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Opinião

Deus e a pandemia

Por Ed. René Kivitz

*Artigo publicado originalmente na edição 384 da revista Ultimato.

Como responder a essas perguntas recorrentes: Deus enviou o coronavírus? Quais os propósitos de Deus ocultos por trás da pandemia?

Uma das perguntas recorrentes nas minhas entrevistas e conversas com a imprensa e nas diversas lives de que tive a oportunidade de participar durante a quarentena foi a respeito da relação entre Deus e o coronavírus. Deus enviou o coronavírus? Por que Deus está permitindo tantas mortes e sofrimentos? Quais os propósitos de Deus ocultos por trás da pandemia?

Algumas pessoas somam às suas perguntas uma lista de textos bíblicos que sugerem mesmo que Deus é a causa da pandemia e a origem do coronavírus. Mas, pastor, não é verdade que Deus “faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade” (Ef 1.11)? Isso não significa que “tudo acontece porque Deus deseja que aconteça”? E como o senhor explica as palavras de Jesus dizendo que, assim como nenhum passarinho cai no chão sem o consentimento de Deus, também nem mesmo os cabelos da nossa cabeça, que estão contados por Deus, caem sem que seja da vontade dele (Mt 10.29-31)? Não é Deus quem decide o dia e a hora da nossa morte, como diz o apóstolo Tiago: “Se Deus quiser viveremos e faremos isso ou aquilo” (Tg 4.13-15)?

É verdade que muitas pessoas acreditam que a Bíblia ensina que Deus decide cada detalhe do que acontece no universo. O teólogo Mark R. Talbot, por exemplo, diz que

nada nos acontece – nada de bom e nada de ruim – que, por fim, não venha de Deus [...] O ensinamento bíblico é que Deus ordenou, desejou ou planejou todas as coisas que acontecem em nosso mundo desde antes da criação. Deus é o agente primário – a causa primária, a última explicação – de tudo o que acontece. [...] Vistas no seu todo, as Escrituras realmente asseveram, presumem ou implicam que Deus ordena todas as coisas, incluindo o mal natural e o mal moral.

Caso você esteja desconfortável com essas afirmações, Talbot tem algo mais a lhe dizer:

Não nego nem por um momento quão difícil pode ser evitar responsabilizar Deus pelos males do mundo simplesmente porque ele ordena todas as coisas. De que maneira um Deus bondoso poderia ordenar o Holocausto? Como ele pode ordenar o abuso sexual até mesmo de uma única criança? Como ele poderia ordenar a morte lenta e dolorosa de alguém que amo? Contudo, como acontece com todas as outras doutrinas cristãs, o teste da verdade dessa doutrina não é que a consideremos plausível ou atraente, mas que a encontremos nas Escrituras.

Muitos outros teólogos poderiam ser citados para exemplificar as pessoas que acreditam na soberania de Deus como o ato de Deus desejar, planejar, determinar e fazer acontecer todas as coisas, em seus mínimos detalhes, de acordo com seus propósitos eternos.

Mas essa não é a única maneira de ler e compreender a Bíblia. O discurso teológico é resultado de uma maneira de selecionar, organizar e interpretar os textos bíblicos. Pense, por exemplo, numa casa. Uma casa se faz de tijolos, mas um amontoado de tijolos não necessariamente é uma casa. Assim também a teologia se faz com textos bíblicos, mas um amontoado de textos bíblicos não resulta necessariamente em um conceito bíblico. Aprendi isso com John Stott, teólogo anglicano, quando disse que “a mente bíblica não é a que cita versículos, mas a que raciocina dentro dos parâmetros das Escrituras Sagradas”. Um conceito, para ser bíblico, deve ser coerente com a lógica sistêmica da Bíblia, e não apenas deduzido de uma série de versículos interpretados fora de seus contextos e ou de maneira praticamente literal.

Essa maneira de compreender a pandemia, atribuindo a Deus a responsabilidade direta por todas as mortes e todo o sofrimento decorrente dessa e de outras tantas tragédias, nos coloca diante do dilema a respeito da palavra bíblica que nos revela que “Deus é amor” (1Jo 4.8). Como podemos confiar em Deus e em seu amor quando ele ordena o mal, inclusive moral, e espalha coronavírus pelo mundo, enquanto assiste corpos sendo sepultados sem funerais e sem o luto e as lágrimas de seus familiares?

Essas considerações me fizeram lembrar o comentário do rabino Harold Kushner, citando A Grief Observed (publicado em português com o título A Anatomia de uma Dor), que C. S. Lewis escreveu logo após a morte de sua esposa, acometida de câncer:

O perigo de afirmarmos os infortúnios como vontade de Deus não é tanto que as pessoas deixarão de acreditar em Deus. O perigo é que elas continuarão a crer em Deus, mas crerão coisas terríveis a respeito dele. Pior do que concluírem que Deus não existe, é concluírem que Deus existe, mas é um monstro.

A teologia que atribui a Deus a causa primária do mal natural e moral resulta numa caricatura divina de face monstruosa. A afirmação de que Deus desejou, planejou, determinou e fez acontecer um estupro, o Holocausto e também a pandemia do coronavírus implica afirmar que esse deus é um monstro. Sou solidário com todos aqueles que, por causa dessa caricatura dantesca, negam a existência desse deus – desse deus também sou ateu.

• Ed. René Kivitz é pastor da Igreja Batista de Água Branca, em São Paulo, SP. É mestre em ciências da religião e autor de, entre outros, O Livro Mais Mal-Humorado da Bíblia. facebook.com/edrenekivitz.

Leia mais: 
» Vídeo “De que lado Deus está na pandemia?”
» A Soberania de Deus e o sofrimento do crente

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