Olá visitante!
Cadastre-se

Esqueci minha senha

  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.
Seja bem-vindo Visitante!
  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.

Especial — Entrevista

Prestar assistência religiosa aos presos é tão transcultural quanto o trabalho com os indígenas ou os muçulmanos

Antonio Carlos Junior

 

Desde o início de 2016, a questão carcerária está em alta nos noticiários, nas análises, nas rodas de conversa. A situação é caótica e extremamente complexa, com múltiplas causas e soluções. O Brasil é o quarto país do mundo com a maior população encarcerada. O número de mulheres que estão na prisão subiu quase 600% em quinze anos. Um levantamento do Departamento Penitenciário Nacional divulgado em 2016 indica que cerca de 40% das pessoas que estão presas no Brasil nem sequer foram julgadas na primeira instância, aproximando-se de 250 mil o número de presos provisórios. Talvez a opinião pública sobre os presos nunca tenha sido tão negativa: em julho de 2015, 50% das 1.307 pessoas entrevistadas pelo Datafolha concordavam com a afirmação de que “bandido bom é bandido morto”.

 

O Portal Ultimato tem abordado diferentes aspectos da questão por meio de artigos publicados. Nesta entrevista endossamos que parte da solução passa pela assistência religiosa aos presos. Para o advogado e entusiasta da causa Antonio Carlos Junior, um dos autores do livro Como Anunciar o Evangelho entre os Presos (Ultimato, 2016), este ministério “é tão transcultural quanto o trabalho com os indígenas ou os muçulmanos”. O desafio para a igreja é acompanhar os voluntários que perseveram em visitar os presídios, encorajar e apoiar outros que queiram engajar-se neste trabalho, envolver-se mais profundamente com as questões sociais de seu entorno e investir no discipulado de presos já convertidos.

 

Desde quando existe capelania nos presídios do Brasil?

Até a segunda metade do século 18 a privação da liberdade não era a “pena principal”. Ela servia apenas para guardar o réu, o qual receberia a sanção de morte, lesões corporais (como mutilações) ou torturas. O período do Iluminismo, inaugurado com a Revolução Francesa, fez com que houvesse uma discussão, ainda embrionária, sobre a dignidade intrínseca do ser humano. Com isso as prisões ganharam ares não apenas punitivos, mas também voltados à ressocialização do detento. Em todo caso, pelo menos desde o Império Romano, o Estado já chamava sacerdotes aos cárceres, mesmo que fosse somente para as confissões finais dos detentos. O Brasil, a partir do Código Criminal de 1830, passou a construir prédios voltados à aplicação das penas de prisão (principalmente com imposição de trabalho ao detento), com o objetivo de propiciar a correção moral dos infratores. Apesar disso, a assistência religiosa -- considerada como um trabalho mais sistemático e com a atuação de pessoas não contratadas pelo Estado -- é relativamente recente. A antiga Pastoral Penal católica, por exemplo, foi criada apenas em 1975 e teve sua primeira reunião nacional em 1986.

 

Quantos são os capelães evangélicos hoje? E os católicos?

A Pastoral Carcerária, vinculada à CNBB, estima que sejam cerca de 6 mil voluntários católicos atuando nos presídios brasileiros. No lado evangélico, diante da diversidade denominacional e em razão de não haver instância de coordenação nacional que abranja todas elas, não existem dados concretos. Contudo, pela farta presença de religiosos evangélicos nos cárceres, podemos presumir um número entre quatro e seis vezes maior que o dos católicos. É importante frisar ainda que, embora essas sejam as matrizes com mais atuação, há assistências isoladas prestadas por outras religiões, como espiritismo, budismo, Seicho-no-iê e religiosidades afro.

 

Fala-se em um grande número de presos que passaram pelos bancos das igrejas evangélicas. Como não existem dados oficiais, qual é a impressão que os capelães têm a respeito disso?

Essa é uma questão complexa: o que realmente significa “conversão”? Dos presos que dizem ter alguma vinculação evangélica antes do crime (talvez não cheguem a 15% ou 20% do total), boa parte normalmente se refere a igrejas midiáticas, com idas esparsas para a solução de problemas em geral, como desemprego, doença ou drogadição. Outros se declaram arrependidos por terem se “desviado dos caminhos do Senhor”, muitas vezes por ganância financeira e outros “prazeres do mundo”. Finalmente, uma quantidade maior são “filhos de crentes”, mas que afirmam nunca terem se convertido de verdade. Os capelães, via de regra, não conseguem realizar um trabalho de assistência individualizada e, por isso, não percebem essas nuanças.

 

Como capelão, você já conviveu com falsas conversões e com conversões de presidiários que não perduraram? Há algum dado sobre a permanência na fé depois de libertos da prisão?

Não é possível julgar se houve conversão, mas apenas dizer se os “frutos” condizem ou não com arrependimento. As religiões nos cárceres (quaisquer que sejam elas) tendem a possuir um caráter instrumental muito forte. Ou seja, são usadas apenas como uma espécie de muleta para superar as dificuldades do aprisionamento. Tanto isso é verdade que, geralmente, à medida que se aproxima a saída do cárcere, menos o sujeito tende a “buscar a Deus”. E, como há uma vigilância constante no comportamento dos presos pelos próprios detentos, muitas conversões, lá dentro, são tidas como mentirosas e indicadas pelo jargão “se esconder atrás da Bíblia”. Por outro lado, para aqueles que realmente se converteram e desejam uma mudança de vida, pergunto: será que as igrejas estão preparadas para receberem essas pessoas?

