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A arte e a fome num conto de Franz Kafka

Gladir Cabral

A história é surreal, mas tem claras referências à realidade e à história de uma profissão que deixou de existir. O exercício da fome como espetáculo era comum na Europa nos séculos 18, 19 e 20. Jejuadores profissionais viajavam de cidade em cidade cobrando entrada para o público que quisesse assisti-los em seus longos períodos de jejum.

O escritor tcheco Franz Kafka publicou em 1922 um conto em que o personagem principalé um desses jejuadores profissionais, um artista da fome. O conto apresenta a crise de um artista que vê sua credibilidade ameaçada pela desconfiança do público, ao mesmo tempo em que vê a popularidade de sua profissão cair a cada dia.

O artista está nas mãos de um empresário que não permite que o período de jejum se estenda além dos quarenta dias, pois a partir daí o interesse do público se esvai e os lucros do negócio diminuem paulatinamente. O artista não esconde sua frustração, pois se sente capaz de jejuar muito mais e atingir novos recordes.

Com o tempo, o público desaparece, o artista despede o empresário e acaba trabalhando num circo, nos fundos, perto da jaula dos animais. Com a indiferença crescente, ele acaba esquecido entre as palhas, morto. Seu lugar é preenchido por uma pantera cheia de força e vitalidade, para alegria do público.

Embora outras leituras sejam possíveis, o conto parece refletir sobre o lugar do artista na modernidade, seu deslocamento para a periferia, sua constante necessidade de gerar público e lucro e sua posição precária, alienada, diante da busca constante do mercado por novidades.

Para o artista do conto de Kafka, o sentido da arte estaria no exercício da liberdade do artista, sua autonomia em determinar quantos dias irá jejuar, até que ponto suporta a fome, sem se importar com o fenômeno da popularidade. Entretanto, isso lhe é negado.

Entretanto, o que se descobre no conto de Kafka é que o próprio artista não estava seguro quanto à validade de sua arte. Um pouco antes de morrer, ele confessa que estava condicionado a jejuar e que a verdadeira motivação de sua arte era ter encontrado na vida alimento que lhe agradasse. “Se eu o tivesse encontrado, pode acreditar, não teria feito nenhum alarde e me empanturrado como você e todo mundo.”

Para Kafka, o artista, na modernidade, é um ser em crise, um deslocado, um explorado, destituído de seu bem mais precioso: a liberdade criadora. Ele é símbolo do ser humano cujos vínculos com a comunidade e com o sentido da vida estão cortados. O ser humano, em sua privação, em seu sofrimento, torna-se o espetáculo.

No conto, o artista é substituído na jaula por uma pantera. Em tempos de proibição de animais em circo, até a pantera está desempregada e em riscos de extinção, tal qual o artista da fome. Há no coração do artista uma fome que nem a arte pode saciar.

Referência Bibliográfica
KAFKA, Franz. O artista da fome. In: ______. Essencial. Trad. Modesto Carone. São Paulo: Penguin; Companhia das Letras, 2011. p. 32-41.

• Gladir Cabral é pastor, músico e professor de letras na Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc). Acompanhe o seu blog pessoal: ultimato.com.br/sites/gladircabral.

Leia mais
Vídeo “The Hunger Artist”, dirigido por Tom Gibbons (2002)

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