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Colunas — Reflexão

500 anos

Ed René Kivitz

 

É preciso valorizar a contribuição da Reforma sem esquecer de considerar a precariedade do saber, da inadequação humana, da pessoalidade da Verdade

 

Tenho um amigo que acredita que nós protestantes não nos interessamos por nada do que aconteceu na história do cristianismo antes de 1500. Além de concordar, sugiro que também não nos interessamos pelo que aconteceu depois.

 

No ano em que celebramos 500 anos da chamada Reforma Protestante, cuja data simbólica é 31 de outubro de 1517, ocasião em que Martinho Lutero fixou suas célebres 95 teses na porta da igreja do castelo de Wittenberg, somos chamados a reconhecer o fato de que o próprio protestantismo é hoje, em sua face hegemônica, digno de protesto.

 

Entre as razões para os insistentes reclamos de que carecemos de “uma nova reforma”, certamente consta o absoluto desconhecimento da história do movimento iniciado por Jesus de Nazaré, seu desenvolvimento até os dias e contexto dos reformadores do século 16, suas formulações teológicas, seus fundamentos filosóficos, suas implicações político-sociais, bem como da expansão de suas ideias até os dias de hoje.

 

Convivo com a impressão de que o pensamento teológico representativo das denominações chamadas históricas, herdeiras dos reformadores, se sustenta na pretensiosa convicção de que bastam o Novo Testamento, os escritos de Calvino, Lutero e alguns de seus coadjuvantes contemporâneos, e as releituras atuais feitas pelos seus autonomeados porta-vozes para que a igreja encontre a interpretação pura e verdadeira da revelação de Deus -- como se alguma teologia merecesse tais adjetivos.

 

O protestantismo contemporâneo e suas vertentes tradicionais, gestadas nos corredores dos seminários, editoras, conferências e congressos teológicos aliados ao fundamentalismo, parecem acreditar que o cumprimento da profecia de Paulo, apóstolo, se cumpre em João Calvino.

 

A esperança utópica “em parte conhecemos e em parte profetizamos; quando, porém, vier o que é perfeito, o que é imperfeito desaparecerá” (1Co 13.9-10), isolada na bolha do século 16 e interpretada nas categorias cartesianas racionais e dogmáticas, foi erroneamente associada à ortodoxia: crença correta, verdade em termos de doutrina, conhecimento racional, compreensão intelectual, princípios teológicos que correspondam à verdade revelada nas Escrituras Sagradas.

 

As declarações doutrinárias reformadas, que embasam as crenças do senso comum protestante evangélico, referências úteis e necessárias, quando elevadas à categoria de cânon, isto é, régua e critério de juízo para a identificação do que seja ou não heresia, implicam o desperdício de tradições cristãs igualmente legítimas e transformam o evangelho numa mancha cinzenta, e se tornam por isso mesmo a grande traição ao vigor da multiforme graça e sabedoria de Deus reveladas na diversidade da cultura e da história da fé.

 

Utilizar a compreensão, o assentimento intelectual e a adesão racional às doutrinas formuladas pelos reformadores como baliza para distinguir joio do trigo equivale a fazer Jerusalém ajoelhar-se diante de Atenas.

 

As dimensões místicas da experiência do sagrado e do divino, os êxtases suprarracionais, as vivências complexas das virtudes solidárias, as profundidades da vida comunitária e da abnegação generosa, as entregas absolutas dos mártires que andaram com Deus e com os pobres ainda na noite escura da alma, quando Deus é abscôndito, não óbvio, não decifrável, não codificado, não domesticado, e a pretensa luz do dogma se reduz a densas trevas, respondem pelas mais belas páginas da saga do povo que segue nos passos de Jesus Cristo e não teme repisar suas pegadas.

 

Apenas na humildade que se apoia no mistério do não saber e na precariedade do saber sempre incompleto e difuso, e que afirma a absoluta dependência do Deus que habita em luz inacessível é possível experimentar a salvação que somente a fé acessa: “sola fide”.

 

Apenas na vulnerabilidade que brota da consciência da inadequação humana diante daquele que é santo, santo, santo, e na ininterrupta atitude de arrependimento, contrição e confissão é possível desfrutar a alegria que nos chega exclusivamente pela gratuidade do amor divino: “sola gratia”.

 

Apenas no abandono da pretensão da razão e da petulância de definir, explicar Deus -- ninguém explica Deus -- é possível ver surgir o indomável e sempre surpreendente verbo encarnado das páginas sagradas da Bíblia: “sola scriptura”.

 

Apenas sob a revelação de que a verdade é uma pessoa, na experiência e vivência de uma relação de afeto profundo, é possível nascer de novo no encontro com o incomparável que transformou a cruz num símbolo de amor e deixou a morte falando sozinha: “solo Christus”.

“Soli Deo gloria”.

 

Ed René Kivitz é pastor da Igreja Batista de Água Branca, em São Paulo, SP. É mestre em ciências da religião e autor de, entre outros, O Livro Mais Mal-Humorado da Bíblia. facebook.com/edrenekivitz

 

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