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Gladir Cabral
Silêncio e martírio

O movimento intenso das marés, as ondas verde-escuras subindo com força contra a praia e o sopro inclemente do vento gelado contrastam com a imobilidade de três corpos crucificados na beira da praia, como se para aqueles mártires o tempo tivesse parado no eterno segundo da dor. Essa é uma das cenas mais chocantes no romance Silêncio, do escritor japonês Shusaku Endo, livro publicado em 1966 e agora adaptado para o cinema sob direção de Martin Scorsese.

O livro conta a história de dois missionários cristãos (católicos) -- frei Sebastião Rodrigues e frei Francisco Garrpe -- que entram ilegalmente no Japão no ano de 1639 a fim de continuar a obra missionária interrompida pela perseguição contra o cristianismo. Espalham-se muitas histórias de tortura e martírio que sofre a jovem igreja cristã japonesa. Há também relatos de apostasia, entre os quais a do padre português Cristóvão Ferreira, fato ocorrido em 1632.

Nessa aventura, os jesuítas Rodrigues e Garrpe entram no Japão, sabendo dos riscos dessa empreitada, e tentam contatar os cristãos de uma vila de pescadores. Acabam descobertos (por traição) e torturados. Eventualmente, acabam testemunhando a tortura e o martírio dos cristãos japoneses. A maior tortura, para eles, é ver o sofrimento dos outros cristãos.

O romance traz profundas reflexões sobre vários temas pertinentes à fé cristã, à missão da igreja, à experiência da perseguição e do martírio. Primeiramente, a constatação de que a fé cristã se desenvolve no meio de um complexo contexto cultural. Não há como ignorar o fenômeno cultural e intercultural quando se fala em missões cristãs. O livro mostra quantos riscos há em, a partir de nossa cultura, alterarmos a mensagem cristã. Evangelizar é traduzir-se, não apenas em outro idioma, mas também em outra cultura.

O trabalho missionário é também atravessado pelos conflitos políticos, econômicos e sociais de sua época. No caso do livro, fica evidente o choque histórico entre os impérios do Ocidente (Espanha, Portugal, Inglaterra...) e o Japão. Os cristãos são perseguidos em nome da defesa dos valores nacionais e tradicionais do país, sob o argumento de que o cristianismo é um corpo estranho na cultura japonesa.

Por outro lado, o romance mostra a humanidade das personagens. O traidor Kichijirō não é apresentado como um ser desprezível ou malévolo, mas como um cristão suscetível de fraquezas, medos, dúvidas. Ainda que tendo apostatado, ele segue os passos dos missionários presos, sempre em busca do perdão, da graça. O próprio padre Rodrigues encarna o dilema de sua humana condição. Suas dúvidas, seus temores, suas decepções mais íntimas e profundas vão revelando-se ao longo do romance. Não há super-heróis nesta história, assim como não há super-heróis na história do cristianismo; há apenas seres humanos carentes da graça de Deus.

O próprio martírio, tão valorizado na história da Igreja cristã, tão idealizado e revestido de glória, é apresentado no romance de forma despojada, sem brilhos sobrenaturais, como uma experiência crua, de dor e humilhação, emoldurada pela indiferença da natureza e pelo silêncio de Deus.

Dicas de leitura:
ENDO, Shusaku. O Silêncio. Prefácio de Martin Scorsese. Trad. Mário Vilela. São Paulo: Planeta do Brasil, 2011.
SCORSESE, Martin. Silence. Paramount. Filme, 2017.
FUJIMURA, Makoto. Silence and Beauty. Downers Grove: InterVarsity Press, 2016.

Gladir Cabral é pastor, músico e professor de letras na Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc). Acompanhe o seu blog pessoal: ultimato.com.br/sites/gladircabral.

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