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Especial — Entrevista

Praticar a justiça e amar a misericórdia não é o bastante

A missão integral é local e global
Sheryl Haw

Se você visitar o site da Rede Miqueias Global (MG) vai se surpreender com a diversidade de assuntos e a abrangência das ações. A MG é formada por igrejas, alianças evangélicas, organizações de socorro e de desenvolvimento e agências missionárias que se reuniram em torno de um objetivo comum: seguir o conselho de Deus conforme exposto por Miqueias (6.8): “Ele mostrou a você, ó homem, o que é bom e o que o Senhor exige: Pratique a justiça, ame a fidelidade e ande humildemente com o seu Deus”.

Sheryl Haw é diretora internacional da MG, nasceu e cresceu no Zimbabwe, onde sua família mora. Nos últimos vinte anos, trabalhou na área de ajuda, treze dos quais junto à organização Medair (organização cristã humanitária que atua em lugares remotos e contextos de crise). Durante cinco anos, trabalhou com a HAP International (Humanitarian Accountability Partnership) como gerente de desenvolvimento de padrões e certificação e auditoria de contas. Além disso, lecionou no All Nations Christian College sobre missão integral e prática de desenvolvimento.

Em junho de 2017, Sheryl esteve em Vitória, ES, para o estabelecimento da Rede MG no Brasil, evento que contou com o apoio de Ultimato, membro da MG há quase dez anos.

Como e quando começou a Rede Miqueias Global?
Os fundadores da MG se encontraram em Kuala Lumpur em 1989. A primeira consulta global formal da Rede Miqueias aconteceu em Oxford, Reino Unido, em setembro de 2001. Eles foram inspirados a começar a Rede Miqueias porque desejavam: ter uma plataforma onde vozes e opiniões do Sul, do Norte, do Oeste e do Leste pudessem ser ouvidas com o mesmo respeito; encorajar e melhorar de modo ativo a capacidade cristã de responder a situações de pobreza, desastre e injustiça; fortalecer a cooperação entre organizações cristãs de ajuda humanitária e congregações locais. Acreditavam que o caminho para isso era a promoção da missão integral buscando transformar a maneira que se entendia a missão e enxergar a comum responsabilidade de se engajar na missão de Deus.

Como ela se estrutura?
A MG é uma organização de associados. Uma diretoria coordenadora internacional é formada por indivíduos talentosos e inspirados de cada região. A diretoria indica um assistente executivo global para administrar a implementação das atividades cotidianas. Este trabalha com membros para formar grupos de trabalho regionais e sub-regionais que guiam a aplicação contextual da Missão Miqueias e ajudam a coordenar eventos regionais. Pela eficácia local, a rede prioriza o desenvolvimento da missão em âmbito nacional por meio da formação de “expressões nacionais”. Cada expressão nacional almeja ser um catalisador, formar uma plataforma de “networking” e desenvolver um movimento Miqueias que seja adequado ao seu contexto.

Em que países a MG mais tem crescido e a que atribui esse crescimento?
A MG tem 763 membros de 92 países e 9.200 contatos de 125 países. A maioria dos membros é do sul global. Hoje, a MG tem 47 expressões nacionais. Há um crescimento global contínuo e, normalmente, vemos picos de crescimento durante e após organizarmos eventos dentro de um país. No momento, há um crescimento na América Latina, logo após a Consulta Global que ocorreu no Peru em setembro de 2015.

Você pode nos dar uma visão geral sobre a missão integral em todo o mundo?
Em primeiro lugar, a missão integral não é uma coisa nova. No Antigo Testamento, Deus chamou Israel para ser uma bênção para todas as nações. No Novo Testamento, vemos isto de forma ainda mais clara e plena em Jesus Cristo e no modo como ele viveu, e em seu chamado para o seguirmos e fazermos o mesmo.

Então, o que houve de errado? Teríamos muito a dizer aqui, porém vamos citar as dicotomias que começaram a aparecer na igreja. Uma usual, que acredito ser a maior barreira para o evangelho hoje, é a divisão entre crer e viver. Muitas pessoas se denominam cristãs, no entanto não vivem isto em seu dia a dia e o mundo enxerga isto como hipocrisia. Outra grande dicotomia é a que divide a liderança e os leigos. Vemos congregações que colocam toda a responsabilidade do serviço sobre os ombros dos líderes terceirizando suas próprias responsabilidades e a igreja torna-se apenas uma instituição religiosa administrada por especialistas em questões religiosas. Outra dicotomia: a missão tornou-se apenas evangelização por meio de palavras e seu sucesso começou a ser mensurado por meio do número de igrejas plantadas e de pessoas batizadas. A assistência social tornou-se uma abordagem profissional para atender às necessidades físicas das pessoas.

Portanto, para tratar dessas dicotomias, destacamos a necessidade de ser integral unindo novamente aquilo que havia sido separado. Eu diria que o nosso entendimento teológico de missão integral cresceu e espalhou-se pelo mundo, de modo especial entre os meios acadêmicos, porém ainda temos uma longa caminhada até chegarmos à prática. Junto com isto, como em qualquer movimento, existem também equívocos que levam a interpretações e aplicações errôneas. Às vezes o termo missão integral é usado para descrever um projeto, contudo missão integral é viver de forma holística uma vida que se expressa em palavras, ações e sinais de transformação. Os críticos da missão integral dizem que o foco é demasiado em atividades sociais, com poucas evidências de proclamação. Eles estão certos em nos alertar e precisamos ficar atentos.

