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Literatura e cultura

Gladir Cabral 

 

Primo Levi: Entre as cinzas de Auschwitz

 

“É Isto um Homem?”, de Primo Levi (1947), é um livro profundo cuja leitura é mais do que necessária para nossa formação humana e compreensão da história. As narrativas de Primo Levi apresentam, a partir do ponto de vista de um interno, todo o processo de desumanização realizado nos campos de concentração de Auschwitz, a lenta e inexorável transformação dos prisioneiros em seres brutalizados, entorpecidos, indiferentes à sorte.

 

Esse sistema de dilapidação do ser humano começa logo depois da prisão, nos vagões de um trem, na hostilidade gratuita e irracional, no confisco dos pertences, na nudez, na raspagem dos cabelos, na tatuagem do número que será agora a única identificação da pessoa. Nesse processo de perdas, morre Deus. Ele morre, como diria Elie Wiesel, no corpo estremecido de um menino enforcado no campo de concentração. Ou como diria outra testemunha sobrevivente de Auschwitz, Deus se ausentou dali, pois aquele lugar era horrível demais até para ele. Levi parece dizer que em Auschwitz testemunha-se a morte de Deus, pelo menos a morte de certa compreensão de Deus, de um Deus que não subsiste aos extremos da experiência humana, de uma fé que se desintegra na avalanche da barbárie.

 

Entretanto, a narrativa de Primo Levi não fica apenas na acidez das decepções ou na amargura da desesperança. De certa forma, sua vida é redimida por alguns marcos importantes, coisas que aconteceram no campo, todas relacionadas com pessoas que trouxeram a ele algum alento, como a amizade com Lourenço, um trabalhador de origem italiana que mostrou a Levi que ainda existe um mundo justo; a humanidade ainda é possível. A história é curta: “Um operário italiano me trouxe um pedaço de pão e os restos das suas refeições, cada dia, durante seis meses; deu-me de presente uma camiseta cheia de remendos; escreveu por mim um cartão-postal à Itália e conseguiu resposta. Por tudo isso não pediu nem aceitou compensação alguma, porque ele era simples e bom e não pensava que se deve fazer o bem a fim de receber algo em troca” (p. 115).

 

A amizade com Alberto foi outro grande alento a Primo Levi, uma prova de que ainda não havia perdido completamente a sua humanidade. Fala do poder redentor da amizade. Com Alberto, Primo Levi aprendeu a arte da resistência, como gravar o nome no fundo da gamela onde se come a ração de sopa, quando todos gravavam simplesmente seus números de identificação. “Alberto entrou no Campo de cabeça erguida e vive no Campo ileso, íntegro. Foi o primeiro a compreender que esta vida é uma guerra” (p. 51). Alberto era amigo de trabalho, caminhadas, refeição, silêncio, “companheiro inseparável”.

 

Na experiência dura de Primo Levi no campo de concentração, ainda que ele mal reconheça, há “um resíduo de esperança inconfessável”, algo que é mais forte do que seu cansaço, do que sua fome, do que a perda de significado da vida naquela situação extrema. Deus não está ali, onde a voz de comando e o aceno da mão ordenem o fuzilamento de uma vítima inocente. Deus está na amizade que floresce entre as cinzas de Auschwitz.

 

Gladir Cabral é pastor, músico e professor de letras na Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc). Acompanhe o seu blog pessoal.

 

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