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A Reforma contra a Reforma

Não foi somente a Contrarreforma da Igreja Católica que representou um movimento de oposição aos desdobramentos do movimento de Lutero. De dentro e para dentro, as contradições não foram poucas, afetando as dimensões sociais, econômicas e políticas para fora do conjunto da sociedade. Assim, podemos dizer que a Reforma agiu “contra” a própria Reforma, independente da ação oficializada pela Igreja Católica Romana a partir de Trento.

Essa afirmação se faz necessária por causa da tendência à “heroicização” e à “romantização” de um evento histórico com seus personagens, sem que se percebam os conflitos e as contradições. E com o movimento reformado não foi diferente. Ao falarmos dos seus 500 anos, não podemos nos esquecer de que se tratou de um evento humano em sua complexidade e limitações, sempre “humanas”. Contudo, nosso olhar se volta para o que houve de humano enquanto expressão da glória de Deus e o que houve de humano enquanto expressão da queda.

Somente alguns macroprocessos não merecem ser comemorados e às vezes são confundidos com aquilo que foi um sopro renovador do movimento reformado. Foram ações, posturas e mentalidades que ainda hoje se reproduzem num evangelicalismo cada vez mais distante do “princípio protestante”, como diria Paul Tillich.

Faremos um exercício de ver o tempo dos acontecimentos e das pessoas, a partir de um olhar que relaciona a “crítica” e a “compreensão”, não um olhar de julgamento, pois quem irá julgar a história não somos nós. De modo geral e pendente de uma análise mais aprofundada, vejamos a seguir os processos históricos, teológicos e religiosos que foram negativos nos desdobramentos do ideal reformador.

1. A aliança com os poderes políticos. O contexto político na Alemanha do século 16 impôs escolhas a Lutero e aos seus seguidores. Os interesses políticos e econômicos faziam grande pressão, imbricados aos acontecimentos que se tornaram quase sem controle depois das 95 teses difundidas. A aliança com a aristocracia dos príncipes alemães garantiu a continuação da Reforma, mas custou o preço de tornarem o movimento cativo aos seus interesses.

2. A violência contra os camponeses. Um dos desdobramentos dessa aliança foi o massacre dos camponeses que se apropriaram dos pressupostos da Reforma a partir de uma perspectiva do “homem comum”. A reivindicação pela distribuição das terras e o enfrentamento desigual com as forças da nobreza resultaram num conflito de extrema violência. O misticismo, a ingenuidade e o radicalismo custaram caro aos anabatistas, o que não justifica o seu massacre. A Reforma, neste sentido, não foi além a fim de converter a desigualdade de classes em justiça social. Lutero apegou-se demais à ordem.

3. A intolerância com as diferenças. Católicos, anabatistas, hereges, judeus, muçulmanos, ciganos, feiticeiras, bruxas e outras categorias foram alvo da intolerância protestante. Embora o protestantismo tenha proporcionado um discurso de diálogo e de tolerância, as atitudes de muitos recaíram na perseguição e na lógica da Inquisição. Assim foi Calvino com Miguel Serveto. Esse tipo de atitude alimenta-se do medo do outro diferente, mas o medo não é “protestante”.

4. As guerras religiosas. Após o inconciliável conflito entre protestantes e católicos, com a reação contrarreformada em Trento, deu-se na Europa um período interno de conflitos religiosos. Estes foram “resolvidos” somente pela via não religiosa, fortalecendo a ideia de um Estado com regras e leis civis sem a intromissão da Igreja ou da religião. A religião cristã demonstrou que não conseguiu fazer a paz. A política, então, conquistou esse papel secularizador. No entanto, a sua paz foi e sempre será resultado da negociação, não da reconciliação.

5. O denominacionalismo. A formação dos estados nacionais e as divisões territoriais, com seus credos e suas verdades, de alguma forma influenciaram o surgimento das denominações. Ligadas aos conflitos políticos, elas legaram o ideal de serem, eclesiasticamente, a expressão única da verdade, da teologia, da liturgia e da tradição. Ligadas ou não ao Estado, transformaram-se em aparelhos de controle racionalizado do pensamento teológico e das práticas. Se a política se emancipou da religião, esta politizou as suas relações internas, configurando-se em estruturas de poder.

6. A subordinação ao projeto colonizador europeu. Este processo ocorreu tanto com o protestantismo quanto com o catolicismo. Havia a ideia da expansão da religião cristã desde a aliança com o estado na construção de uma “cristandade”, extensão do “Corpus Christianum” medieval. Daí a missão ter sido entendida e praticada como “conquista”. As cristandades foram erigidas pelos braços tensionados entre a Igreja e o Estado. Mais tarde, em fins do século 18 até os nossos dias, a subordinação se deu ao projeto do sistema-mundo do capitalismo.

As Escrituras, libertas do cativeiro da Igreja e das elites, foram universalmente libertadoras para a verdade da fé que justifica. No entanto, tornaram-se também instrumento de justificação da dominação europeia. Isso aconteceu nas Américas, nas Índias e nas Áfricas. Poucas foram as vozes que se levantaram para denunciar e decifrar esses usos políticos camuflados como “cristãos”.

Porém, em cada um desses macroprocessos ocorreram clivagens nas suas contradições. A história também é testemunha da Reforma “a favor” da Reforma: a missão como serviço, as ações de misericórdia aos pobres, os avivamentos, a simplicidade litúrgica, a solidariedade de compartilhar a Palavra e o pão, o acolhimento da diversidade religiosa como nos morávios, a coragem de pensar e dialogar com o mundo e a educação como preparação das pessoas para servirem a toda a comunidade.

• Lyndon de Araújo Santos é historiador, professor universitário e pastor da Igreja Evangélica Congregacional em São Luís, MA. Faz parte da Fraternidade Teológica Latino-americana -- Setor Brasil (FTL-B).

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