Apoie com um cafezinho
Olá visitante!
Cadastre-se

Esqueci minha senha

  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.
Seja bem-vindo Visitante!
  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.

Colunas — Ética

O cristianismo antigo para tempos novos

Paul Freston e Raphael Freston

 

Em tempos difíceis, como manter-se lúcido e ao mesmo tempo esperançoso?

 

Escrevendo uns dez dias após o início da era Trump, já percebemos uma das dificuldades que a nova era vai trazer (em continuidade, aliás, com a campanha eleitoral): a nossa capacidade de nos sentir chocados, ou preocupados, ou moralmente ofendidos, diminui a cada comentário ou medida chocante, preocupante, imoral. O risco é que, finalmente, percamos essa capacidade por completo. Houve, claro, outros momentos históricos em que essa capacidade se enfraqueceu, e não acabaram bem.

 

Em tempos como o nosso, em que é fácil ou perder a percepção da anormalidade, da imoralidade, da natureza absurda dos eventos, ou então desesperar-se totalmente, como manter-se são, lúcido e ao mesmo tempo esperançoso? Algo que ajuda é o mergulho nos pioneiros pensadores cristãos dos primeiros séculos da história cristã, para perceber novamente que a não discriminação, a aceitação do pluralismo cultural, o humanitarismo, os direitos humanos (inclusive o apoio ao refugiado e o rechaço à tortura) e o questionamento da desigualdade global não são ideias “modernas” e “politicamente corretas” promovidas pelo “humanismo secular”, mas já estavam sendo desenvolvidas, nas circunstâncias mais adversas, pelos pensadores cristãos do mundo antigo.

 

A não discriminação

A ideia-chave aqui é a unidade da raça humana, criando direitos comuns; uma noção quase universalmente aceita hoje (na teoria!), mas largamente contestada ao longo da história (inclusive no século 19, com ideias científicas de poligênese da raça, e na primeira metade do século 20, com o fascismo). Segundo Lactâncio, grande autor cristão do início do século 4º, Deus tem a mesma relação com todos os seres humanos, e “por isso, somos todos filhos seus, com direitos iguais”. Máximo o Confessor (século 7º) expressa poeticamente: “O amor perfeito não divide a natureza humana, mas ama a todos igualmente”.

 

Mas este não é o mundo que vemos. Como diz Gregório Nazianzeno, grande teólogo do século 4º: “Após a transgressão, a raça humana foi separada em várias raças e a avareza dilacerou a sua nobreza natural. Você, no entanto, precisa enxergar a unidade e igualdade originais, e não a divisão posterior”.

 

A essa grande afirmação da unidade e igualdade da humanidade, Gregório acrescenta a ideia da “primeira e suprema lei de Deus”. Mas sua noção do que seja essa suprema lei diverge da de muitos cristãos de hoje.

 

“Imitemos a primeira e suprema lei de Deus, quem envia a chuva de forma igual sobre os justos e os injustos. E as suas dádivas não estão sob o domínio de ninguém, nem são demarcadas por fronteiras.”

 

A suprema lei de Deus, para Gregório, é a não discriminação!

 

O pluralismo cultural

 

Um autor cristão do século 4º diz:

Algumas pessoas mostram a sua imaturidade quando criticam Deus assim: “Por que ele não criou a mesma natureza para todas as pessoas, mas em vez disso criou seres diferentes, o que explica a diversidade de costumes e princípios entre os seres humanos?”’. Bem que tais pessoas poderiam reclamar que existe a noite tanto quanto o dia, o mar tanto quanto a terra! Querer que todas as pessoas sejam iguais no seu caráter é totalmente ridículo.

 

Afinal, afirma o autor, Deus deu a cada um “o direito de determinar o contorno de sua própria vida”, pois a liberdade e a diversidade fazem parte do plano de Deus.

O nome deste autor? Ninguém menos que o imperador Constantino! Parece que o primeiro governante cristão, com todas as suas falhas, já entendia mais da visão cristã do mundo do que alguns governantes da nossa época.

 

O humanitarismo

Tertuliano, por volta do ano 200, pergunta: “Por que o Senhor nos chama a luz do mundo? Por que nos comparou com uma cidade erguida sobre um monte?”. E a resposta que Tertuliano dá é que “somos chamados a nos erguer bem alto por aquelas pessoas mais rebaixadas”. E alerta: “Se você esconder a sua luz, logo você mesmo estará no escuro”.

 

Lactâncio concorda. Agir com justiça para com Deus é chamado “religião”; agir com justiça para com outros seres humanos é chamado “compaixão ou humanidade”.

Mas quais os limites dessa compaixão? Gregório Nazianzeno é taxativo: “Devemos abrir as portas para todas as vítimas de desastres, quaisquer que sejam as causas”.

 

Tais atitudes levam Thomas Oden, autor contemporâneo de muitos livros sobre os cristãos dos primerios séculos, a concluir que a prática da “hospitalidade para o forasteiro e o apoio ao refugiado” fizeram com que “os cristãos antigos fossem humanitários muito antes do humanitarismo moderno. Nossa imagem dos líderes cristãos antigos é de ideólogos endurecidos, mas na realidade eram amáveis, gentis e solícitos”.

 

A recepção de imigrantes e refugiados

Orígenes, o primeiro grande comentarista bíblico (primeira metade do século 3º), após comentar as obrigações que temos para com a nossa família e os nossos irmãos na fé, acrescenta que “também temos certas obrigações para com os nossos compatriotas e para com a raça humana em geral, e ‘sobretudo para com os forasteiros’, dando-lhes o que é devido no espírito humanitário da sabedoria”. Não devemos somente receber aqueles que chegam, diz Orígenes, mas também convidar outros a virem.

