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Colunas — Reflexão

Como curar o mundo

A característica mais marcante da mentalidade religiosa evangélica contemporânea é a adesão à cultura de consumo do capitalismo globalizado.

O teólogo chileno Pablo Richard já na década de 1980 afirmava que “o capitalismo moderno torna-se um sistema cada dia mais religioso e piedoso”. Walter Benjamin, filósofo e sociólogo judeu alemão, acredita que “o capitalismo deve ser visto como uma religião, isto é, o capitalismo está essencialmente a serviço da resolução das mesmas preocupações, aflições e inquietações a que outrora as assim chamadas religiões quiseram oferecer resposta”. Afirma de modo categórico que, em razão de sua estrutura e sua lógica funcional, “o capitalismo é um fenômeno essencialmente religioso”.

A felicidade, em termos de ampliação de prazer e ganhos individuais, tornou-se o maior propósito da vida humana na cultura ocidental. Acrescentamos um décimo primeiro mandamento ao Decálogo: “Serás feliz”, que pode ser traduzido como: “Realizarás teu pleno potencial, satisfarás todos os teus desejos, serás bem-sucedido em tudo”. A identidade cristã foi redefinida. As entrelinhas da cultura religiosa evangélica em sua face mais hegemônica sugerem que ser cristão é ter o poder de Deus como vantagem competitiva e fator determinante de sucesso em qualquer empreendimento pessoal em qualquer área da vida. Essa subcultura religiosa alinhada ao espírito de época do neoliberalismo econômico implica o surgimento de um contingente de pessoas individualistas, hedonistas e culpadas do pecado do “amor ao dinheiro”.

Desde os primeiros anos da década de 1980 participo de eventos para pastores e líderes. Quase sem exceção, todos têm como propósito divulgar métodos, estratégias e ferramentas para o crescimento de igrejas. Sendo verdadeiro que uma grande massa de fiéis acorre aos templos em busca de respostas para “como fazer a minha vida dar certo”, “como alcançar o sucesso” e “como ficar rico”, não se admira que pastores e líderes se inscrevam em congressos e conferências em busca de segredos para “como fazer minha igreja funcionar” para pessoas interessadas em “como fazer minha vida dar certo”.

Em dezembro de 1991 me deparei com uma matéria de página inteira no jornal ‘Folha de São Paulo’ apresentando a Willow Creek Community Church como um fenômeno do protestantismo norte-americano. O título era sugestivo: “Pastor monta mega igreja yuppie nos EUA”. O primeiro parágrafo dizia: “Cristianismo é um produto altamente vendável desde que seja oferecido de forma atraente, não ameaçadora e sem controvérsias a um público consumidor ávido por alimento espiritual. O marketing religioso nem precisa recorrer à manipulação e demagogia dos tele-evangelistas para atrair bens. Esta é a mensagem indolor e asséptica da mega igreja Willow Creek, que cai sob medida para o próspero subúrbio de South Barrington, a 50 quilômetros do centro de Chicago”. Vale a pena sublinhar expressões como “produto altamente vendável”, “atraente, não ameaçadora e sem controvérsias”, “público consumidor” e “mensagem indolor”. Terminei de ler a reportagem e decidi fazer uma igreja semelhante em São Paulo.

Naquele momento não fui capaz de perceber que a Willow Creek que resolvi empreender era uma abstração, fruto da minha imaginação, baseada apenas em uma folha de jornal. Somente em 1997 estive pela primeira vez no The Leadership Summit. Olhando para trás, entretanto, não tenho dúvidas de que o espírito por trás do modelo que eu tinha em mente se resumia a “como fazer minha igreja funcionar” para pessoas interessadas em “como fazer minha vida dar certo”.

Também me lembro de outra referência de igreja publicada na ‘Folha de São Paulo’. A coluna assinada pelo publicitário Alex Periscinoto. Com data de setembro de 1991, tinha como título: “Um ótimo produto em um péssimo lugar”. Apresentava um case de propaganda e marketing e reproduzia um anúncio publicado pela Metro Baptist Church em outdoors da cidade de Nova York.

O anúncio trazia como título: “Desabrigados no fim do quarteirão. Prostitutas na esquina. Traficantes de crack do outro lado da rua. Que ótimo lugar para uma igreja”. Seguia com o seguinte texto: “Jesus não frequentava clubes de campo, teatros ou restaurantes caros, ele sempre ia aonde havia carências. As mesmas que ocorrem soltas na cidade de Nova York hoje em dia. Carências como seres humanos famintos e com frio, dormindo nas grades dos exaustores do metrô por causa do ar quente. Carências como pessoas capturadas na teia do abuso e uso de drogas. Ou carências como homens, mulheres e crianças vendendo seus preciosos corpos por uma migalha de comida, um abrigo, ou simplesmente um lugar qualquer para passar a noite. Conhecemos essas carências tão bem porque as vemos todos os dias. Nossa igreja fica bem no centro da Clinton South, lugar mais conhecido como Cozinha do Inferno. Bem, agora Deus está na Cozinha do Inferno. Nossos ministros oferecem comida e roupas, enquanto nossa congregação oferece amor e apoio. Gostamos de pensar que é isso que Jesus faria. Visualizamos o dia em que nossa vizinhança mudará, de estar cheia de luta para estar cheia de amor. Só nesse dia nós mudaremos”.

Depois de vinte anos, em junho de 2017, estou novamente sentado no auditório da Willow Creek Church. Dessa vez para participar da The Justice Conference, parte de um movimento global a respeito de direitos humanos e justiça social. Recebi o honroso convite para falar a partir da América Latina e compartilhar a hermenêutica, o método teológico e os princípios que nortearam minha trajetória como pastor de uma igreja local na cidade de São Paulo. Tenho consciência de que o que me traz de volta a este auditório não é a reportagem a respeito de uma “mega igreja yuppie no subúrbio de Chicago”, mas a “igreja na Cozinha do Inferno em Nova York”. Agradeço a Deus porque o caminho que percorri não foi o de “como fazer minha igreja funcionar” para pessoas interessadas em “como fazer minha vida dar certo”. O que me orientou em todos esses anos como pastor foi a pretensiosa paixão por encontrar caminhos a respeito de “como curar o mundo”.

Meu norte não foi a teologia da prosperidade nem o movimento de crescimento de igrejas. O ponteiro da minha bússola apontou para o movimento da missão integral e a teologia da justiça. A estrada é longa, e caminhei apenas um pouco. Mas não me arrependo de ter escolhido a trilha menos percorrida.

• Ed René Kivitz é pastor da Igreja Batista de Água Branca, em São Paulo, SP. É mestre em ciências da religião e autor de, entre outros, “O Livro Mais Mal-Humorado da Bíblia”. facebook.com/edrenekivitz

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