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Colunas — Redescobrindo a palavra de Deus

A Reforma precisa de reforma

Por Valdir Steuernagel e Marcell Steuernagel

Um ato de contrição

Neste intenso calendário de eventos que celebram os 500 anos da Reforma Protestante, Valdir participou de um simpósio num seminário da Igreja Católica Romana. Um seminarista perguntou-lhe o que os evangélicos estavam fazendo quanto à comercialização da fé em várias igrejas que se identificam como tal. Como resposta, ele só pôde reconhecer que há, no mundo identificado hoje como evangélico, práticas e problemas parecidos com aqueles que a própria Reforma denunciou e propôs reformar, com base no Cristo testemunhado nas Escrituras.

As práticas de mercantilização do evangelho não se restringem a um determinado grupo denominacional, nem a um tempo ou lugar específicos. Elas acompanham a igreja em sua história e são a expressão daquilo que Paulo, escrevendo aos gálatas, chamou de “outro evangelho”: “Admiro-me de que vocês estejam abandonando tão rapidamente aquele que os chamou pela graça de Cristo, para seguirem outro evangelho que, na realidade, não é o evangelho. O que ocorre é que algumas pessoas os estão perturbando, querendo perverter o evangelho de Cristo” (Gl 1.6-7).

Paulo afirma a centralidade de Cristo na vida da igreja e ressalta que não lhes anunciou outro evangelho senão aquele que ele também recebeu: Cristo Jesus. Este Cristo precisa ser o centro da vida pessoal e comunitária. É esta realidade que Paulo busca identificar na igreja. Num momento da carta ele diz: “Meus filhos, novamente estou sofrendo dores de parto por sua causa, até que Cristo seja formado em vocês” (Gl 4.19).

Ao celebrarmos a Reforma, somos instados a nos reposicionar em relação à centralidade de Cristo. Ninguém, em lugar algum, é excluído do convite a ter Cristo formado em si e do desafio de repreender a tentação de torná-lo algo secundário, vendável ou mesmo um adereço religioso.

Celebrar a Reforma é bom e bonito. Porém, se ela não nos levar à conversão, a Cristo, ela mesma se transforma em processo de mercantilização da fé. Ao anunciar que a igreja precisa estar em contínuo processo de reforma, este movimento se coloca como um antídoto contra si mesmo e contra a tentação de se concentrar em si mesmo como um produto acabado e acima de qualquer questionamento e crítica. Várias expressões históricas da Reforma foram e são vítimas desta tentação, que é expressa, vezes sem conta, numa ortodoxia institucional que “vende a si mesma” e desqualifica quem dela discorda.

Ecclesia reformata semper reformanda
Foi o teólogo católico Karl Rahner que qualificou a igreja como “igreja pecadora”, indicando que nenhuma igreja está isenta de se saber pecadora, de confessar os seus pecados e de buscar pela manifestação de uma conversão que a leve novamente aos pés da cruz. Essa igreja pecadora precisa estar aberta de forma contínua a processos de conversão, e ser denunciada sempre que as portas se fecham e ela se entende “absoluta”. Outro teólogo católico, Hans Küng, brigou por décadas para que sua igreja reconhecesse a necessidade de reforma. Ele afirma que, para se abrir à reforma, a igreja precisa de quatro categorias:

• Sofrer pelos defeitos e pecados da igreja, descartando uma apologética autossatisfatória e superficial;
• Orar por libertação do mal e pedir ao Espírito de Deus que renove todas as coisas, pois sem o Espírito não há reforma;
• Criticar a igreja -- não apenas as pessoas, mas a instituição como tal;
• Atuar! A reforma precisa ser criativa, não uma mera revolução, restauração, reforma do coração ou mera correção de abusos.1

Reformar a igreja é desafiador. Crítica e criatividade precisam andar de mãos dadas. Se o amor, que é a marca da ação de Cristo, é o mais importante, ele deve infundir nossas críticas com esperança e compromisso. A crítica sofre junto, pois ama e busca restauração e cura -- além de mudança de trajetória e de vida --, contando com a criatividade do Criador. Este é um caminho difícil, pois, quando se escolhe esta porta, fecha-se a porta da truculência, do atalho, da corrupção e do jeitinho. A diferença entre o jeitinho e a criatividade está no amor a Deus e no exercício da vocação com integridade. Abdica-se também do uso do poder em benefício próprio e passa-se a viver segundo o modelo do evangelho de Cristo, que é marcado pelo serviço e pelo sacrifício. Concluímos esta série sobre a Reforma associando-nos a outros que, em 2017, deram destaque ao cerne da Reforma, que são os solas -- os quais afirmamos e por eles nos norteamos. Ficam aqui três palavras como um convite à busca da obediência evangélica: soli Deo -- a Igreja é de Deus. Ele a gera, cuida e sustenta. Nós, como parte de uma igreja pecadora e feita de pecadores, sempre voltamos a nos submeter a esta Igreja, que, sendo de Deus, carece de reforma contínua pelo seu Espírito, que é ele mesmo; solus Christus -- a Igreja nasce a partir do encontro com Cristo, conforme revelado na Palavra. No decorrer da história, vive-se a tentação de se afastar de Cristo ou desfigurá-lo em benefício próprio. Contudo, este caminho é um beco sem saída. A Cristo só se encontra aos pés da cruz; Communio Sanctorum -- a Igreja é desenhada pela comunidade dos santos, pela generosa graça de Deus, que nos acolhe no Corpo de Cristo. A fé cristã se vive em corpo. Um corpo que nunca pode ser objeto dos nossos gostos e cheiros pessoais ou institucionais, mas precisa ter o “aroma de Cristo” (2Co 2.15).

• Valdir Steuernagel é pastor na Comunidade do Redentor, em Curitiba, PR. Faz parte da Aliança Cristã Evangélica do Brasil, da Aliança Cristã Evangélica Mundial e da Visão Mundial.

Com a colaboração de:

• Marcell Steuernagel é músico e acadêmico. Mora nos Estados Unidos, onde cursa doutorado em música e igreja.

Nota
1. KÜNG, Hans. My struggle for freedom; memoirs. Grand Rapids, MI: Eerdmans, Digital.


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