Você pode mencionar aspectos notáveis em uma região ou país específico que demonstre o vigor da missão integral?
Aqui estão alguns exemplos: recentemente, organizamos na Zâmbia uma Consulta em Missão Integral e Liberdade e focamos no tráfico na África. Convidamos o ministro de relações interiores para passar o dia conosco. Depois do evento, disse que ficou tão impressionado que daria permissão à Rede Miqueias para treinar toda a equipe do sistema judiciário e a polícia.

O CEO da Tearfund UK (Reino Unido) participou de uma reunião da Rede em 2006. Durante esse encontro, ficou tão convencido de que a igreja local era o ponto central que retornou ao Reino Unido e refez a estratégia da Tearfund UK para mobilizar igrejas locais. Nasceu o projeto Tearfund MIC (Mobilização de Igrejas e Comunidades). De acordo com um relatório atual da Tearfund, eles alcançaram 132 mil igrejas.

Em Camarões, um líder sênior foi convidado a participar de nossa Consulta da Miqueias Global em Thun, Suíça. Ele não concordava com a missão integral e sentia que apenas a proclamação era necessária. Não concordava também com mulheres na liderança. Permaneceu conosco, durante uma semana, ouvindo e assistindo. Ele retornou a Camarões um defensor da missão integral e a favor de mulheres em papéis de liderança.

Quais são as expectativas a partir do estabelecimento da MG no Brasil? De que forma igrejas e organizações podem se envolver? A participação individual também é incentivada?
A Miqueias Brasil busca criar uma plataforma de apoio onde a missão integral seja compartilhada, discutida e colocada em prática em conjunto. Almeja ser um movimento pela transformação. Organizações de ajuda humanitária e de missões, igrejas, outras redes, alianças e indivíduos são convidados a caminhar juntos pela visão comum de ver comunidades que vivam a vida em toda a sua plenitude, livres de pobreza, injustiça e conflito. Como um movimento, a Miqueias Brasil precisa ser também um catalisador e uma voz profética no Brasil. Esperamos que aconteçam reuniões itinerantes anualmente e que, aos poucos, cada região desenvolva grupos catalisadores para impactarem cada comunidade. Esperamos que a existência da Miqueias Brasil signifique também que possamos reunir e ouvir a voz do Brasil em encontros regionais e globais de forma efetiva e tornar acessíveis para o resto do mundo os recursos e o aprendizado do Brasil.

O Brasil vive tempos de grande polarização política e isso tem dividido os cristãos e enfraquecido a luta por causas que antes os uniam. A MG certamente já acompanhou experiência semelhante em outros países. Como superar esta fase ou que estratégias utilizar para minimizar os efeitos dessa polarização?
Focando naquilo que nos une. Criando um espaço para ouvir uns aos outros, estudando as Escrituras juntos e agindo juntos em questões importantes. Criando espaços para reconciliação e cura. Com mensagens persistentes que ensinem sobre como Deus nos chama a seguir o Príncipe da Paz. Com oração, humildade e discernindo como trazer “shalom”. Expondo o verdadeiro cerne da discórdia.

Você tem muitos anos de serviço prestados à causa dos mais pobres. O que a levou a se envolver e a dedicar sua vida a isto?
Pessoalmente, quando comecei de fato a ver os pobres e oprimidos, senti-me atraída a trabalhar com eles. À medida que lia a Bíblia, via mais e mais que o coração de Deus ama o pobre e o vulnerável. De fato, é assim que são descritos aqueles chamados justos (Abraão, Jó etc.). Seguir Jesus significa que sempre caminharemos com os necessitados. Estar com os pobres desperta os dons e os frutos do Espírito. É uma mistura. Jean Varnier afirma que a verdadeira maturidade cristã é ter sensibilidade e amor pelos pobres. Amor não é apenas um sentimento. Na verdade, se fosse esse o caso, não cuidaríamos dos pobres, pois não é fácil. Amor é uma decisão acompanhada por ação. O oposto do amor não é o ódio, é o egoísmo. Como podemos seguir aquele que deu tudo se não formos capazes de dar tempo e apoio aos necessitados?

Sua experiência como gerente de desenvolvimento de padrões e certificação e auditoria de contas por cinco anos certamente a tornou mais consciente da necessidade de padrões de excelência e ‘accountability’. Que diagnóstico você faz de organizações cristãs de desenvolvimento com relação a isto?
Alguns anos atrás, visitando alguns projetos na Libéria, fui informada por uma organização humanitária cristã que seus programas eram de alta qualidade por serem cristãos. Claro que deve haver uma correlação entre trabalho de qualidade e ser cristão e autêntico, deve haver uma demonstração de integridade e boa prática. Entretanto, o pressuposto de que ser cristão leva à qualidade é idealista. Se usarmos apenas indicadores qualitativos estabelecidos por organizações de norma humanitária ou organizações de certificação e credenciamento de qualidade, talvez descubramos que muitos de nossos métodos são bons e outros, nem tanto. Claro que devemos procurar sempre melhorar nosso impacto e eficácia para aqueles que buscamos servir.

No entanto, o que precisamos melhorar é o monitoramento e a avaliação à luz do que dizem as Escrituras. Nosso chamado e nossa missão provêm da “missão de Deus”, que é a reconciliação de todas as coisas com ele. Precisamos avaliar nossas atividades, estratégias e planos à luz de toda a mensagem da Bíblia. Certamente, nossa identidade singular deve estar a princípio e sobretudo alinhada com o que Deus nos chamou para fazer, como está descrito em toda a Bíblia, e não apenas em textos isolados para apoiar nossos objetivos.

Tradução: Mariane Lin e Valéria Bacon
Contribuíram com as perguntas: Serguem Silva, Tânia Wuziki, Wilson Costa

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Versão ampliada da entrevista com Sheryl Haw

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Os pioneiros falam sobre Missão Integral

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