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Colunas — História

Iconoclasmo: o mau, o bom e o melhor

Por Alderi Souza de Matos

A destruição de símbolos religiosos, o segundo mandamento e os ídolos modernos

Entre meados de 2015 e o início de 2017, o mundo assistiu horrorizado à devastação de boa parte do maravilhoso sítio arqueológico de Palmira, na Síria, pelo autodenominado Estado Islâmico. Embriagados pelo fanatismo cego e pelo ódio aos inimigos, os terroristas destruíram templos, monumentos e estátuas que faziam parte desse valioso patrimônio cultural da humanidade. Eles fizeram questão de filmar essas cenas grotescas, que foram transmitidas ao redor do globo. Tais atos foram motivados por várias razões, uma das quais o entendimento de que se tratava de objetos de idolatria, algo condenado pela religião islâmica. Foi um exemplo do que se denomina iconoclasmo, ou seja, a destruição de ícones ou símbolos religiosos.

O cristianismo também tem uma história de manifestações dessa natureza. Na Idade Média ocorreu no Império Bizantino a chamada “Controvérsia Iconoclástica”, que se estendeu por dois períodos nos séculos oitavo (726-787) e nono (815-843). O evento teve início quando o imperador Leão III proibiu pinturas e mosaicos nas igrejas, no que foi seguido por seus sucessores. Essa proibição foi acompanhada de uma vasta destruição de ícones e da perseguição aos simpatizantes da veneração das imagens. Tanto motivações bíblicas quanto influências islâmicas teriam contribuído para esse fenômeno. Em 843, os ícones foram definitivamente restaurados, sendo instituída a Festa do Triunfo da Ortodoxia, no primeiro domingo da quaresma.

Outro período de manifestações iconoclásticas ocorreu no contexto da Reforma Protestante do século 16. Inspirados por suas novas convicções acerca do culto a Deus, os protestantes se debateram com a questão dos símbolos religiosos que a Igreja Romana utilizava havia séculos, em especial imagens planas (pinturas, vitrais) e tridimensionais (estátuas). De modo geral, eles não se deixaram convencer pelos antigos argumentos utilizados para justificá-las: de que serviam como uma espécie de “bíblia” para os ignorantes; de que a encarnação santificou a matéria e a tornou um veículo adequado para exprimir realidades transcendentes; de que eram apenas símbolos de realidades espirituais, e não objetos de adoração.

Os adeptos da Reforma rejeitaram a distinção entre os cultos de latria (a Deus), dulia (aos santos) e hiperdulia (a Maria), considerando estes últimos um artifício racional utilizado para contornar o preceito bíblico que proíbe explicitamente a confecção de imagens para fins religiosos, encontrado nos Dez Mandamentos e não abolido no Novo Testamento. Partindo do princípio de sola Scriptura, eles concluíram que a Trindade Santa deve ser o único objeto de culto para os cristãos, conforme as palavras de Jesus: “Está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a ele darás culto” (Mt 4.10; ver também At 10.25s; Rm 1.25; Ap 22.8s).

Todavia, as atitudes dos diferentes grupos da Reforma em relação às imagens variaram sensivelmente. Embora alguns seguidores iniciais de Lutero, como Andreas Karlstadt e os chamados “profetas de Zwickau”, tenham demonstrado fortes atitudes iconoclásticas, o próprio reformador se revelou bastante moderado nessa questão. Ele manteve um bom número de práticas e costumes tradicionais católicos, como o uso de paramentos, o altar, o sinal da cruz e o uso ilustrativo de imagens. Os anglicanos, em virtude do caráter misto dessa tradição, reunindo elementos protestantes e católicos, também foram contidos no seu iconoclasmo. Na Inglaterra, a expressão mais contundente dessa atitude se deu em relação aos mosteiros, em grande parte destruídos e confiscados pela coroa desde a época de Henrique VIII.

A tradição protestante mais explícita em seu iconoclasmo foi a Reforma Suíça, a começar do seu fundador, Ulrico Zuínglio. O segundo debate público realizado em Zurique, em outubro de 1523, versou especificamente sobre a missa e o uso de imagens, estas últimas consideradas “ídolos” pelo reformador Leo Jud. No início, as autoridades civis foram cautelosas, retirando das igrejas somente imagens de propriedade particular. Em meados do ano seguinte, grupos de operários retiraram ostensivamente quadros, imagens e relíquias das sete igrejas da cidade. Em outros lugares e épocas, turbas descontroladas promoveram destruição em muitas igrejas, nas quais se perderam preciosos exemplares de arte sacra.

De modo mais construtivo, os herdeiros dos reformadores compreenderam que existem formas mais sutis e perigosas de idolatria. É possível alguém não se prostrar diante de uma imagem ou reverenciá-la, e ainda assim violar frontalmente o preceito do culto exclusivo ao Deus trino. João Calvino disse que a mente ou a natureza do ser humano é uma “perpétua fábrica de ídolos” (Institutas 1.11.8). Ele estava se referindo àquelas manifestações idolátricas que são fruto do próprio coração e da imaginação humana, deuses que os homens fabricam para si mesmos. Tais ídolos, à primeira vista, não se parecem como tais. Porém, ao substituírem ou relativizarem o Deus verdadeiro no coração e na vida, assumem essa posição.

Esse é o verdadeiro iconoclasmo que os herdeiros da Reforma devem praticar com todo empenho. Eles em geral não mais se sentem atraídos por imagens e ícones literais; no entanto, sem perceber, podem estar se prostrando e dedicando sua suprema afeição a outras realidades que não o Deus supremo: interesses controladores; pecados habituais; desejos, pensamentos e comportamentos nocivos; compromissos questionáveis; motivações e cosmovisões distorcidas, as quais devem ser decisivamente quebradas e abandonadas. A Escritura é muito clara ao afirmar a radicalidade da fé: “Não há santo como o Senhor, porque não há outro além de ti; e Rocha não há, nenhuma, como o nosso Deus” (1Sm 2.2); “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento” (Mt 22.37).

• Alderi Souza de Matos
é doutor em história da igreja pela Universidade de Boston e professor no Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper. É autor de Erasmo Braga, o Protestantismo e a Sociedade Brasileira, A Caminhada Cristã na História e Fundamentos da Teologia Histórica. Artigos de sua autoria estão disponíveis em http://cpaj.mackenzie.br/historiadaigreja.php.

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