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Colunas — --

A escatologia da vingança

Bráulia Ribeiro

 

 

Estamos todos à deriva num navio naufragando num mar escuro. A única maneira de minorar a possibilidade de tragédia é fazermos um pacto de solidariedade

 

Pensar sobre o futuro, não só o nosso futuro individual, mas também o futuro da humanidade como um todo, é uma missão da fé. A Bíblia é o único livro sagrado que propõe uma consciência individual no contexto de uma história linear da qual fazemos parte como protagonistas, mas que ao mesmo tempo é maior do que o tempo de duração da nossa vida terrena.

 

No Brasil gostamos de escatologia, o estudo do “eskhatos”, as últimas coisas. Mas o futuro não é apenas o que há de vir; ele marca também o nosso presente. O futuro pode funcionar para nos providenciar esperança para a vida presente, nos guiar para uma transformação ou nos permitir o comodismo e a apatia. O futuro informa nossa ação social e política, e informa a nossa relação com o nosso próximo, irmão ou samaritano.

 

Nietzsche acusa os cristãos de cultivar uma escatologia vingativa. Infelizmente, ao ver o retrato do Brasil de hoje e de como nos servimos do discurso religioso no espaço público, tenho de concordar com ele. O futuro nos trará a necessária vingança contra o “outro”. Consolo-me num futuro que traz a punição para quem é diferente de mim, para quem me fere, para quem me ignora. Minha escatologia projeta a visão das chamas de Dante a queimar meu vizinho gay, a periguete que se insinua para o meu marido, o patrão que me trata como escravo. Principalmente agora, nós evangélicos brasileiros parecemos ter alcançado o direito divino de amaldiçoar publicamente nossos desafetos políticos. Há aqueles que visualizam os males mais terríveis acometendo políticos corruptos. Desastres de avião -- de tragédias acidentais passam a ser punições vindas diretas das mãos de Deus --, cânceres, enfartos e outras pragas modernas populam imaginações cristãs trazendo sorrisos aos lábios e prazer aos ventres de pregadores de todas as vertentes.

 

Filhos doentes, rebeldia de filhos, mortes na família, roubos sofridos, acidentes de carro, tragédias humanas comuns a todos nós, doídas, inexoráveis como a morte, nada disso nos cala, nos comove. Valemo-nos delas contra o próximo, sem dó nem piedade, sem respeito, sem reverência pela dor alheia. Nosso universo religioso maniqueísta não nos permite compaixão. O pobre coitado vítima da tragédia perde a sua condição de ser humano, como eu carente da graça e da misericórdia do Senhor, e é reduzido a seu pecado, seu erro político, seu erro teológico, sua vergonha social.

 

Compaixão para quê, se eu posso ter aqui a convicção de estar certa, regada com o vinho da vingança contra quem não está? Ao contrário de uma teologia da esperança, construímos uma teologia da vingança suprema.

 

A cultura teológica do arrebatamento evoca imagens dos santos voando para encontrar Jesus. E enquanto os crentes, diáfanos, se encontram com o prazer eterno, a terra explode em toda espécie de guerra, terror e tragédias. Graças a essa teologia construímos uma versão aterradora do futuro. Parece que quanto mais fé temos, mais desejamos que desgraças se abatam contra a nação. Estamos sempre profetizando perseguição contra a igreja porque aprendemos que na perseguição, sim, vamos nos purificar. Estamos desejando guerras e tormentos, porque elas nos provarão corretos nas nossas previsões de “fim do mundo”.

 

Como essas versões do “eskhatos” informam nosso presente? Bertrand Russell, ateu convicto, mas apesar disso homem de moral e espírito humanitário, propõe uma solidariedade de um navio no naufrágio. Estamos todos à deriva num navio naufragando num mar escuro; assim ele vê a vida na terra. Portanto, a única maneira que temos de minorar a possibilidade de tragédia é fazermos um pacto de solidariedade. Para Russell, ao ajudar uns aos outros, ao nos compadecer da dor alheia, ao trabalhar pelo bem comum, criamos um mundo “menos pior”. A escatologia cristã cultivada no Brasil infelizmente não chega aos pés do ateísmo de Russell. Se vemos o futuro transcendente como uma continuação das mazelas terrenas, como a perpetuação dos nossos julgamentos rasos e do nosso moralismo mesquinho e farisaico, que esperança há de que possamos orar pelo inimigo, amar o samaritano, ou de que possamos lutar juntos por uma sociedade melhor?

 

Bráulia Ribeiro trabalhou como missionária na Amazônia durante trinta anos e no Pacífico por seis anos. Hoje é aluna de teologia na Universidade de Yale, Estados Unidos, e candidata ao doutorado pela Universidade de Aberdeen, Escócia. Mora em New Haven, CT, com sua família e é autora dos livros Chamado Radical e Tem Alguém Aí Em Cima?, publicados pela Editora Ultimato. http://braulia.com.br/.

 

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