Por isso, nós temos que pensar a igreja como um corpo e também como um lugar para os doentes. Independentemente da cor branca, parda, preta, amarela, todos são doentes e precisam ser sarados. Eu não sei por que Deus nos fez assim, mas acho interessante, é bonito! Representa muito bem o corpo de Cristo com todas essas cores. Todos são necessários entre si. O problema mesmo está em nós, seres humanos, reconhecermos que somos doentes e dependentes do Senhor. Além disso, se no corpo de Cristo houvesse essa segregação, eu desconsideraria o poder de Deus na África, onde, majoritariamente, a população é negra. Então, o Reino de Deus, a igreja, o povo do Senhor não tem essa dificuldade. Mas temos as nossas particularidades culturais que também são desafiadoras.
 
3. Denise Oliveira (24 anos)
 
Eu considero a minha igreja como um lugar onde sou bem-vinda e onde quero estar – ela é muito boa e tenho uma ótima relação com as pessoas. Porém, não há muitos membros com os quais eu me identifico sobre essa questão de negritude. A minha igreja é majoritariamente branca e não toca nesse assunto. Agora que estão começando a conversar sobre isso. 
 
No mês passado, houve uma classe na escola dominical que falou sobre negritude e a Bíblia, especialmente sobre a família de Moisés e Zípora. Foi a primeira vez que eu vi. Porque, desde criança, só me lembro de duas famílias negras na minha igreja. Não havia muita gente preta, nem na mocidade. Com essa política pública na Universidade de incluir mais pessoas de outras cores, começou a chegar mais gente de cor na igreja.
 
Eu acho que dentro da igreja não senti e não sinto que as pessoas se importam com isso, a ponto de realmente prestarem atenção que existem negros na igreja e que precisa ser conversado sobre isso. Parece que eles pensam que não é uma questão importante – a cor da pele –, que todo mundo é igual. Parece que eles não se importam com as coisas que o negro, parte do povo de Deus, sofre. Eu nunca sofri racismo dentro da igreja. Mas há muito essa ideia de que no Brasil não tem racismo. Eu já ouvi de liderança que tratava o racismo como algo distante, de lugares onde há uma segregação mais marcada, pois é gritante a diferença entre o branco e o preto em termos de tonalidade de cor. “Lá as pessoas saem para bater nos pretos”. Mas aqui acontece da mesma forma. Já ouvi, na igreja, que aqui não tem racismo e já ouvi também que eu não sou negra, que negro mesmo é quem está lá na África. Isso é muito confuso para a cabeça de uma criança. Até os 10 anos, eu achava que eu era parda. Eu não era considerada preta. Porém, nunca aconteceu nada de ofensivo ou que me discriminasse. Eu não me sentia maltratada ou vista de uma forma pior que os outros, talvez apenas diferente.
 
4. Daniel Mendonça (37 anos)
 
A igreja é um lugar que deve receber a todos. Eu vejo que, para a igreja, é fundamental ter esse espaço de receber o branco, o pardo, o negro, ambos da melhor forma possível. Na verdade, a igreja tem, sim, esse papel acolhedor, receptivo, construtivo, auxiliador.
 
Nós vemos, principalmente nos Estados Unidos, que essa diversidade é mais marcada. Existem igrejas só de negros, igrejas só de brancos. Aqui, no nosso país, como é um povo muito misturado, miscigenado, todo mundo, ainda que a pessoa seja branca, tem uma pessoa de cor na família. Isso é uma coisa muito normal e natural, que acontece devido à nossa diversidade.
 
E, de todas que eu já fui, nunca vi uma igreja que não tenha uma pessoa de cor, um pardo, um moreno, um negro. E até mesmo na questão ministerial da igreja, em patamar de liderança, para além da membresia, atuando como auxiliares de trabalhos, pastores, diáconos, presbíteros, evangelistas. Eu vejo isso como algo muito interessante e bonito porque vemos que o evangelho, em si, não traz essa distinção tanto na questão de cor quanto na questão social. Se tiver um juiz, se tiver uma empregada doméstica, todos ali são membros da igreja e estão debaixo do mesmo ensino do pastor. Então, eu acho que a igreja não traz apenas essa diversidade de cor, mas também essa diversidade social, de várias classes.
 
A minha família mesmo é uma mistura. Tem branco, negro, negra, indígena. Então, é a própria família brasileira, inserida nessa miscigenação. E nós sempre fomos bem recebidos; nunca passei por nenhum constrangimento por cor. Também nunca vi caso de racismo dentro da igreja. Mas, se houver, nós temos que repudiar e até mesmo todas as formas de discriminação que se manifestarem. Para Deus, não existe distinção de cores.
 
5. Luciano Henrique Machado (23 anos)
 
Além de eu me sentir bem na igreja, acredito que é um povo acolhedor. Sim, eu acredito que a igreja tem, em sua grande maioria, um aspecto acolhedor. 
 
A nossa igreja é bem diversificada nessa questão étnica. Nós temos uma parcela negra e também uma parte que é branca. Eu posso falar da minha realidade e fazer um recorte da comunidade que eu participo porque isso é bem subjetivo; não posso generalizar e falar do todo. Embora, em questão quantitativa, tem locais considerados segregados ou mais periféricos, em que nossas congregações, em si, são comunidades negras em sua grande maioria.
 
Nós lidamos muito bem com essa questão do preconceito. O povo consegue viver em harmonia. Eu não me sinto desqualificado por ser negro ou excluído do meio. Todos são tratados de forma igual. Claro que, em todo ambiente, nós estamos propensos a ouvir coisas ou presenciar certas situações que são comuns em toda a sociedade, e que se encontram também na igreja, dependendo da atividade e do momento. Porém, nossa liderança, principalmente, se posiciona e combate bastante isso. E, assim como os sistemas passam por certas atualizações, eu acredito que temos vivido mudanças bastante significativas, acompanhando a nossa sociedade. Por isso, são temas que, hoje, já são abordados dentro da igreja e realmente colocam todas as pessoas no mesmo patamar. Aqui, eu não me sinto menor. Vejo que pessoas negras têm as mesmas oportunidades.
 
6. Celma Martins (53 anos)
 
Eu me sinto bem-vinda. Me sinto acolhida na igreja. Eu não me importo muito com a opinião dos outros; onde chego, estou bem. Essa questão de racismo é muito bem-resolvida na minha cabeça. Eu sei que existe, sim. Mas, quando me deparo com o racismo, sabe o que, de verdade, eu penso?! Essa pessoa tem um problema, e não eu! Nós, negros, não abaixamos a cabeça. E eu ensino isso para os meus filhos.
 
Como eu participo da liderança, sempre tive espaço para ir, para falar, para ministrar à igreja. Nunca percebi atitude que eu pudesse qualificar como racismo. Ninguém nunca comentou. Eu posso afirmar que as pessoas têm uma convivência legal e saudável com todo mundo. 
 
Se, quando falamos em racismo, alguém está discriminando a outra pessoa, se sentindo superior a ela, eu acredito que sim, o racismo se torna pecado. A pessoa pode estar incorrendo no pecado do orgulho, da soberba. É grave alguém achar que é melhor do que nós só por sermos negros. O racismo é você achar que é superior à outra pessoa. Isso é orgulho e soberba. Não existe ninguém melhor ou maior que o outro, em essência. Somos todos criados por Deus, com a mesma essência.

Fotos: Abraão Filipe
Edição das Fotos: Kedma Julia
 
• Abraão Filipe é natural de São Mateus (ES) e estudante de Jornalismo em terras mineiras, na Universidade Federal de Viçosa.

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