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Colunas — História

O perigo das boas intenções

Alderi Souza de Matos

Três ilustrações históricas de como boas intenções tiveram consequências desastrosas

Os ditados ou aforismos expressam de maneira perspicaz conceitos valiosos da sabedoria universal. Um deles é “o inferno está cheio de boas intenções”, ou, numa forma alternativa, “o caminho do inferno está pavimentado de boas intenções”. A autoria desse adágio tem sido atribuída a diferentes personagens, como o místico medieval Bernardo de Claraval, o literato inglês do século 18 Samuel Johnson e até mesmo o teórico do socialismo Karl Marx. A ideia é que as boas intenções por si sós, não acompanhadas de outras considerações importantes, não somente deixam de alcançar os seus objetivos, mas também podem até mesmo levar a consequências desastrosas.

A história da igreja é pródiga em ilustrações dessa dolorosa realidade. Vale mencionar três delas encontradas no cristianismo antigo. A primeira está associada a Márcion, ou Marcião, um rico indivíduo de Sinope, no litoral norte da Ásia Menor, junto ao mar Negro. Pouco antes do ano 140, ele chegou a Roma e começou a difundir as suas ideias religiosas. À primeira vista, sua mensagem era muito atraente -- ele anunciava um Deus radicalmente bom, misericordioso e perdoador. Suas intenções pareciam as melhores possíveis. Porém, logo as autoridades da igreja perceberam que por trás desse discurso sedutor se escondia uma terrível heresia. Segundo ele, o Deus verdadeiro não possuía o atributo da justiça, da retribuição. Ele não podia fazer outra coisa senão amar e perdoar, mesmo os que se mantinham incrédulos e rebeldes contra ele.

Com isso, Márcion estabeleceu uma ruptura radical entre judaísmo e cristianismo, entre o Antigo e o Novo Testamento, entre o Deus de Israel e o Pai de Jesus Cristo. Para ele, a antiga dispensação estava voltada para a lei, a ira e a punição. Jeová, o Deus dos judeus, era uma divindade inferior que criou o mundo material e o governava. O Deus revelado em Cristo, desconhecido até então, era o ser supremo de graça, amor e redenção. Compreensivelmente, Márcion formou um cânon bíblico do qual estavam ausentes todo o Antigo Testamento e metade do futuro Novo Testamento. Ele só manteve o evangelho de Lucas e as cartas de Paulo às igrejas, mesmo assim expurgadas de suas referências à velha dispensação. Sua intenção inicial parecia louvável -- dar uma resposta ao problema do mal --, mas o resultado foi totalmente condenável.

O segundo exemplo de boa intenção malsucedida nos vem do início do século 4º com a pessoa de Ário, um presbítero da igreja de Alexandria, no Egito. Uma posição doutrinária comum e inadequada naquela época era o chamado modalismo, ou sabelianismo, segundo o qual não havia distinção alguma entre Deus Pai e o seu Filho, o Verbo. Estes seriam apenas dois nomes, manifestações ou modos de ser da mesma pessoa divina. Preocupado em assegurar a distinção pessoal entre Pai e Filho, Ário propôs uma solução que veio a ser totalmente inaceitável, ou seja, a de que o Verbo, embora muito elevado em dignidade e poder, não só era distinto do Pai, mas também inferior e subordinado a ele, mesmo antes da encarnação. Mais ainda, antes da existência do mundo, o Filho tinha sido criado pelo Pai, não sendo, portanto, eterno. O arianismo foi explicitamente condenado pelo Concílio de Niceia, no ano 325.

A terceira ilustração do perigo das boas intenções ocorreu quase um século depois, por volta do ano 400. Nessa época, chegou a Roma um monge britânico chamado Pelágio, que ficou escandalizado com a baixa qualidade da vida moral e espiritual dos crentes romanos. Os cristãos deveriam viver vidas virtuosas e exemplares, mas ele acreditava que o ensino da igreja não os incentivava a isso. A intenção de Pelágio era a melhor possível. Ele começou a argumentar que as pessoas ficavam desanimadas ao aprenderem desde cedo que eram pecadoras por natureza, que haviam nascido com uma forte inclinação para o pecado.

Pelágio passou a questionar essa doutrina do pecado original e da corrupção inata do ser humano. Ele pregava que a queda de Adão não afetou os seus descendentes. Todo ser humano está na mesma situação de Adão antes de desobedecer a Deus, tendo a plena possibilidade de pecar ou de não pecar. Se alguém quiser, pode, por sua habilidade natural e sem qualquer ajuda especial da parte de Deus, viver uma vida virtuosa. Os problemas das pessoas são a ignorância e os maus exemplos. Se compreenderem que podem utilizar seu próprio livre arbítrio incentivado pelo ensino das Escrituras e pelo exemplo de Cristo, elas poderão viver uma vida de plena obediência à vontade de Deus. O pelagianismo se tornou mais um exemplo de como uma boa intenção, por si só, pode levar a distorções irreparáveis da fé cristã.

Vivemos numa época em que as boas intenções são abundantes em toda parte no mundo cristão. Uma delas é tornar o evangelho aceitável para o nosso tempo, atraente para o ser humano pós-moderno e relativista. Outra consiste em tornar o culto uma experiência agradável e prazerosa, centrada no ser humano com seus desejos e necessidades, deixando de lado temas desagradáveis para que os frequentadores não se afastem nem busquem outros rebanhos. Outra ainda pode consistir em dar prioridade à união dos cristãos, ao respeito pela diversidade, mesmo que à custa da relativização de certos ensinos bíblicos.

O apóstolo Paulo adverte contra o perigo do “zelo por Deus” -- uma ótima intenção --, porém sem entendimento (Rm 10.2). Devemos continuamente questionar as boas intenções do enganoso coração humano, para averiguar se, por trás de um desejo ou objetivo aparentemente apreciável, não está oculto um motivo inconfessável, uma concessão ao personalismo e à ambição, uma violação disfarçada da vontade de Deus, uma transigência cômoda com a verdade bíblica. A questão não é se nossas intenções são boas ou agradáveis, mas se são corretas e sólidas, alicerçadas numa fiel interpretação das Escrituras e numa reflexão teológica amadurecida e consistente.

• Alderi Souza de Matos é doutor em história da igreja pela Universidade de Boston e professor no Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper. É autor de Erasmo Braga, o Protestantismo e a Sociedade Brasileira, A Caminhada Cristã na História e “Fundamentos da Teologia Histórica”. Artigos de sua autoria estão disponíveis em http://cpaj.mackenzie.br/historiadaigreja.php.

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