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Colunas — Casamento e Família

O presente do Dia das Crianças

Carlos “Catito” e Dagmar Grzybowski

 

O Dia das Crianças está se aproximando. Naturalmente é mais uma data artificial criada pela sociedade do consumo a fim de fazer a economia girar. Infelizmente em muitas famílias a supervalorização do “dar” dilui a consciência do “estar com”. Uma reflexão importante sobre isso pode ser apreciada no curta metragem “Criança, a alma do negócio” [veja o documentário no final deste texto].

 

Por que os pais precisam sacrificar recursos de que muitas vezes nem dispõem -- parcelando compras em muitas prestações -- para satisfazer os desejos (quase sempre transitórios) dos filhos? Imagino a pronta resposta de alguns leitores: “Para ver a alegria no rosto da criança!”.

 

Com facilidade, caímos na equação: crianças com seus desejos de consumo satisfeitos são crianças felizes. Será? Vejo alguns problemas nesta equação. Em primeiro lugar, há o problema da medida da satisfação. O desejo humano é simplesmente insaciável e o nível que demarca a medida final é “um pouco mais”. Assim, quanto mais os pais se esforçam para atender às demandas consumistas infantis, mais demandas surgirão. Em segundo lugar, se a equação fosse verdadeira, teríamos ao redor do mundo um exército de crianças deprimidas, cujos pais vivem em condições de pobreza absoluta ou miserabilidade e jamais podem contemplar desejos de consumo criados pela mídia. Por último, é imprescindível distinguir entre o conceito de felicidade e o de euforia. Crianças ficam eufóricas quando os desejos que foram implantados em suas cabecinhas pela mídia são satisfeitos, mas tal euforia se esvai em um tempo relativamente curto e então é necessária outra dose midiática para ativar um novo desejo, num espiral crescente infinito. Isso nada tem a ver com felicidade, que é um estado de relaxamento e contentamento mais perene, que depende de outros fatores.

 

Se a euforia é resultado da satisfação do desejo consumista, o que é de fato a felicidade e como ela pode ser alcançada? Em nosso entendimento a felicidade é resultado do “estar com”, ou seja, tem um caráter essencialmente relacional. As crianças precisam de contextos relacionais (em geral a família) que lhes assegurem sentido de segurança, pertencimento e amor incondicional. Os filhos precisam que seus pais estejam presentes em seu universo: brinquem com eles entrando em seu mundo fantasioso; ouçam suas “bobagens”; conversem sobre coisas que são importantes para os filhos.

 

É comum recebermos para aconselhamento pais que se preocupam com o desempenho escolar dos filhos, seu comportamento na escola ou na casa de amigos e suas atividades extraclasse -- que os tornarão competitivos no mercado de trabalho --, porém muitas vezes nem sequer sabem os nomes dos amigos dos filhos. Dão-lhes brinquedos eletrônicos para não terem de “se incomodar”, pois o eletrônico absorve toda a atenção da criança, que assim “dá um descanso para os pais”. E se os filhos requerem mais atenção os pais queixam que ter filhos é muito trabalhoso.

 

Sim, ter filhos dá trabalho! Mas é um privilégio singular. Sentar-se de forma relaxada com eles e realizar atividades que eles apreciam; ter conversas inteligentes com adolescentes preocupados com as “nascentes espinhas”; inventar coisas para se divertirem juntos -- como transformar caixas de papelão e pedaços de ripas num barco de piratas ou montar um carrinho de rolimã -- são oportunidades ímpares de convivência com os filhos.

 

Felicidade é poder ver o filho -- criança ou adolescente -- aninhar-se no seu colo e dizer relaxadamente: “Que dia legal tivemos hoje, não?!”. Deixamos com você a pergunta: “Que “presente” você dará a seu filho no próximo Dia das Crianças?”.

 

• Carlos “Catito” e Dagmar são casados, ambos psicólogos e terapeutas de casais e de família. São autores de Pais Santos, Filhos Nem Tanto. Acompanhe o blog.


***


VEJA TAMBÉM


Documentário “Criança: a alma do negócio”

 

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