 

Em relação à ordem executiva do presidente Trump probindo a entrada de cidadãos de sete países, três dos quais são da África, a União Africana ironizou: “Vocês nos receberam como escravos, mas não como refugiados!”.

 

Uma faceta menos comentada das ações de Trump é a preferência que ele expressa para receber refugiados cristãos. Essas palavras são potencialmente danosas para os cristãos do mundo muçulmano, que já sofrem às vezes de acusações de serem quinta-coluna do Ocidente no Oriente Médio.

 

A tortura

Pelágio, autor do começo do século 5º, faz uma forte denúncia da prática da tortura.

“Ante seus olhos, corpos humanos, de natureza igual à sua, são fustigados com chumbo ou quebrados a cacetadas ou dilacerados por animais ou queimados no fogo. Mas a sua sensibilidade cristã lhe permite assistir a tudo isso, e até administrar a tortura você mesmo! Será que algum endurecimento do seu coração lhe torna imune ao sofrimento de alguém que partilha a mesma natureza sua? Será que a dor no corpo do outro por alguma razão não penetra os sentimentos do seu coração?”

 

A desigualdade global

Ouçamos Pelágio novamente:

“Se Deus tivesse decretado que houvesse desigualdade em todas as coisas, ele teria feito uma distribuição desigual das dádivas da criação e não teria permitido que as pessoas fossem iguais no que diz respeito às suas dádivas maiores [as espirituais]”.

Na realidade, diz Pelágio, “possuímos igualmente com os outros todas as coisas que não estão debaixo do nosso controle; e possuímos de forma injusta e desigual somente as coisas sujeitas ao nosso próprio governo”. Mas “se a bondade de Deus é distribuída de maneira igual, tanto em coisas materiais como espirituais, fica claro que a desigualdade se deve à injustiça humana, e não ao favor divino”.

 

Os cristãos pró-Trump

Em vista de tudo isso, pode parecer estranho que Trump ganhe tanto apoio de cristãos americanos. (Por exemplo: apesar de resistências iniciais, ele acabou ganhando cerca de 80% do voto evangélico branco. Note-se, no entanto, que os evangélicos negros e latinos votaram de maneira bem diferente!) Parece haver dois tipos de cristãos pró-Trump: alguns poucos que gostam do seu programa em geral (posição complicada, à luz dos ensinamentos cristãos, como mostram as citações mencionadas dos autores antigos); e os que não gostam muito, mas acham que compensa apoiá-lo por causa da oportunidade para nomeações à Suprema Corte que ajudem a derrubar o aborto legalizado. Ambos, acreditamos, são equivocados e ambos serão desapontados.

Entendemos que muitos cristãos pró-Trump o são porque acham que uma nomeação à Suprema Corte compensa tudo mais. Qual a validade desse argumento?

 

Desde 1980, o principal argumento para convencer evangélicos americanos a votarem nos candidatos presidenciais republicanos é de que estes são mais favoráveis à posição antiaborto. E, para muitos evangélicos, a questão do aborto é suficiente para determinar seu voto.

 

Aqui, não pretendemos avaliar a questão do aborto nos seus aspectos morais e legais. Trata-se de avaliar o efeito de “votar” em eleições presidenciais para o país mais poderoso do mundo baseado somente em uma única questão. É “responsável” votar assim, ignorando o peso de todas as outras questões? E “por quanto tempo”? E por que o aborto seria a única questão e não, por exemplo, a mudança climática?

 

Além disso, devemos lembrar que as leis por si sós não conseguem resolver a questão do aborto. Pesquisas mostram que há pouca diferença nas taxas reais de aborto entre países que o proíbem e países que o permitem. Claro, a proibição legislativa pode ser defendida com outro argumento, mais simbólico: que o importante é afirmar aquilo que valorizamos como sociedade. Mas, se o objetivo for minimizar a prática em si, as soluções parecem ser outras.

 

Em eleições, dificilmente concordamos com todas as posições de um candidato. Daí a necessidade de votarmos no relativamente melhor. Mas como fazer essa ponderação? Não há solução fácil, e cristãos podem divergir legitimamente quanto ao peso que atribuem a cada questão.

 

Portanto, a ideia que predomina entre muitos evangélicos de que o cristão tem que apoiar o presidente Trump por causa do aborto é questionável. E essa crença tem sido usada por políticos espertos, que sabem que é um atalho conveniente para mobilizar uma infantaria de eleitores e militantes, muitos dos quais não se importam com as outras questões que realmente interessam aos detentores do poder.

 

Paul Freston, inglês naturalizado brasileiro, é professor colaborador do programa de pós-graduação em sociologia na Universidade Federal de São Carlos e professor catedrático de religião e política em contexto global na Balsillie School of International Affairs e na Wilfrid Laurier University, em Waterloo, Ontário, Canadá.

 

Raphael Freston é mestrando em sociologia na Universidade de São Paulo.

QUE BOM QUE VOCÊ CHEGOU ATÉ AQUI.

Ultimato quer falar com você.

A cada dia, mais de dez mil usuários navegam pelo Portal Ultimato. Leem e compartilham gratuitamente dezenas de blogs e hotsites, além do acervo digital da revista Ultimato, centenas de estudos bíblicos, devocionais diárias de autores como John Stott, Eugene Peterson, C. S. Lewis, entre outros, além de artigos, notícias e serviços que são atualizados diariamente nas diferentes plataformas e redes sociais.

PARA CONTINUAR, precisamos do seu apoio. Compartilhe conosco um cafezinho.


Opinião do leitor

Para comentar é necessário estar logado no site. Clique aqui para fazer o login ou o seu cadastro.
Ainda não há comentários sobre este texto. Seja o primeiro a comentar!
Escreva um artigo em resposta

Ainda não há artigos publicados na seção "Palavra do leitor" em resposta a este texto.