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Colunas — História

Tempos de desalento, tempos de reflexão

Os brasileiros vivem dias de pessimismo e frustração com o que ocorre no país. Não se trata exatamente de uma novidade. Ao longo de mais de um século, a república brasileira tem experimentado uma série quase ininterrupta de crises debilitantes. Porém, é claro que somos mais afetados pelo que ocorre no presente. Um governo sem grande credibilidade tenta promover reformas necessárias, mas impopulares. A Operação Lava Jato se eterniza e contribui para incertezas na vida política e econômica. A importante luta contra a corrupção tem revelado a magnitude dessa chaga maligna na vida pública e empresarial. Entretanto, a cultura da delação, muitas vezes não acompanhada de provas concretas, levanta sérios questionamentos éticos. O poder legislativo, acuado, não tem condições para se dedicar à sua função precípua -- a busca de soluções para os graves problemas nacionais.

Entre esses problemas, avulta a realidade das tremendas desigualdades socioeconômicas. O fosso entre pobres e ricos só parece aumentar. Milhões de brasileiros sobrevivem à custa do salário mínimo ou do Bolsa Família, enquanto que no próprio funcionalismo público se multiplicam os supersalários e as mordomias de toda sorte. O problema da segurança pública se tornou apavorante em muitas regiões. Rebeliões em presídios, lutas de facções criminosas, mortes por balas perdidas, incêndios de ônibus, assaltos a bancos, arrastões e outros males se tornaram rotineiros na vida de inúmeros brasileiros. O sistema de saúde pública é outra tragédia nacional. Tudo isso gera desalento, desesperança, decepção com as instituições, bem como a tentação de buscar soluções por vias radicais e ideológicas ou demagógicas e populistas.

A história universal é pródiga de exemplos dessa problemática, a começar dos tempos bíblicos. A trajetória do antigo Israel foi uma sucessão de traumas nacionais causados por reis opressores, guerras entre as tribos, invasão de outros povos e ameaças de extermínio, sem contar os descaminhos do próprio povo. Essa história com frequência é dividida em períodos de predomínio das grandes potências invasoras: assírios, babilônios, persas, macedônios, romanos. Os salmos e os profetas refletem as angústias e questionamentos do povo de Deus naqueles tempos de aflição coletiva. Quem não se comove com as palavras de Jeremias: “Oh! Se eu pudesse consolar-me na minha tristeza! O meu coração desfalece dentro em mim [...] Passou a sega, findou o verão, e nós não estamos salvos. Estou quebrantado pela ferida da filha do meu povo; estou de luto; o espanto se apoderou de mim” (8.18, 20-21).

Ao longo dos séculos, os cristãos têm adotado atitudes bastante diversas em relação aos problemas da sociedade. Uma opção sempre atraente é a fuga e a alienação: o mundo jaz no Maligno, o ser humano é irremediavelmente pecador e não se pode fazer muito quanto a isso. Essa foi, por exemplo, a posição dos anabatistas, ou “irmãos suíços”, no século 16. Preocupados em constituir comunidades de crentes zelosos, nos moldes do Novo Testamento, e comprometidos com um pacifismo radical, eles deixaram de confiar no Estado e suas instituições. Para os anabatistas, um cristão não devia ter nenhum envolvimento político, seja ocupando funções públicas, seja participando da defesa nacional. Por fim, no desejo de preservar sua fé e sua identidade, muitos deles chegaram a defender o completo afastamento da sociedade, vivendo em comunidades agrícolas.

Existe também a atitude oposta, ou seja, de excessiva confiança na habilidade do Estado e da sociedade em produzir o bem-estar coletivo. Um exemplo disso é o Iluminismo do século 18, com sua crença inabalável no progresso da humanidade. Esse espírito contagiou muitos cristãos da época, como o notável teólogo e pregador Jonathan Edwards, que abraçou o conceito conhecido como pós-milenismo. A ideia era que, mediante a pregação do evangelho e penetração dos valores bíblicos na sociedade, haveria crescente paz e prosperidade, até a volta do Senhor. O movimento do Evangelho Social, do final do século 19 e início do século 20, também partilhava dessa noção otimista e triunfante acerca da criação de uma sociedade justa e fraterna sob a influência da mensagem cristã. Seus proponentes, como Walter Rauschenbusch, falavam na redenção da ordem social e na implantação do reino de Deus na terra.

Uma terceira via é exemplificada por João Calvino e a tradição reformada. O reformador franco-suíço valorizava o Estado e a função pública como algo designado por Deus com vistas ao bem-comum. Ele e Lutero são denominados reformadores “magisteriais” porque trabalharam em estreita cooperação com os magistrados, os governantes civis. Porém, ao contrário de Lutero, que atribuiu enorme autoridade e autonomia aos líderes políticos, Calvino entendia que o seu poder é relativo e que a igreja tem o direito profético de exortá-los quanto aos seus deveres e até mesmo de censurá-los quanto aos seus desvios e omissões. Foi o que ele fez continuamente durante o seu longo ministério em Genebra.

Os cristãos, e todos os cidadãos, precisam agir com sobriedade e equilíbrio nos dias de incertezas que atravessamos, dizendo “não” tanto ao pessimismo derrotista quanto ao otimismo ingênuo. Não devemos imaginar que a pátria brasileira será salva por programas políticos e ideológicos, e muito menos por lideranças carismáticas e propostas messiânicas. “A ira do homem não produz a justiça de Deus” (Tg 1.20). Ainda assim, há muito de construtivo que se pode fazer: lutar pelo pleno exercício da democracia e o funcionamento regular das instituições, reivindicar com firmeza a transparência, probidade e eficiência na administração pública, apoiar as iniciativas voltadas para a equidade, a paz e a justiça social. E, acima de tudo, orar incessantemente para que, depois desses tempos de desalento, nos venham “tempos de refrigério” (At 3.20) da parte do Senhor.

• Alderi Souza de Matos é doutor em história da igreja pela Universidade de Boston e professor no Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper. É autor de "Erasmo Braga, o Protestantismo e a Sociedade Brasileira", A Caminhada Cristã na História e "Fundamentos da Teologia Histórica". Artigos de sua autoria estão disponíveis em http://cpaj.mackenzie.br/historiadaigreja.php.

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