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Colunas — Reflexão

Tudo se fez novo

Ed René Kivitz

 

Não lembro quando foi, mas sei que aconteceu. Sei também que não aconteceu da noite para o dia. Foram necessários muitos anos, e muita gente, para que acontecesse. O fato é que num instante qualquer perdido no passado tomei consciência de que alguns paradigmas haviam mudado na minha teologia. Quando digo “minha teologia” quero dizer o sistema de crenças e compreensões que organizam meu mundo e me permitem transitar por ele.

 

Nesse sistema de crenças estão as principais coisas que tomo como verdadeiras: o que penso a respeito de Deus, de Jesus e do Espírito Santo; da Bíblia e da maneira como Deus se comunica por meio dela; do ser humano, sua natureza, condição, origem e destino; do universo criado; da história e da saga humana em suas múltiplas expressões sociais, culturais e religiosas; do pecado, da salvação, da vida e da morte, e da vida depois da morte.

 

Cada um desses temas funciona mais ou menos como uma peça de um quebra-cabeça. Caso as peças estejam desalinhadas, o risco de resultarem num quadro sem sentido é grande. A falta de coerência entre elas gera uma colagem sem nexo, que não diz nada, ou deixa o apreciador entregue às próprias interpretações, ou, pior, diz várias coisas contraditórias entre si e ao mesmo tempo.

 

Desde 1981, quando pela primeira vez estudei um texto de René Padilla, percorro um caminho teológico iluminado pelo Movimento Lausanne e a teologia da missão integral. Foi justamente nesse caminho que três conceitos fundamentais sofreram grande transformação e se encaixaram, dando coerência a todo o meu sistema teológico.

O primeiro conceito que percebi mudado em minha teologia foi o antropológico. O conceito de homem da cultura ocidental é essencialmente platônico e neoplatônico. A concepção de corpo, alma e espírito como partes separadas constitutivas do ser humano encontra -- inclusive na terminologia bíblica -- amplo respaldo. Mas a cultura hebraica compreende o ser humano sobretudo como uma unidade indivisível constituída de pó da terra e fôlego de vida. O ser humano hebreu é o conjunto inseparável de corpo e espírito.

 

Quando o salmista declara “minha alma engrandece ao Senhor e tudo o que há em mim bendiga seu santo nome”, está dizendo que alma é igual a “tudo o que há em mim”. Na declaração de Maria em seu “Magnificat”, “minha alma engrandece ao Senhor e meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador”, está presente o paralelismo da poesia hebraica, que utiliza palavras diferentes para se referir à mesma realidade, sendo alma e espírito equivalentes. Meu conceito antropológico está longe de Platão e muito próximo dos poetas e profetas hebreus.

 

O segundo conceito que percebi mudado em meu sistema teológico foi a referência do que será o mundo quando a redenção estiver consumada. A tradição cristã hegemonicamente fala do céu metafísico, uma outra dimensão de existência, própria da cosmogonia platônica. Mas o Novo Testamento e especialmente Jesus falam de reino de Deus. A convocação de Jesus aos seus discípulos sempre foi para o engajamento no reino de Deus como realidade presente na história, e não para o céu metafísico para onde vamos após a morte do corpo: “O reino de Deus está próximo. Arrependam-se e creiam nas boas novas!” (Mc 1.15); “Pai nosso, que estás nos céus! Santificado seja o teu nome. Venha o teu reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6.9,10); “Busquem, pois, em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça” (Mt 6.33); “Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no reino dos céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mt 7.21). Penso na consumação da redenção muito mais em termos da realização plena do reino de Deus do que num lugar chamado céu.

 

O terceiro e último conceito que percebi mudado em minha teologia foi o horizonte escatológico. Talvez por causa da declaração de Jesus “meu reino não é deste mundo” (Jo 18.36), a expressão bíblica “novo céu e nova terra” (Ap 21.1) geralmente é interpretada como referência a “outro mundo”, “outro lugar geográfico” para onde vamos após a morte. Mas não podemos desconsiderar que o que torna novos o céu e a terra é o fato de que “a cidade santa, a nova Jerusalém, descia do céu” (Ap 21.2). O apóstolo Paulo fala do futuro não necessariamente em termos de outro mundo em outro lugar, mas também e principalmente em termos de outro tempo: “não apenas nesta era, mas também na que há de vir” (Ef 1.20-23). Penso no final escatológico muito mais como “uma nova era” do que como “um outro mundo”.

 

Aqueles que compreendem o homem como dividido em três ou duas partes distintas e separáveis (corpo, alma e espírito; ou corpo e alma; ou corpo e espírito) e acreditam que a salvação consiste no apodrecimento do corpo nesse mundo que será substituído por outro chamado céu, onde somente os espíritos salvos habitam para sempre, realmente têm dificuldade em assimilar a lógica de uma teologia integral.

 

Entretanto, para quem compreende o ser humano como uma unidade indivisível que está sendo transformada à semelhança do Cristo ressurreto para viver no reino de Deus, que já está inaugurado na história e será consumado na era que está por vir, quando todo o universo estiver sob o reinado de Deus, a lógica da teologia integral é não apenas de fácil assimilação, mas também inevitável.

 

Você pode acreditar que a salvação é o processo por meio do qual o espírito se desprende do corpo e vai para o céu depois da morte para passar a eternidade com Deus. A Bíblia está cheia de versículos que sugerem isso e a tradição cristã historicamente acredita assim.

 

Mas você pode também acreditar que a salvação é a retomada da unidade corpo mais espírito cindida pela morte e restaurada na ressurreição, e o ingresso numa nova era em que a vontade de Deus é feita na terra como no céu, isto é, o tempo do reino de Deus consumado. Pode acreditar que Jesus Cristo ressurreto é o primeiro homem perfeito e o primeiro a viver “neste mundo” segundo a lógica do “outro mundo”, isto é, o primeiro a viver na presente era desfrutando aquilo que será possível em plenitude para todos nós apenas na era que está por vir. Pode acreditar que a salvação tem início aqui e agora, quando nosso espírito é unido ao Espírito de Deus, que começa a nos transformar à imagem de Jesus Cristo, o primogênito entre muitos irmãos. E pode acreditar que desde já somos chamados a viver neste mundo sob o reinado de Deus, adotando como nossa missão trazer para o aqui e agora a maior densidade possível do que será perfeito ali e além. A Bíblia está cheia também de versículos que permitem você acreditar assim.

 

Não sei quando foi, mas sei que acordei um dia e já não pensava mais num outro mundo chamado céu onde meu espírito viveria para sempre depois da morte do meu corpo. Quando o sol brilhou naquela manhã, ouvi Jesus me chamando a ser um novo homem, vivendo de acordo com o novo mundo chamado reino de Deus, já presente entre nós. Desde então não consigo mais pensar em termos platônicos e neoplatônicos. E quase não consigo pensar em termos metafísicos.

 

P.S. Milagre é tudo aquilo do outro mundo que acontece neste mundo. Traduzindo, sempre que acontece aqui e agora alguma coisa que deveria ser possível somente quando o reino de Deus estiver consumado, isso é um milagre. Não é lindo?

 

Ed René Kivitz é pastor da Igreja Batista de Água Branca, em São Paulo, SP. É mestre em ciências da religião e autor de, entre outros, “O Livro Mais Mal-Humorado da Bíblia”.

facebook.com/edrenekivitz

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