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Colunas — O Caminho do Coração

A memória transcendente

Por Ricardo Barbosa

Agostinho, ao descrever em suas Confissões o lugar da memória no conhecimento de Deus, termina com uma oração de profunda beleza e significado: “Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu te amei! Eis que habitavas dentro de mim, e eu te procurava do lado de fora! Eu, disforme, lançava-me sobre as belas formas das tuas criaturas. Estavas comigo, mas eu não estava contigo. Retinham-me longe de ti as tuas criaturas, que não existiriam se em ti não existissem. Tu me chamaste, e teu grito rompeu a minha surdez. Fulguraste e brilhaste e tua luz afugentou a minha cegueira. Espargiste tua fragrância e, respirando-a, suspirei por ti. Tu me tocaste, e agora estou ardendo no desejo de tua paz […]”. Para ele, o ser humano é movido por santos anseios. Noutras palavras, existem dentro de nós desejos que somente Deus pode satisfazer. Não estou falando de desejos triviais, mas dos anseios profundos da alma humana.

O pregador de Eclesiastes afirma que Deus colocou a “eternidade no coração do homem” (Ec 3.11). Este é o grande paradoxo, somos seres finitos com desejos infinitos. Por causa disso, mais à frente, encontramos o pregador afirmando: “Quem ama o dinheiro jamais dele se farta; e quem ama a abundância nunca se farta da renda” (Ec 5.10). Na verdade, o que buscamos não é o dinheiro ou a fartura, ou o sexo, ou o sucesso, mas a eternidade. Em outras palavras, nosso desejo primário é por Deus, e não por coisas que podemos conquistar como substitutas para aquilo que somente Deus pode satisfazer.

Deixe-me ilustrar de forma simples. Às vezes estamos assistindo a um filme e uma cena nos toca de modo intenso e desperta emoções profundas que nos levam às lágrimas. Estes sentimentos podem ser de dor ou paixão. Para Agostinho, estas emoções são a forma como nossa memória é despertada. Não é a cena em si que nos provoca a emoção, mas o desejo que ela revela. Sendo o desejo por amor um desejo infinito, quando nos lançamos sobre algo finito para supri-lo, o resultado será a frustração e a angústia.

Quando Jesus nos convida a buscar em primeiro lugar o seu reino e a sua justiça e termina afirmando que “todas estas coisas vos serão acrescentadas”, é porque ele sabe que nosso desejo primário é por ele e não pelas outras coisas. Lançamo-nos sobre outras coisas, esperando que elas nos satisfaçam, entretanto isso nunca acontece porque, como criaturas, nosso desejo primário é por amor, aceitação ou por reconciliação. Como Agostinho diz: “Eu, disforme, lançava-me sobre as belas formas das tuas criaturas [...]” -- ele mesmo reconhece que estas criaturas o mantinham longe de Deus.

Os mestres do marketing reconhecem que o ser humano se move por desejos. Propagandas para crianças e adultos buscam estimular tais desejos. Projetamos num determinado produto ou experiência a satisfação imediata de desejos e, com parcelas mensais de poucos reais, eles oferecem “satisfação garantida ou seu dinheiro de volta”. Percebe-se que nunca tivemos tantas ofertas e possibilidades, e nunca o ser humano foi tão infeliz.

Agostinho, depois de suas reflexões sobre a memória, ora dizendo: “Quando estiver unido a ti com todo o meu ser, não mais sentirei dor ou cansaço. Minha vida será verdadeiramente vida, toda plena de ti. Alivias aqueles a quem plenamente satisfazes. Não estando ainda repleto de ti, sou um peso para mim mesmo”. A idolatria das coisas torna a vida pesada, pois a verdadeira vida é experimentada apenas quando nos encontramos unidos a Deus por meio de Jesus Cristo.

A memória transcendente é aquela que nos faz perceber o que o salmista declara: “Somente em Deus, ó minha alma, espera silenciosa; dele vem a minha salvação” (Sl 62.1).

• Ricardo Barbosa de Sousa é pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto e coordenador do Centro Cristão de Estudos, em Brasília. É autor de, entre outros, A Espiritualidade, o Evangelho e a Igreja e Pensamentos Transformados, Emoções Redimidas.


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