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As Escrituras, ontem e hoje, como o centro da Reforma

Do ponto de vista teológico, a Reforma Protestante do século 16, em síntese, tratou de três questões fundamentais: Jesus é o supremo cabeça da Igreja (contra a autoridade papal); a Bíblia como Palavra de Deus é autoridade sobre o cristão (contra a tradição); e a salvação é pela fé (contra as indulgências). Dentre esses vários aspectos, o que mais me chama a atenção é o impacto da leitura e exposição das Escrituras e o seu papel na transformação de indivíduos, da igreja e da sociedade.

Mas essa herança não foi invenção doutrinária dos reformadores. Antes deles, durante séculos, a leitura das Escrituras foi determinante para o desencadeamento de transformações. E, ainda antes da era da igreja, encontramos na própria Bíblia relatos de como a manifestação da Palavra de Deus provocou mudanças e reformas importantes.

Deparo-me com o texto de 1 Samuel 3, que retrata a situação religiosa do povo de Israel por volta do ano de 1050 antes de Cristo. No início do capítulo se diz que “a palavra do Senhor era muito rara e as visões não eram frequentes” (1Sm 3.1). O sacerdote Eli não cumpria dignamente sua função. Seus filhos não seguiam seu exemplo. O povo se afastava de Deus. Tudo indica que aquele ciclo vicioso do período dos juízes não tinha perspectiva de encerrar e que Eli seria mais um juiz como os outros. Contudo, no final do capítulo, somos informados que “o Senhor se manifestava a Samuel pela sua palavra” e que todo o Israel reconheceu Samuel como profeta (1Sm 3.20-21). Como percebemos na narrativa subsequente do livro de Samuel, essa mudança teve um impacto tremendo na vida do povo de Israel e, rompendo aquele ciclo dos juízes, preparou para o estabelecimento da dinastia davídica representando uma transição radical na forma de liderança da nação.

Mas o que exatamente acontece entre o início e o fim do capítulo 3 de Samuel que desencadeia tão significativa transformação? Deus se manifesta a Samuel e revela o seu propósito ao jovem aprendiz de sacerdote. A situação começa a mudar na sociedade a partir da liderança de Samuel e seu papel profético como portador da palavra do Senhor.

Assim como no período de Samuel, encontramos outros momentos na Bíblia em que a primazia da palavra tem um impacto transformador na nação. De certo modo, a própria formação do povo de Israel se deve pela manifestação da palavra de Deus. Primeiro, quando Deus fala com Abraão e o chama para sair de sua terra, depois lhe aparece e promete a terra (Gn 12.1, 5). Mais tarde Moisés recebe do Senhor a lei e as instruções que dão origem à organização do povo de Israel. No período da monarquia, as reformas de Josias se dão a partir da descoberta e da leitura do livro da lei (2Rs 22.8--23.14). Depois do exílio, foi a restauração da lei mediada por Esdras que deu forma à vida, organização e culto do povo, dando origem assim ao judaísmo. E o próprio Jesus como Palavra que se fez carne é revelação mais direta de Deus à humanidade. A carta aos Hebreus nos lembra disso quando declara que no passado Deus falou de muitas maneiras aos pais pelos profetas e “nestes dias, porém, ele nos falou pelo Filho [...] Ele é o resplendor da sua glória e a representação exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder” (Hb 1.2-3).

A Reforma do século 16 e os avivamentos não foram diferentes. Embora nenhuma das 95 teses de Lutero trate especificamente da autoridade das Escrituras, antes, em seu conjunto, trate objetivamente das indulgências e do abuso da autoridade papal sobre o perdão de pecados, a autoridade das Escrituras se manifesta em toda doutrina e exposição bíblica desenvolvida pelos reformadores. Muitos deles eram linguistas e se dedicaram ao estudo minucioso do texto bíblico nas línguas originais. O próprio Lutero se dedicou à tradução da Bíblia para o alemão a fim de que todas as pessoas, e não só o clero, pudessem ler a Bíblia. Talvez essa seja a maior evidência da centralidade das Escrituras na Reforma, pois, mais do que uma doutrina essencialmente bíblica, a Reforma introduz uma nova forma e um novo princípio de leitura da Bíblia que são determinantes na transformação de indivíduos e da sociedade.

Na Idade Média a leitura da Bíblia era limitada por, pelo menos, quatro princípios: a “tradução” oficial da igreja (isto é, a Vulgata), a “tradição” da igreja, as “decisões” dos concílios e a “autoridade papal”.1 A leitura correta devia se conformar a esses princípios. Os reformadores, ao contrário, insistiram em oferecer uma tradução vernácula da Bíblia acessível a todo leitor daquela língua; estabeleceram que não era a igreja e sua tradição que interpretavam a Bíblia, mas a Bíblia que devia confrontar a tradição; sustentaram que a autoridade da Bíblia está acima das decisões dos concílios e, naturalmente, da autoridade papal.

A supremacia das Escrituras foi tão significativa para o movimento reformado que, das diversas confissões que surgiram, duas delas (Confissão de Fé de Westminster, 1640, e a Segunda Confissão de Fé Helvética, 1562) tratam em seu primeiro capítulo não de Deus ou Cristo, como, por exemplo, a Confissão de Augsburgo (1530), mas das Escrituras Sagradas.

Até os dias de hoje o movimento reformado evangelístico e missionário se dedica muito à tradução e distribuição de Bíblias, pois acredita que pela leitura da Bíblia, sem a mediação de autoridade eclesiástica, o indivíduo poderá encontrar Jesus e a salvação.

Nota

1. Berkhof. Princípios de interpretação bíblica. São Paulo: Cultura Cristã, 2004. p. 47.

• William Lane
é pastor presbiteriano, doutor em Antigo Testamento e diretor acadêmico da Faculdade Teológica Sul-Americana, em Londrina, PR.

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Sola Gratia, Solus Christus, Sola Fide e Sola Scriptura

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