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Colunas — Ética

A misericórdia de Deus nos alcançou. A nossa vai tocar em quem?

Em 1808 a família real portuguesa desembarcou no Rio de Janeiro fugindo do cerco de Napoleão Bonaparte na Europa. A corte acompanhou D. João VI na travessia do oceano. Uma questão prática de política pública de habitação: onde acomodar os nobres? A prepotência real foi sentida pelos nativos. A inscrição das letras PR nas portas significava que os proprietários das residências “premiadas” estavam despejados. Casas confiscadas pelo Príncipe Regente para acomodar a corte portuguesa. Os brasileiros invadidos perderam a casa, mas não perderam a piada: PR não eram as iniciais de Príncipe Regente, mas de “Ponha na Rua”. O tão basilar direito à propriedade só foi reconhecido na primeira Constituição, em 1824.1

A profecia de Isaías anuncia que as cidades assoladas voltarão a ser habitadas. O exílio estava com os seus dias contados: “Alonga as tuas cordas e firma bem as tuas estacas” (Is 54.1-3). Voltar para Sião para reconstruir a cidade a partir do “alargamento” da tenda.

Alarga o espaço da tua tenda na chave de leitura “individualista”: torna-te um latifundiário e na tua riqueza comprova o poder de Deus.

Alarga o espaço da tua tenda na chave de leitura da “instituição religiosa”: faze crescer a igreja e institui a ditadura da maioria.

Alarga o espaço da tua tenda na chave de leitura “diabólica”: sê a pessoa mais lúcida da cidade, expande-se e impõe-se, pois isso fará bem a todos.

Tenho mais medo dos falsos humildes do que dos “sinceramente” arrogantes.

Alarga o espaço da tua tenda na chave de leitura do profeta Isaías: alarga a tenda para acolher quem precisa.

Estava em questão a ampliação da misericórdia de Deus via povo de Israel. Sabemos que os israelitas fizeram dos outros povos os seus inimigos e contavam com Deus para destruí-los. Esse foi o grande desvio de rota que os levou ao cativeiro. Deus agiu com misericórdia em relação àqueles que viraram as costas para ele. A questão central retratada neste texto não é a ocupação territorial, mas a ampliação da misericórdia:

"Por breve momento te deixei, mas com grandes misericórdias torno a acolher-te; num ímpeto de indignação, escondi de ti a minha face por um momento; mas com misericórdia eterna me compadeço de ti, diz o Senhor, o teu Redentor" (Is 54.7-8).

A volta para Sião era a ampliação da misericórdia de Deus a favor de um povo distraído que, por muito tempo, cultivou um plano de poder para submeter os outros povos.

O Deus misericordioso nos constrange a elaborarmos planos novos para ampliar o nosso serviço a favor dos outros. Inclua pessoas, traga os excluídos para dentro. A misericórdia de Deus nos alcançou. A nossa vai tocar em quem?

O erro de Israel ao substituir a misericórdia pela arrogância pode ser hoje o comportamento da Igreja. Alguns preferem enfatizar a condição de povo eleito simplesmente para justificar relações de desigualdades.

Alargar o espaço da tua tenda não pode ser reduzido a bater a laje do templo. Vamos acolher os solitários, buscar os marginalizados, abraçar os aflitos, aconselhar os confusos, marchar com os sem-teto, dividir o pão com os famintos e cantar acalantos para os oprimidos.

Enfim, em relação aos outros, seja justo!

Fundamentalistas religiosos, na sua arrogância, reduzem Deus a uma perspectiva de vida geralmente embalada em uma ideologia. Decorre desse comportamento uma total impaciência com os outros. Os mesmos se veem muito acima da comunidade. Crise pequeno-burguesa maquiada de zelo piedoso. Agem como se o participar da comunidade eclesiástica fosse uma concessão. Não sabem acolher, só aprenderam a depreciar.

Aprendi o poema de Paulo Leminski no auge do meu idealismo juvenil. Recortei e colei na agenda. O papel ficou bem amarelado, mas Leminski ganhou cores novas recentemente:

eu queria tanto
ser um poeta maldito
a massa sofrendo
enquanto eu profundo medito
eu queria tanto ser um poeta social
rosto queimado
pelo hálito das multidões
em vez
olha eu aqui
pondo sal
nesta sopa rala
que mal vai dar para dois.

Que a sensibilidade dos poetas nos desintoxique do egoísmo pragmático. Perceba como os profetas e poetas possuem sensibilidades aguçadas. Clamam por realidades novas, combatem com palavras e jogam a vida nesses projetos sociais arriscados. Sujeitos generosos que sentem “as dores do mundo”. A questão não é “ter razão”, mas acolher quem perdeu os elementos mais rudimentares do que se aproxima do humano.

O poema do profeta Isaías avisa que a promessa de Deus é engrossar a nossa sopa se a nossa intenção for dividi-la. É natural que quem foi alcançado pela misericórdia faça o gesto de acolher quem Deus ama.

“Porque os montes se retirarão, e os outeiros serão removidos; mas a minha misericórdia não se apartará de ti, e a aliança da minha paz não será removida, diz o Senhor, que se compadece de ti” (Is 54.10).

Monja Coen compartilhou uma história linda. Segundo ela, Dom Hélder Câmara acordou de madrugada com os ruídos que vinham da cozinha paroquial. Resolveu descer e verificar. Deu de cara com um ladrão. Sem assombro disse: “Ah! Assim como eu, você tem fome durante a noite. Vamos fazer uma omelete”. Sentaram-se à mesa e o que era para causar espanto tornou-se acolhimento. Após comerem juntos, Dom Hélder providenciou uma bolsa com alimentos. Dizem que o homem reencontrou a dignidade perdida e teve Dom Hélder como inspiração e referência.2

Alarga o espaço da tua tenda!

Uma das melhores definições de ética que conheço diz que ética é a arte do encontro. É preciso saber viver, ou melhor, é necessário aprender a conviver. No que somos instigados pela profecia, ética é a capacidade de acolher tanto o filho como os refugiados.

Notas

1. FALCÃO, Joaquim. Constituição de 1988: redemocratização. In: ABREU, Alzira Alves, org. Caminho da cidadania. Rio de Janeiro: FGV, 2009. p.17-20.
2. COEN, Monja. 108 contos e parábolas orientais. São Paulo: Planeta, 2015. p.122.

• Valdemar Figueredo Filho é diretor e editor do "Instituto Mosaico".

*Excepcionalmente o colunista Paul Freston não escreve nesta edição (367).

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