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Colunas — História

A Reforma -- improvável e imprescindível

Quando se consideram as circunstâncias da época, a Reforma Protestante foi um evento que tinha tudo para não chegar a bom termo. Certamente havia um grande anseio por mudanças na igreja tradicional: por muito tempo se ouvia na Europa o clamor por uma “reforma na cabeça e nos membros”. Governantes e cidadãos sentiam insatisfação e mesmo indignação com a situação reinante. Porém, uma coisa era desejar mudanças, outra bem diferente era efetivá-las. Havia forças poderosas que militavam contra isso. Por essa razão, Martinho Lutero e seus colegas ficaram surpresos com os rumos e a rapidez dos acontecimentos iniciais do seu movimento.

Os reformadores se insurgiram contra um “status quo” que já perdurava havia mais de um milênio. Desde a época do imperador Constantino, a igreja era uma instituição privilegiada, influente e poderosa. Sua ascendência na sociedade era incontestável, tanto no âmbito religioso quanto no secular. No final da Idade Média, existia na Europa o fenômeno conhecido como “cristandade”, uma situação de forte integração entre a igreja e o estado, grande uniformidade religiosa e plena hegemonia da Igreja Católica Romana. Nesse contexto, os que ousavam questionar a autoridade eclesiástica encontravam implacável oposição. São exemplos disso os cátaros ou albigenses, uma seita sincretista aniquilada por uma cruzada no século 13, e o sacerdote tcheco Jan Hus, condenado pelo Concílio de Constança e executado na fogueira em 1415.

Por alguns anos, o destino de Lutero parecia precário. A partir da publicação das “Noventa e Cinco Teses”, ele se viu diante de constantes ameaças. O momento mais atemorizante foi a Dieta de Worms, em 1521, na qual os poderes constituídos -- os nobres, os prelados e o imperador Carlos V -- o intimaram a renegar as suas ideias. Diante da sua postura intransigente, Lutero foi formalmente condenado como herege. Agora ele poderia ser morto a qualquer momento. Foi então que interveio o seu príncipe eleitor, Frederico, o Sábio, cujos soldados o levaram para um esconderijo seguro no Castelo de Wartburg.

Bem diferente foi a sorte dos reformados na França, onde as perseguições e ações militares tiveram um efeito devastador contra o novo movimento. O episódio mais extremo do tipo de reações que a Reforma podia sofrer foi o massacre iniciado em 24 de agosto de 1572, o Dia de São Bartolomeu. Após o brutal assassinato do almirante Gaspard de Coligny, o mais destacado dos protestantes franceses, milhares de huguenotes foram trucidados em Paris e no interior da França. O mesmo tipo de intolerância destroçou o protestantismo nascente em países como Espanha, Bélgica e Polônia.

No entanto, apesar de todas as probabilidades contrárias, a Reforma prosperou. Não foi simplesmente por causa de fatores culturais, políticos e sociais que ela triunfou. Nem mesmo em razão da personalidade dos reformadores, homens que tinham grandes limitações, verdadeiros vasos de barro na linguagem do apóstolo Paulo. Seu êxito resultou das ideias revolucionárias que defenderam, a começar do conceito de liberdade, liberdade da opressão eclesiástica, liberdade para estudar a Palavra de Deus, liberdade para adorar a Deus de acordo com os ditames da própria consciência. Lutero trabalhou esse conceito em seu famoso escrito de 1520 “A Liberdade do Cristão”, no qual argumenta que essa liberdade é acompanhada de forte senso de dever.

Outra ênfase decisiva que contribuiu para a permanência da Reforma foi a centralidade da Escritura. O conceito radical de que a Bíblia, entendida como a revelação de Deus escrita, deveria ser a norma suprema para a fé e a vida cristã, o critério mediante o qual deveriam ser avaliadas todas as convicções e práticas da igreja, teve consequências avassaladoras e abrangentes, afetando os mais diferentes aspectos da existência individual e coletiva.

Todavia, a contribuição mais fundamental da Reforma foi a sua reconsideração, à luz do Novo Testamento, do relacionamento das pessoas com Deus, do entendimento da própria salvação, em especial o verdadeiro papel dos diferentes personagens envolvidos nessa questão. O compromisso bíblico dos reformadores os levou a dar toda ênfase à iniciativa e supremacia divina na obra de redenção e reconciliação, mediada exclusivamente pela obra redentora de Cristo na cruz. O ser humano, visto como totalmente incapaz e alienado de Deus, só poderia ser salvo ao se apropriar da graça salvadora por meio da fé, vista ela mesma como uma dádiva do alto. Essas verdades foram consagradas na fórmula “justificação pela graça mediante a fé somente”, que foi tão importante para Lutero e os demais reformadores.

As chamadas “boas obras”, ou seja, os atos piedosos e virtuosos praticados pelos cristãos, foram colocadas em seu correto lugar atribuído pela Escritura, isto é, como valiosos frutos da salvação, não como condições para ela. Longe de ser uma experiência individualista, esse processo foi fortemente inserido dentro de um contexto eclesiológico e social. A salvação tinha consequências para a comunidade da fé e a comunidade humana mais ampla. As implicações sociais dos princípios reformados foram vastas e duradouras.

Passados 500 anos, a Reforma parece ter fracassado em muitos lugares. Nos países de origem, as igrejas protestantes estão enfraquecidas, tendo se rendido a um ambiente cultural cético, racionalista e secularizante. No Terceiro Mundo, muitas das chamadas “igrejas jovens”, embora dinâmicas em alguns aspectos, têm adotado posturas teológicas e comportamentais que estão em desarmonia com os valores da Reforma. Todavia, as verdades que abalaram o mundo do século 16 permanecem um fator de renovação e vitalidade para um incontável número de cristãos. Suas implicações mais profundas e transformadoras continuarão produzindo ricos benefícios geração após geração. Por tudo isso, esse grande marco histórico merece celebração e profunda gratidão a Deus.

• Alderi Souza de Matos é doutor em história da igreja pela Universidade de Boston e professor no Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper. É autor de "Erasmo Braga, o Protestantismo e a Sociedade Brasileira", A Caminhada Cristã na História e "Fundamentos da Teologia Histórica". Artigos de sua autoria estão disponíveis em http://cpaj.mackenzie.br/historiadaigreja.php.

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