 

O que são e o que fazem os capelães?

A maioria dos capelães não possui formação teológica regular nem passou por treinamento específico algum para ingressar no ambiente prisional. Por isso, não compreende a cultura do cárcere (bastante diferente da sociedade em geral), com regras próprias. Tenho dito que prestar assistência religiosa aos presos é tão transcultural quanto o trabalho com os indígenas ou os muçulmanos. Se treinamos as pessoas nesses casos, por que não adotamos o mesmo critério quando o assunto são os cárceres? Talvez uma das piores coisas nesse ponto sejam os “pseudocursos”. As aulas ocorrem por um ou dois dias e envolvem todas as áreas de capelania, como hospitalar, prisional, escolar e militar, algo absolutamente impossível. Quem faz esses cursos recebe uma espécie de “carteirinha de capelão” (até com o Brasão da República, o que é crime – art. 296, § 1º, III, do Código Penal). Os alunos são iludidos, como se pudessem dar “carteirada” e entrar em qualquer repartição pública para prestarem assistência religiosa. Os voluntários, por sua vez, são pessoas com boa vontade e temor de Deus que desejam alcançar pessoas para Cristo. Contudo, pela falta de conhecimento, acabam, algumas vezes, replicando os seus cultos de domingo na prisão, como se os públicos fossem iguais.

 

As igrejas apoiam a ação dos capelães?

Infelizmente os capelães, na maioria das vezes, estão sozinhos. Eles têm de estar vinculados a alguma igreja, mas, em regra, apenas duas ou três pessoas se disponibilizam para ajudar. O estigma, o preconceito e o medo do que pode acontecer no presídio afastam os cristãos e os impedem de abraçarem a causa. Isso até quando um dos presos é alguém da família, não importando se a prisão é justa ou injusta, se cometeu ou não um crime. Nessas condições a pessoa passa a querer um tratamento melhor para o detento, uma oportunidade de ressocialização.

 

Há ações dos capelães voltadas para os agentes penitenciários?

Essas ações, quando existem, são quase inexpressivas, inclusive por causa da falta de treinamento dos capelães. Estes muitas vezes se esquecem de que o ambiente prisional é muito estressante. O agente passa o dia inteiro no presídio e só volta para casa à noite; alguns passam até a noite e a madrugada lá dentro, cuidando da segurança e da disciplina da unidade.

 

Que denominações estão mais presentes nos presídios?

A Assembleia de Deus e os batistas são os campeões, mas há também bastante atuação da Universal. Ao lado delas operam diversas igrejas pentecostais e neopentecostais que não estão filiadas a convenção alguma e, portanto, não poderiam ser enquadradas como “denominações”. As igrejas históricas, como a presbiteriana e a luterana, quase não se envolvem.

 

Há igrejas dentro dos presídios? Elas são lideradas pelos próprios presos?

Os presos que aderem ao evangelho dentro das prisões acabam formando grupos responsáveis por “puxar os cultos” dentro dos pavilhões. Quando esses grupos se tornam mais coesos, pode haver a criação de igrejas ou ministérios, até mesmo com divisão de ofícios, como pastores, diáconos, presbíteros, obreiros e levitas. Porém, a menos que todo o pavilhão seja exclusivamente dos “crentes” (o que é bastante difícil), esses presos acabam tendo de entrar em acordo com os demais detentos, por exemplo, quanto aos horários dos cultos, que normalmente não podem atrapalhá-los de assistirem aos jornais televisivos. Dependendo da dinâmica interna de cada cadeia e desses acordos, alguns presos podem ser designados como “missionários”, evangelizando até em outros pavilhões. Por outro lado, como a imensa maioria dos detentos teve pouco ou nenhum relacionamento com igrejas evangélicas antes da prisão, muitas vezes apenas repetem aquilo que ouvem dos capelães externos.

 

Há alguma organização ou associação que seja referência em capelania, no Brasil e no mundo?

Excetuando projetos exclusivamente denominacionais, a Sociedade Bíblica do Brasil, hoje, é uma referência nesse assunto. Além dela, a Prison Fellowship International, fundada por Charles Colson, deve ser destacada. Colson foi preso nos Estados Unidos, quando era assessor do então presidente Richard Nixon, por envolvimento no escândalo de “Watergate”. Na cadeia, se converteu e se convenceu de que a solução para a criminalidade está na renovação espiritual proporcionada por Cristo. A organização atua hoje em mais de 120 países, inclusive no Brasil, e aplica a Justiça Restaurativa, método que reúne a vítima, seu ofensor e a comunidade, para que, juntos, transformem a realidade de delinquência.

 

LEIA MAIS

A questão carcerária -- oportunidades e desafios

goo.gl/IVdUSD

Opinião do leitor

Para comentar é necessário estar logado no site. Clique aqui para fazer o login ou o seu cadastro.
Ainda não há comentários sobre este texto. Seja o primeiro a comentar!
Escreva um artigo em resposta

Ainda não há artigos publicados na seção "Palavra do leitor" em resposta a este texto.